Gaza tem colapso no sistema de saúde e surtos de doenças, aponta entidade
Diretor da Médicos do Mundo afirma que ofensiva agravou insegurança alimentar, hídrica e colapso hospitalar na região

O diretor de Saúde e Mobilização Social da Médicos do Mundo, Ricardo Angora, afirmou que a população de Gaza, Cisjordânia e Líbano enfrenta uma “crise sanitária de grandes proporções” em decorrência da ofensiva israelense. Segundo ele, a situação envolve insegurança alimentar e hídrica, más condições sanitárias, destruição de hospitais e ataques contra profissionais de saúde.
A declaração foi feita durante o encontro virtual “Profissionais de saúde em Gaza: viver, resistir e cuidar”, realizado nesta segunda-feira por entidades ligadas à saúde pública, entre elas a Federação de Associações para a Defesa da Saúde Pública (FADSP), a Federação de Enfermagem Comunitária e de Atenção Primária (FAECAP), a Médicos do Mundo e a Sociedade Espanhola de Saúde Pública e Administração Sanitária (SESPAS).
Angora criticou a ausência de um cessar-fogo efetivo na Faixa de Gaza. Segundo ele, desde o acordo firmado em outubro de 2025, teriam sido registrados 350 ataques, com 1.039 mortos e 2.800 feridos. O diretor também destacou o que classificou como um “padrão de destruição em massa de estruturas civis”, com destruição de moradias e áreas residenciais. De acordo com ele, mais de um milhão de pessoas foram deslocadas e vivem em acampamentos com acesso precário a água potável, saneamento e alimentação.
Ele chamou atenção ainda para a falta de energia elétrica, que compromete a conservação de alimentos e impede o acesso a serviços básicos como aquecimento e preparo de refeições. “As condições de vida são muito precárias e sobreviver nessas condições tem grande impacto na saúde das pessoas”, afirmou.
Doenças associadas à falta de água e saneamento
Angora alertou para o aumento de doenças relacionadas à insegurança hídrica, como infecções gastrointestinais, disenteria e doenças dermatológicas, associadas ao consumo de água contaminada. Segundo ele, a insegurança alimentar agrava o cenário. O diretor afirmou que 87% das terras cultiváveis de Gaza estariam parcialmente destruídas e que dois terços das famílias dependem de ajuda humanitária das Nações Unidas para alimentação.
Ele acrescentou que, embora a maioria da população consiga realizar ao menos duas refeições diárias, parte dos moradores enfrenta períodos sem alimentação. Segundo os dados apresentados, 5% passaram ao menos um dia no último mês sem comer, enquanto entre 17% e 20% fazem apenas uma refeição por dia. O quadro estaria associado a casos de desnutrição aguda grave, que afetariam cerca de 31 mil crianças menores de cinco anos.
Angora também relatou surtos de doenças em campos de deslocados, como sarampo, meningite, dermatites, varicela, sarna e icterícia.
Sistema de saúde em colapso
O representante da Médicos do Mundo afirmou que o sistema de saúde na região enfrenta colapso operacional, com falta de eletricidade, combustível, água potável e medicamentos. Segundo ele, há estoques retidos fora da região, enquanto o acesso aos insumos é limitado.
Ele relatou ainda que, desde outubro de 2023, teriam sido registrados 968 ataques a instalações de saúde em Gaza, além de outros cerca de 100 após o cessar-fogo. De acordo com os dados apresentados, apenas um terço dos postos de atendimento estariam funcionando plenamente, assim como metade dos centros de atenção primária e dos hospitais.
Angora afirmou também que mais de 1.000 profissionais de saúde morreram em Gaza, além de cerca de 2.000 feridos. Na Cisjordânia, seriam 31 mortos e 168 feridos, enquanto no Líbano mais de 130 paramédicos teriam morrido.
Profissionais relatam sobrecarga e falta de recursos
O anestesista Refaat Alethamna, que atuava em Gaza e atualmente vive na Espanha, descreveu a situação como de “colapso”, com aumento expressivo da demanda por atendimento. Segundo ele, o número de pacientes em emergências teria multiplicado por dez.
Ele também relatou falta de medicamentos e equipamentos, o que obriga pacientes a comprar remédios a preços elevados. Além disso, afirmou que profissionais de saúde enfrentam atrasos salariais prolongados e, em alguns casos, recebem valores simbólicos, o que tem levado parte da equipe a buscar deixar a região.
Impacto na saúde mental
O psiquiatra Yamil Mahmoud destacou os efeitos da crise sobre a saúde mental da população, especialmente entre crianças, devido à insegurança, falta de moradia e ausência de serviços básicos como educação e saúde. Ele defendeu atenção especial à infância e afirmou que a recuperação da saúde mental depende do fim da ocupação e de maior pressão internacional sobre governos ocidentais.
As entidades organizadoras do encontro divulgaram um manifesto pedindo um “cessar-fogo real”, acesso humanitário sem restrições e a criação de um fundo de reconstrução para a região, além da evacuação de pacientes em estado grave.
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