Por que uma cantora foi condenada a 74 chibatadas no Irã? Veja as punições do país
Artista foi condenada a 74 chibatadas após se apresentar sem hijab em transmissão ao vivo; prática é prevista pela legislação iraniana e alvo de críticas internacionais

A condenação da cantora iraniana Parastoo Ahmadi, de 29 anos, a 74 chibatadas reacendeu o debate sobre as punições corporais no Irã. A artista foi sentenciada por um tribunal da província de Qom após realizar uma apresentação transmitida pelo YouTube sem usar o hijab, o véu obrigatório para mulheres no país. Mas como funciona esse tipo de punição? Ela ainda é aplicada? E quais crimes podem levar a uma sentença de flagelação?
Por que Parastoo Ahmadi foi condenada?
Segundo informações divulgadas pelo jornal britânico The Guardian, a cantora e outros oito integrantes da produção foram considerados culpados por produzir e divulgar conteúdo considerado "vulgar e imoral" na internet.
Além das 74 chibatadas, o grupo foi proibido de deixar o país e de exercer atividades artísticas por dois anos.
As chibatadas ainda são previstas na lei iraniana?
O Código Penal Islâmico do Irã prevê a flagelação como punição para mais de 100 tipos de infrações.
As penas podem ser aplicadas em casos como:
- consumo de bebidas alcoólicas;
- adultério;
- relações entre pessoas não casadas;
- violação da chamada "moral pública";
- difamação;
- vandalismo;
- fraude;
- agressão;
- relações homossexuais consensuais.
Quantas chibatadas uma pessoa pode receber?
A quantidade varia conforme o delito.
Um dos casos mais conhecidos ocorreu em 2018, quando um homem recebeu 80 chibatadas por ter consumido bebida alcoólica durante um casamento quando ainda era adolescente. A punição foi executada mais de dez anos após o ocorrido.
Já Parastoo Ahmadi foi condenada a 74 chibatadas por ter cantado sem o hijab em uma transmissão ao vivo.
Essas punições são realizadas em público?
Organizações como a Anistia Internacional denunciam que as sentenças podem ser executadas em praças ou diante de testemunhas. Em determinados episódios, imagens divulgadas pela imprensa local mostraram condenados amarrados enquanto recebiam os golpes.
O Irã aplica outras punições?
Além das chibatadas, a legislação iraniana prevê penas como amputação e, em determinados casos, a pena de morte.
Historicamente, o país também utilizou o apedrejamento como forma de execução para condenados por adultério. O método ganhou repercussão internacional em 2010, após o caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada inicialmente a 99 chibatadas e, posteriormente, à morte por lapidação.
A prática é criticada por organismos internacionais?
A Anistia Internacional e órgãos ligados à Organização das Nações Unidas (ONU) afirmam que as punições corporais violam tratados internacionais que proíbem tortura e tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.
Em diferentes ocasiões, entidades de direitos humanos pediram ao governo iraniano a abolição da flagelação, da amputação e de outras penas físicas.
Cristiano Ronaldo poderia ser condenado a chibatadas no Irã?

Em 2023, veículos da imprensa iraniana divulgaram que advogados do país teriam apresentado uma denúncia contra Cristiano Ronaldo após o jogador beijar o rosto e abraçar a artista Fatima Hamimi durante uma visita ao Irã.
As notícias afirmavam que, pela interpretação de setores conservadores da legislação, o gesto poderia ser enquadrado como adultério e resultar em 99 chibatadas. No entanto, a punição nunca chegou a ser confirmada oficialmente pela Justiça iraniana.
Desde quando essas punições existem no Irã?
As penas corporais foram incorporadas ao sistema jurídico iraniano após a Revolução Islâmica de 1979, que transformou o país em uma república teocrática.
Desde então, a legislação passou a ser fortemente baseada na interpretação das leis islâmicas, e punições como flagelação e amputação continuam previstas pelo Código Penal do país.
Jornalista graduada na PUC Minas. Trabalhou como repórter do caderno Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, produziu conteúdos para as editorias Turismo, Gastronomia e Emprego/ Concursos. Atualmente, colabora com as editorias Minas Gerais, Brasil e Mundo.



