Uma intensa
A tempestade de inverno, batizada de Fern, deve cobrir uma faixa que atravessa mais da metade do território continental americano. As previsões indicam impactos desde o Texas e as Grandes Planícies até estados do Meio-Atlântico e do Nordeste, com riscos para o transporte, fornecimento de energia e segurança da população.
Especialistas acompanham o avanço do frio com atenção, já que eventos desse tipo vêm chamando cada vez mais a atenção de cientistas que estudam o clima e suas transformações.
O que é o vórtice polar
O vórtice polar é uma extensa área de baixa pressão e ar extremamente frio que gira em sentido anti-horário sobre o Ártico. Ele se forma na estratosfera, entre 10 e 50 quilômetros acima da superfície da Terra.
Em condições normais de inverno, esse sistema permanece mais compacto e concentrado nas altas latitudes, ajudando a manter o frio intenso restrito ao extremo norte do planeta. Na maior parte do tempo, ele não interfere diretamente no clima das regiões mais ao sul.
Segundo a cientista Jennifer Francis, do Centro de Pesquisa Climática Woodwell, em entrevista à agência AFP, o vórtice geralmente permanece estável. No entanto, em alguns momentos, ele pode se deslocar ou se alongar em direção à América do Norte, levando consigo uma massa de ar polar capaz de derrubar as temperaturas de forma abrupta.
Como o vórtice se comporta
Ondas atmosféricas que se formam em camadas mais baixas da atmosfera podem subir e desestabilizar o vórtice polar. Em vez de se romper totalmente, como acontece em eventos mais extremos de aquecimento súbito da estratosfera, o sistema pode se alongar e perder sua forma circular.
O climatologista Judah Cohen, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), compara esse processo a um elástico sendo puxado. Quando isso acontece, o ar frio consegue avançar muito mais ao sul do que o normal, como está sendo observado agora nos Estados Unidos, explicou o especialista à AFP.
Também em entrevista à agência de notícias, Jason Furtado, meteorologista da Universidade de Oklahoma, disse que esses episódios de alongamento costumam durar menos do que uma ruptura completa do vórtice, mas ainda assim são relevantes e suficientes para provocar ondas de frio severas, especialmente na América do Norte.
Relação com as mudanças climáticas
A ligação entre o vórtice polar e o aquecimento global é um dos temas mais debatidos atualmente na ciência do clima. Há consenso, inclusive em relatórios do painel climático da ONU, de que o Ártico está aquecendo muito mais rápido do que a média global, fenômeno conhecido como amplificação ártica, causado principalmente pela ação humana.
Para Cohen, esse aquecimento desigual favorece a formação de grandes ondas atmosféricas sobre a Eurásia, o que aumenta a chance de o vórtice polar se deslocar e atingir a América do Norte com mais frequência.
Jennifer Francis reforça que estudos recentes indicam que essas anomalias no vórtice estão se tornando mais comuns em um planeta em aquecimento, contribuindo para a ocorrência de extremos de inverno mais frequentes.
Já Furtado adota uma postura mais cautelosa. Ele reconhece que os últimos 20 anos mostram um aumento desses episódios, mas alerta que ainda faltam dados suficientes para afirmar, com total segurança, que eles estejam diretamente ligados às mudanças climáticas provocadas pelo ser humano.