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Com vitória de Fujimori 'batendo na porta', entenda relação diplomática entre Brasil e Peru

Candidata alinhada à direita alcançou uma vantagem irreversível na corrida presidencial do país sul-americano; Brasil e Peru dividem uma fronteira extensa com mais de dois mil quilômetros

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Keiko Fujimori durante campanha eleitoral
Keiko Fujimori durante campanha eleitoral • Reprodução/Redes Sociais

Keiko Fujimori — candidata alinhada à direita pelo partido Fuerza Popularalcançou, matematicamente, a vitória na corrida presidencial do país sul-americano, em uma disputa com Roberto Sánchez, do Juntos por el Perú. Apesar disso, o resultado oficial deve ser divulgado nas próximas semanas, segundo os órgãos eleitorais peruanos.

Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, Keiko perdeu as eleições presidenciais no segundo turno em 2011, 2016 e 2021 — o que evidenciava uma maior força política do país, conhecida como: antifujimorismo, um movimento de rejeição ao legado da família. Agora, o cenário muda e a direitista pode receber as credenciais de governante do país em 15 de julho, de acordo com a imprensa local.

A oficialização do resultado torna o Brasil um dos poucos países da América do Sul a ser liderado por um político mais alinhado à esquerda, com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no poder. Neste momento, especialistas buscam prever como será a relação entre os países a partir da eleição de Fujimori.

Brasil e Peru compartilham uma fronteira com 2.995 quilômetros e, apesar de serem vizinhos, não possuem um histórico profundo de intercâmbio econômico ou político, segundo especialistas. A principal relação entre os Estados é intermediada por temas como segurança e combate ao narcotráfico — especialmente pela extensa fronteira.

Eleições 2026

Na foto, Keiko Fujimori e Roberto Sánchez durante votação • Reprodução/Redes Sociais
Na foto, Keiko Fujimori e Roberto Sánchez durante votação • Reprodução/Redes Sociais

Antes de aprofundarmos sobre a agenda entre os países, vamos relembrar a trajetória das eleições presidenciais peruanas neste ano — em um país que vive uma das maiores crises de credibilidade na representatividade política da América do Sul.

O estopim aconteceu em 2018, com a renúncia do então presidente Pedro Pablo Kuczynski para evitar um impeachment. Desde então, o país vive um cenário marcado por oito presidentes em oitos anos, com destituições parlamentares e quedas provocadas por protestos populares.

Primeiro turno

Eleitores fazem fila após prorrogação das votações por falhas técnicas no 1º turno • Ernesto Benavides / AFP
Eleitores fazem fila após prorrogação das votações por falhas técnicas no 1º turno • Ernesto Benavides / AFP

A eleição presidencial no Peru, iniciada no mês de abril deste ano, foi marcada por instabilidades, inseguranças e falhas no sistema eleitoral do país. O primeiro turno apresentou graves problemas logísticos e operacionais. Devido a erros na distribuição, o material eleitoral — cédulas e urnas — não chegou a tempo em diversos centros de votação e, como consequência, mais de 200 mesas de votação não conseguiram abrir no dia 12 de abril.

Assim, para garantir o direito ao voto, a autoridade eleitoral tomou a medida excepcional de estender a votação para o dia seguinte. A desorganização logística impediu aproximadamente 63 mil eleitores votassem no dia oficial, ocasionando enorme confusão, longas filas e frustração nos locais afetados.

O primeiro turno teve uma quantidade recorde de participantes: foram 35 candidatos à Presidência oficialmente nas cédulas de votação. O pleito teve como resultado:

  • Keiko Fujimori (Partido Fuerza Popular): em primeiro lugar, com cerca de 17,19% dos votos válidos.
  • Roberto Sánchez (Partido Juntos por el Perú): em segundo lugar, com cerca de 12,04% dos votos válidos.

Segundo turno

Após a apuração e confirmação do segundo turno, uma nova votação aconteceu em 7 de junho, sem intercorrências relevantes. Porém, a apuração dos votos passou por reviravoltas, questionamentos e pedidos de anulação.

Logo no início da contabilização, Keiko Fujimori assumiu a liderança. A candidata era considerada mais forte na capital do país, Lima, enquanto Roberto Sánchez tinha mais influência no interior peruano.

A primeira reviravolta aconteceu em 8 de junho, um dia após o pleito, quando Sánchez ultrapassou Fujimori. Na época, Sánchez tinha 50,7% dos votos, contra 49,94% de Fujimori, com uma diferença de apenas 20 mil votos.

Em 11 de junho, a candidata pelo Fuerza Popular assumiu novamente a ponta, com 98,21% das urnas apuradas. Com a mudança, Fujimori possuía 50.002% dos votos enquanto Sánchez aparecia com 49.998%. Todos os números foram divulgados pelo Escritório Nacional de Processos Eleitorais do Peru (ONPE).

Keiko Fujimori conseguiu uma distância um pouco maior do oponente quando os votos realizados no exterior começaram a ser contabilizados. A candidata era vista como favorita neste quesito.

Como resposta, o partido Juntos por el Perú entrou com uma ação judicial contra as autoridades eleitorais exigindo a anulação de todos os votos no exterior. Enquanto isso, Roberto Sánchez, além de fazer diversas declarações afirmando que não irá reconhecer a derrota, convocou, protestos pelo país.

Keiko Fujimori alcança vantagem irreversível

Keiko Fujimori alcançou uma vantagem irreversível na apuração do 2º turno das eleições do país. Até quarta-feira (24), com mais de 99,8% das urnas apuradas, a candidata de direita aparecia com 50,11% dos votos, contra 49,88% alcançado pelo rival Roberto Sánchez. A diferença chegou a aproximadamente 43 mil votos.

Porém, a vitória de Fujimori ainda deve demorar para ser oficial, entenda o que falta:

  • O Escritório de Processos Eleitorais do Peru (ONPE, na sigla em espanhol) aguarda o envio de resolução de algumas das atas eleitorais que estão com o Jurado Nacional de Eleições (JNE), órgão eleitoral máximo peruano.
  • Depois, o ONPE conseguirá concluir a contabilização as atas restantes ao cálculo oficial e finalizar oficialmente a apuração.  Ao todo, 60 membros do JNE realizam audiências para processar cada uma das atas eleitorais antes de passá-las para o ONPE.

Por conta deste trâmite, o jornal peruano El Comercio divulgou que o JNE acredita conseguir transmitir os resultados ao ONPE até 7 de julho e as credenciais para o próximo governante do país seriam entregues no dia 15.

Mapa mostra Brasil e Peru, países localizados na América do Sul • Reprodução
Mapa mostra Brasil e Peru, países localizados na América do Sul • Reprodução

Como o Brasil deve reagir à eleição de Fujimori?

Para a doutora em direito pela Universidade de São Paulo (USP) e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Elaini Silva, não deve haver reação de contestação pelo Itamaraty, enquanto órgão oficial de representação do Estado brasileiro.

“A menos que haja alguma fraude muito evidente repercutida pelos observadores internacionais que acompanham as eleições (...). Foi adotada, há várias décadas, a doutrina de que o Estado brasileiro não deve incorrer em práticas de reconhecimento, ou não, de governo que impliquem em ingerência em assuntos internos de outros Estados”, explicou Silva.

Entretanto, Silva destacou que, com Keiko Fujimori se tornando presidente, “o Brasil acaba sendo o ‘bastião’ da América do Sul da defesa dos direitos humanos, da luta contra a pobreza e da busca do desenvolvimento como objetivos legítimos de atuação do Estado”.

Relação entre Brasil e Peru

Países dividem fronteira de 2.995 quilômetros • Gleilson Miranda/Governo do Acre
Países dividem fronteira de 2.995 quilômetros • Gleilson Miranda/Governo do Acre

O Brasil divide com o Peru a segunda fronteira mais extensa, com 2.995 quilômetros, atrás apenas da Bolívia. Apesar de serem países vizinhos, não há um “histórico de profundo intercâmbio, nem econômica, nem politicamente”, como descreve a doutora em direito pela USP e professora da PUC-SP, Elaini Silva.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil divulgou que os países mantêm uma “Aliança Estratégica” desde 2003. A agenda bilateral inclui temas como:

  • Comércio: o Brasil é um dos maiores parceiros comerciais do Peru. A corrente de comércio bilateral movimenta bilhões de dólares anualmente. O Brasil exporta principalmente veículos, produtos de ferro e aço e manufaturados, enquanto o Peru exporta para o Brasil cobre, outros minérios e zinco.Integração
  • Fronteiriça: a cooperação na região de fronteira (ligando o Acre e o Amazonas peruanos) é prioritária. Ambos os países mantêm comissões e acordos focados no desenvolvimento social, saúde e segurança na região.
  • Cooperação logística: a Rodovia Interoceânica é o principal símbolo da ligação física entre os dois países, facilitando a rota de exportação brasileira em direção aos portos peruanos e o comércio com os mercados asiáticos.
  • Diplomacia: em nível regional e global, os países compartilham visões semelhantes, atuando juntos em blocos como a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).

A integração fronteiriça é considerada pauta prioritária do relacionamento bilateral, tendo em vista o combate aos ilícitos transnacionais, sobretudo ao narcotráfico. A pasta aponta que o intercâmbio comercial entre Brasil e Peru foi de US$4,3 bilhões.

Sistema eleitoral frágil

Keiko Fujimori é filha do ex-presidente Alberto Fujimori • CONNIE FRANCE / AFP
Keiko Fujimori é filha do ex-presidente Alberto Fujimori • CONNIE FRANCE / AFP

O sistema eleitoral peruano enfrenta fragilidades estruturais, caracterizadas pela extrema divisão política, lentidão na apuração e questionamentos de legitimidade. Confira, abaixo, algumas causas:

  • Votação em cédulas de papel: diferente de outros países (como o Brasil), o Peru utiliza cédulas de papel, o que facilita erros de soma, inconsistências nas atas e aumenta exponencialmente os votos submetidos à revisão judicial.
  • Logística lenta: a contagem dos votos é prejudicada por zonas eleitorais remotas e pela necessidade de computar votos de peruanos no exterior. Em cenários de disputa acirrada, a apuração pode se arrastar por semanas.
  • Sistema partidário fragmentado: as candidaturas carecem de bases de apoio sólidas e duradouras, o que resulta em dezenas de candidatos disputando a Presidência e presidentes governando sem maioria no Congresso.
  • Crise institucional crônica: as eleições no país têm servido para medir a divisão da sociedade e a insatisfação com o sistema político, o que tem gerado alta rotatividade de presidentes e episódios de destituição baseados em "incapacidade moral".

A confiabilidade nos processos eleitorais deveriam ser garantidos. É o que explica o professor do professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Lucas Rezende: “a eleição no Peru espelha uma sociedade extremamente dividida e indica que acontecerá uma dificuldade de governabilidade para quem quer que seja eleito”.

O especialista destaca que a população peruana está dividida — o que é diferente de uma polarização. “A polarização política nem sempre é um problema, é natural que haja oposição entre dois lados. Mas, nesse nível, não significa polarização, sim uma divisão. Com toda uma sociedade dividida não se consegue chegar a consensos”, esclarece.

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Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.