Assembleia Geral: em discurso de despedida, Guterres cita IA e admite que ONU está 'ultrapassada'
Secretário-geral das Nações Unidas deixa o cargo no fim deste ano após quase uma década; Assembleia Geral da ONU acontece até a próxima segunda-feira (28), em Nova York, nos Estados Unidos

Uso irresponsável da tecnologia, inteligência artificial, reformas na Organização das Nações Unidas (ONU) e crise de credibilidade da entidade foram alguns dos tópicos citados pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, responsável por abrir a Assembleia Geral nesta terça-feira (22), em Nova York, nos Estados Unidos. Durante a fala, o português admitiu, ainda, que a organização está ultrapassada.
Diante de mais de 100 líderes de estado e governo que participam do considerado o maior evento diplomático do mundo, Guterres, que deixa o posto no fim deste ano, defendeu uma ampla reforma na ONU, começando pelo Conselho de Segurança, responsável por deliberar sobre guerras e conflitos.
Ao longo do discurso, o secretário-geral foi duro ao fazer apelos por mais freios na inteligência artificial: "os seres humanos estão transferindo cada vez poder para as máquinas, com agentes de inteligência artificial agindo à revelia de seus controles e armas autônomas letais passando da ficção científica para a realidade militar", alertou Guterres — indicando que "o perigo não é a tecnologia. É a tecnologia usada sem responsabilidade".
António Guterres disse que entrega o cargo em um momento em que a humanidade enfrenta grandes testes de poder fundamentais para o futuro, citando a paz, a desigualdade, o clima e a inteligência artificial. A autoridade, que está à frente da ONU desde 2017, afirmou também que a gestão dele foi marcada por novas guerras e menos respeito ao direito internacional.
Na última década, eclodiram guerras de consequências devastadoras, prolongando-se com uma crueldade execrável. Civis foram alvos de ataques. Direitos humanos foram atropelados. A fome foi utilizada como arma. Trabalhadores humanitários foram mortos. O direito internacional foi deixado de lado. As divisões geopolíticas se aprofundaram
Reformas na ONU
Guterres apoiou, ainda, reformas na ONU para garantir a sobrevivência da entidade — que vive uma crise de credibilidade e financeira — e defendeu que as mudanças comecem pelo Conselho de Segurança, principal órgão das Nações Unidas responsável por zelar pela paz e pela segurança internacional.
De forma inédita, o português pediu a inclusão de países de África como membro permanente, ao lado dos Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. "Um Conselho de Segurança do século XXI sem representação africana permanente é injusto e indefensável", disse.
Já era esperado que António Guterres fizesse uma defesa do multilateralismo, conceito instaurado no fim da Segunda Guerra Mundial, onde vários países cooperam e atuam por meio de regras comuns, instituições globais e negociações coletivas para resolver problemas compartilhados. Entretanto, o secretário-geral admitiu que a ONU ficou estacionada nas premissas e no contexto nos quais foi criada, há 80 anos.
"Nossas instituições e sistemas de governança global continuam a refletir as realidades de poder e os interesses de uma era amplamente ultrapassada. Esse é o desafio central diante de nós", discursou. "(Precisamos de) instituições fortes e eficazes que reflitam as realidades, e não os arranjos de poder de 80 anos atrás", disse.
Despedida
António Guterres, o 9º secretário-geral das Nações Unidas, assumiu as funções em 1º de janeiro de 2017. Nesta terça-feira (22), durante o último discurso na Assembleia Geral, o português anunciou que a ONU alcançou, pela primeira vez, a igualdade de gênero entre os funcionários.
Ele pediu, ainda, que o mundo faça o mesmo: "se a ONU consegue mudar, governos, empresas e políticas também conseguem", declarou.
Ao fim do discurso, que ultrapassou os 20 minutos recomendados pela própria ONU, António Guterres foi aplaudido de pé por quase todo o plenário. O comitê dos Estados Unidos foi um dos únicos que não se levantou.
81ª Assembleia Geral da ONU
A 81ª Assembleia Geral da ONU acontece entre os dias 22 e 28 de setembro de 2026, em Nova York, nos Estados Unidos. Lideranças dos 193 Estados-membros farão declarações expondo as próprias posições e prioridades diante de desafios globais complexos e interligados.
O tema do debate este ano será: "Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma Organização das Nações Unidas que atenda a todas as pessoas".
Os discursos e os principais eventos serão transmitidos ao vivo, pela TV on-line da ONU. As Nações Unidas também disponibilizam a cobertura em português pela ONU News.
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.



