Itatiaia

Pererecas ameaçadas? Vírus letal reduz em 83% população em reserva da Mata Atlântica

Ranavírus provocou surtos recorrentes em Santa Catarina e é apontado como responsável pelo primeiro caso comprovado de morte em massa de anfíbios pela doença na América do Sul

Por
Germano Woehl Jr. | Instituto Rã-Bugio

Um vírus altamente letal está afetando a reprodução de pererecas em uma área de Mata Atlântica em Santa Catarina. Pesquisadores identificaram que surtos recorrentes de ranavirose provocaram uma redução de 83% na reprodução da perereca-macaco (Phyllomedusa distincta) em uma lagoa da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Santuário Rã-Bugio, em Guaramirim. O estudo é apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

O resultado chama atenção porque representa a primeira evidência comprovada na América do Sul de que o ranavírus pode provocar o colapso de uma população de anfíbios silvestres. A doença também pode infectar répteis e peixes e já é associada a riscos de extinção de anfíbios na Europa.

O estudo foi publicado na última semana na revista científica Biodiversity and Conservation. Os pesquisadores acompanharam episódios de mortalidade registrados na reserva e relacionaram os surtos à forte queda na reprodução da espécie.

Três surtos foram registrados

A primeira ocorrência de mortalidade foi registrada em janeiro de 2024. Outros dois episódios aconteceram entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 e entre novembro de 2025 e março de 2026. Ao todo, os pesquisadores encontraram 324 girinos mortos na lagoa durante o período analisado. Desses, 315 eram pererecas-macaco e nove pertenciam à espécie perereca-de-pijama (Boana bischoffi).

Entre as pererecas-macaco, 279 animais, ou 88,6%, testaram positivo para o ranavírus. Na perereca-de-pijama, oito dos nove animais mortos apresentaram resultado positivo, equivalente a 88,9%. A quantidade de pererecas-de-pijama encontrada, porém, foi considerada pequena para caracterizar uma mortandade em massa da espécie.

Para confirmar que o vírus estava relacionado às mortes, os pesquisadores analisaram o fígado de 13 girinos por meio de exames histológicos, capazes de identificar alterações em tecidos e células. As análises encontraram lesões compatíveis com uma infecção severa.

Vírus destrói tecidos dos girinos

A ranavirose pode avançar rapidamente nos girinos. A infecção provoca destruição e necrose de tecidos de órgãos importantes, como o fígado. Entre os sinais observados pelos pesquisadores estão inchaço abdominal, vermelhidão intensa, úlceras e hemorragias, inclusive nos olhos dos animais.

Segundo Aline Fonseca, pesquisadora que realizou o trabalho durante o doutorado na Universidade Federal do Paraná (UFPR), apesar de já existirem registros suspeitos de mortes causadas pelo vírus no continente americano, esta é a primeira vez que a doença é comprovada como causa de uma mortandade em uma espécie nativa da América do Sul por meio de análises dos tecidos e do vírus isolado dos animais.

Queda na reprodução também preocupa

A descoberta não se limita aos animais encontrados mortos. Os pesquisadores também analisaram o impacto dos surtos sobre a capacidade de reprodução da população. No período entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, após os episódios de mortalidade, a quantidade de massas de ovos encontrada na lagoa ficou muito abaixo do registrado nos mesmos meses entre 1999 e 2004.

A comparação levou os pesquisadores a estimar uma queda de 83% na reprodução da perereca-macaco. A redução é especialmente relevante porque os ovos são depositados nas folhas próximas à água. Depois da eclosão, os girinos caem na lagoa, onde completam parte importante do desenvolvimento. Com menos ovos chegando à fase de girino e uma alta mortalidade provocada pelo vírus, a população pode enfrentar dificuldades para se recuperar.

Tempo seco pode favorecer surtos

Os pesquisadores também investigaram se condições ambientais poderiam estar relacionadas aos episódios de mortalidade. Nenhuma variável ambiental analisada apresentou influência tão significativa sobre a queda populacional quanto a própria ranavirose. No entanto, os dados indicaram uma associação entre períodos de baixa umidade e o aumento do risco de surtos.

De acordo com Aline Fonseca, o vírus pode permanecer presente no ambiente sem necessariamente provocar doença. Quando a umidade cai, entretanto, a replicação do patógeno pode aumentar. Além disso, condições de baixa umidade podem comprometer o sistema imunológico dos anfíbios, facilitando a infecção. O estudo identificou um aumento abrupto do risco de surto quando a umidade caiu de 90% para 65% nas duas semanas anteriores aos episódios de mortalidade.

Ameaça pode ser maior do que casos conhecidos

O ranavírus é encontrado com frequência em rãs-touro (Aquarana catesbeiana), inclusive em criações comerciais e na natureza. Nesses animais, a presença do vírus geralmente não provoca doença.

Nas últimas décadas, porém, aumentaram os relatos de mortes suspeitas entre espécies nativas nas Américas do Norte e do Sul. Os pesquisadores alertam que outros episódios de mortalidade provocados pelo patógeno podem estar acontecendo sem serem identificados. A situação preocupa especialmente porque os anfíbios já enfrentam diversas ameaças ambientais, como perda de habitat, mudanças climáticas, poluição e outras doenças.

O professor Luís Felipe Toledo, do Instituto de Biologia da Unicamp e coordenador do projeto apoiado pela FAPESP, destaca que ainda não se sabe exatamente há quanto tempo o ranavírus está presente no Brasil ou o que fez com que ele passasse a representar uma ameaça maior às espécies nativas.

Por

Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

 

 

Belo Horizonte