Itatiaia

Privilégio, inspiração e responsabilidade: Allessa Paes fala sobre ser Miss Brasil Gay 2026

Em entrevista à Itatiaia, ganhadora na edição que comemorou 50 anos de criação do concurso conta como o autoconhecimento levou ao propósito que se tornou a coroa e a faixa

PorJuiz de Fora
Miss Brasil Gay/Divulgação

A primeira vez que viu o rosto maquiado corretamente. Ver Guiga Barbieri coroar a Miss Pará Gay em 2018. Ficar no top 5 do concurso que elege o mais belo transformista em 2023. Ao ser coroada neste ano, estes foram alguns dos flashes que passaram pela mente de Allessa Paes, a Miss Brasil Gay 2026.

Em entrevista à Itatiaia, ela detalhou como estes fragmentos de uma jornada construíram a pessoa que se tornou confiante ao ponto de caminhar na passarela como guerreira-onça e desfilando elegância em prata e azul em degradê, consciente que a beleza era um detalhe, mas não o primordial.

“A nossa mensagem é inspirar outras pessoas a acreditarem nos seus sonhos, e que é possível. Se hoje eu estou realizando esse sonho, foi porque eu acreditei. Essa responsabilidade desse um ano de reinado [é] conseguir tocar no coração das pessoas e despertar o interesse e a vontade para realizar seus sonhos. Porque eu falo em todos os âmbitos, não é apenas com o concurso de beleza, é isso que nos move enquanto ser humano, acreditar nos nossos sonhos, assim trabalhar para que possa ser uma realidade”, contou.

Ouça a íntegra da entrevista

A maquiagem que revelou o potencial

Aos 36 anos, a paraense Allessa Paes, que dividia a rotina entre estudante de Odontologia, correspondente bancário, recebeu a coroa e a faixa sob os confetes da vitória. Esta conquista começou há quase uma década e meia quando a preparação para o carnaval mostrou o que nunca havia percebido.

“A arte do transformismo entrou na minha vida há mais de 14 anos, com um amigo, numa festa de carnaval, ele falou que ia maquiar o meu rosto e ia ver como que ficaria. Quando ele terminou, eu fiquei assustado com o resultado, no sentido de assustado positivamente”.

O amigo sugeriu que Allessa aprendesse a se maquiar, como forma de conhecer o próprio rosto. “Eu ouvi isso de uma forma tão acolhedora e também, aí foi o início de mais uma profissão, porque eu também sou maquiador e cabeleireiro, é algo a mais que acrescentou na minha vida”.

A passagem da arte do transformismo para o mundo miss veio a partir de uma inspiração: Guiga Barbieri, vencedora em 2017.

“A primeira vez que eu olhei o mundo Miss e falei ‘eu quero estar um dia neste palco’ foi em 2018, quando a Giga Barbieri, a Miss Brasil Gay, foi ao meu estado fazer a coroação naquele ano da Miss Pará. Desde então, eu entendi e acreditei que um dia eu poderia estar em cima de um palco”

Sem prever que essa decisão a levaria a ser a Miss Brasil Gay dos 50 anos de criação, ela encarou as dificuldades de desbravar este caminho. “No início foi bem difícil, poucos apoiaram, mas aos poucos tudo foi dando certo. Em 2023, eu tive a oportunidade de participar do concurso Miss Macaé Gay no Rio de Janeiro, e ganhei a vaga de Sergipe, representei no Miss Brasil conquistando o Top 5”.

•

O que faltava para a coroa: conhecer a si mesma

Ao descer do palco do concurso três anos atrás, Allessa Paes não pensou em derrota, mas entendeu o que precisava para escrever o próprio destino. “Ali eu entendi que eu tinha força, tinha coragem, determinação, mas faltava um propósito para eu ser a Miss Brasil Gay”.

Três anos de preparação para retornar. Não apenas a parte técnica, planejamento de desfile, de figurino, treino para oratória. Allessa se dedicou a se entender em todos os aspectos

“Não é tudo sobre beleza, mas é sobre você validar a imagem que você quer. Até esse processo de transformismo, você vai reconhecer o que você enxerga de bonito no espelho, mas principalmente quem você é enquanto pessoa. Eu tinha beleza externa, as pessoas sempre viram aquilo. Mas e eu enquanto ser humano, enquanto essência, no que eu acredito? E foi quando a questão do autoconhecimento, eu descobri o poder que nós temos enquanto pessoa, enquanto Misses, de impactar a vida dessas pessoas e olhar a pessoa, olhar e te falar ‘eu fiz isso porque eu me inspirei em você’”.

• Miss Brasil Gay/Divulgação
• Miss Brasil Gay/Divulgação

A vontade de impactar outras pessoas como Guiga Barbieri e o amigo a inspiraram levou à atitude que Allessa colocou na passarela. Ela venceu os prêmios de melhores Trajes Típico e de Gala, desfilou confiante com apoio de uma torcida barulhenta liderada pelo namorado e amigos. Depois de longo caminho, ela estava onde se imaginou, ocupando o lugar que fez por merecer.

“Quando eu cheguei naquele palco, o que eu pensava era, ‘preciso ser eu’, mostrar minha força agora através da atitude e que as pessoas vejam externamente, através de movimentos, através de expressões, que eu estou preparado e que eu quero a coroa de Miss Brasil. Consegui fazer essa conexão e me sentir pertencente àquele lugar. E todas as vezes que eu dava uma batida ao chão ou todas as vezes que eu fazia qualquer movimento, mais energia entrava no corpo, mais força eu tinha e eu sabia que eu sairia dali vitoriosa”.

• Miss Brasil Gay/Divulgação
• Miss Brasil Gay/Divulgação

‘Respeito não tem cor, não tem raça e não tem prazo de validade’

Este foi um trecho da resposta de Allessa Paes na etapa da oratória, ao ser questionada o quanto a comunidade LGBTQIPAN+ avançou e o que faltava nos 50 anos do Miss Brasil Gay. Ela defendeu a necessidade das pessoas enxergarem umas às outras sem barreiras, e se respeitarem como pilares para uma sociedade mais justa.

“Você descobre quem você é enquanto pessoa e a força que você tem. A partir de momentos em que a gente vê isso na sociedade, a questão do preconceito, a questão da violência e principalmente, liberdade. De fato, hoje nós temos espaço, temos voz, temos representatividade, mas o que falta? Liberdade, liberdade para estarmos em todos os lugares, que é o mesmo de qualquer cidadão e liberdade para sermos quem somos e amar quem for de afinidade. É só questão de liberdade, só é questão de respeito, não tem nada além disso”.

• Miss Brasil Gay/Divulgação
• Miss Brasil Gay/Divulgação

Ainda entendendo o significado de realizar o sonho, olhando a coroa e a faixa - ciente do peso e do que representam - Allessa encerrou a entrevista reiterando a mensagem de todos descobrirem a própria força.

“Está sendo tão significativo, tendo agora esse espaço que um dia eu sonhei, é exatamente tudo que eu acreditei. Para toda a sociedade, para todos os brasileiros, especialmente para a comunidade, apenas respeitem as pessoas, respeitem quem elas são. Quando eu falei que nós precisamos enxergar as pessoas em sua totalidade, respeitando suas histórias, suas vivências e, principalmente, a sua dignidade, é exatamente sobre isso. E para as pessoas da comunidade, acreditem em vocês mesmos, acreditem nos seus sonhos e não deixem que outras pessoas coloquem limites nisso. E se amparem de pessoas positivas, porque isso vai fazer a diferença na vida de vocês para qualquer coisa que se disponibilizar e a estar fazendo, para qualquer sonho que vocês queiram realizar. Essa é a minha mensagem”

 

Por

Natural de Juiz de Fora, jornalista com graduação e mestrado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Experiência anterior em Rádio, TV e Internet. Gosta de esporte, filmes e livros. Editora Web na Itatiaia Juiz de Fora desde 2023. Tricampeã na categoria Web/Mídias Digitais no Prêmio Oddone Turolla de Jornalismo, do Sindicomércio JF.

 

 

Belo Horizonte