O charme da São João: comerciantes se declaram à rua icônica do Centro de Juiz de Fora
A rua que quase não existiu se tornou o segundo Calçadão do município, a primeira Associação dos Lojistas e uma vitrine digital só amplia o que já existe: o espírito unido, leve, empreendedor e apaixonado de quem está ali e não quer sair de jeito nenhum.

Um local onde todos se conhecem há muito tempo e onde as pessoas encontram de tudo no Centro de Juiz de Fora. Espaço de comércio, de afeto, defendido com paixão por quem está ali todo dia. Do início contra a corrente até a união em uma Associação e a presença nas redes sociais, a Rua Barão de São João Nepomuceno faz questão de ser única.
Quem garante isso, em diferentes relatos, são os comerciantes que estão em algum ponto dos 430 metros entre as avenidas Getúlio Vargas e Rio Branco – sim, este é o sentido da numeração – apesar do trânsito seguir o fluxo contrário. Eles esperam pelos visitantes que chegam vindos das galerias que a unem à Halfeld e à Santa Rita, ou pela Rua Batista de Oliveira, que a divide nas conhecidas partes alta e baixa.
A Itatiaia ouviu o que os comerciantes sentem e expressam: se a Halfeld é o coração, a São João é o estado de espírito de Juiz de Fora: alegre, leve, solidário e empreendedor.
Assista.
As transformações da rua que quase não existiu
Especialista em contar histórias que passam despercebidas pelas pessoas, o turismólogo e historiador Inácio Botto resumiu a inesperada trajetória da São João com uma expressão típica brasileira: “deu bafafá”.
Diante da ideia de abrir mais uma via no Centro, os então vereadores não gostaram da ideia por motivos estéticos, harmônicos e de saúde da população. O impasse terminou em 1883, com as doações que viabilizaram a criação da rua.
Em 103 anos, nova polêmica fomentou a transformação em calçadão, o segundo do município. Mais à frente, a revitalização deu a cara que os moradores e visitantes conhecem atualmente: com a parte alta fechada ao tráfego, com mobiliário urbano e um convite à convivência, ao comércio e ao lazer. Ouça.
Oferecer o que ninguém encontra em lugar nenhum
Há 36 anos, Roberto Barbosa de Oliveira está todos os dias na Local Eletrônica, quase na esquina com a Avenida Getúlio Vargas. E isso começou com a solução de um problema: comprou a loja que já existia na São João e passou a oferecer aos clientes o que não havia em outras lojas.
“O que me trouxe para esse negócio foi a minha necessidade no ramo da eletrônica. A gente iniciou como loja de componente eletrônico e, com o passar do tempo, viu as necessidades dos nossos clientes. E ampliou essa loja no ramo ainda para som profissional, iluminação, instrumentos musicais. Hoje a gente procura ter alguns itens também no ramo de TI. À medida que o cliente vai pedindo, a gente vai trazendo solução para eles”.
A partir disso, criou raízes. Entre ampliações e adaptações, uma decisão se manteve: em time que está ganhando, não se mexe.
“A gente sempre ficou aqui na rua São João. Foi mais fácil, e mais prático. Tem a vantagem de ter estacionamento fácil do lado, ponto de táxi em frente à loja e a visibilidade. Quem está passando na Getúlio Vargas consegue nos ver aqui. Então a gente está num ponto estratégico. É uma rua icônica da cidade também. A gente praticamente aqui na Parte Baixa, a gente conhece todos os lojistas. Então é bom estar aqui na rua São João”.

Mãe e Filha: o tempero do afeto que atravessa gerações
A Pipita celebrou três anos no Calçadão da São João, depois de mais de 44 anos na galeria Tenente Belfort Arantes, onde Carol Resende, praticamente foi criada embaixo da mesa da mãe, a fundadora Mônica Resende. A garota que usava um banquinho para alcançar o balcão cresceu, estudou, se formou e há nove anos atua na administração da lanchonete.
No meio do caminho, veio a pandemia. Mãe e filha decidiram buscar uma loja maior. O critério? “Quando a gente resolveu ampliar, não tinha outro lugar pra gente vir que não fosse a São João. A gente ficou de 2020 a 2023 procurando uma loja para poder estar na São João mesmo, pertinho do cliente, na rua que a gente considera a mais charmosa da cidade”.
Essa decisão vai além da estratégia comercial, também carrega muitas memórias que construíram mais que as comerciantes, mas o relacionamento de mãe e filha. O afeto que transbordou das receitas do salgado artesanal, mantendo as referências e dando novas caras aos banquinhos que tornam o espaço acolhedor, se revelando nas inúmeras mensagens deixadas no mural por clientes de todas as idades, com direito a lápis de cor.
“É o principal tempero, né? A gente fazer tudo igual há 47 anos, com a mesma receita que a minha mãe criou. Da gente ter esse cuidado de ser memória afetiva daqueles que nos acompanham há tantos anos e nos prestigiam. Quando é época de fim de ano, que as famílias se reúnem e você tem as quatro gerações por aqui juntas. Gente, isso enche a gente de alegria e de afeto”.
A experiência e a vivência fazem com que Carol Resende saiba de cor a receita que torna a São João tão especial.
“Ah, é a rua mais charmosa da cidade, gente. Tem comerciantes apaixonados pelo que fazem, que se engajam. A gente tem Associação. Você consegue resolver tudo que você precisa na São João, A São João é querida e amada por todos nós. Uma felicidade danada de já estar há três anos aqui na São João”.

A primeira rua com Associação de Lojistas: 'só vem!'
Em 1999, Cristiane Vasconcelos entrou numa vaga temporária aberta por causa do fim de ano no comércio. Desde então, passou por diferentes funções: foi subgerente, gerente e supervisora. Ainda como vendedora, há 12 anos, chegou à São João. Há oito anos, investiu em si mesma e passou a receber as clientes em busca de calçados na Maria Flor.
Ela também é responsável pelo marketing da Associação dos Lojistas da rua, que completou três anos em 2026, reúne 64 integrantes e está aberta a todos que quiserem participar. “Conversando com os outros, surgiu a ideia. A São João se ajuda demais, os lojistas são muito parceiros, um apoiando o outro, tem espaço para todo mundo, sempre atenta ao cenário interno e externo”

Quem passa pela São João também pode encontrar decoração especial no Dia dos Namorados, no Natal e na Páscoa. Também há músicos tocando à sombra do Cine-Theatro Central. Feiras, mobilizações especiais – como a ação Help! que teve apoio da Itatiaia.
“Como é um shopping a céu aberto, nosso marketing se atenta a para que a rua esteja preparada para receber todos os clientes. Na São João você encontra de tudo, absolutamente tudo”.
As redes sociais se tornaram uma vitrine coletiva, chamando quem conhece ou quem não conhece para mergulhar no “espírito da São João”.
“Orgulho total, muito bom estar na São João. Vir ao Centro, vir à Juiz de Fora e não vir na São João, não veio à Juiz de Fora. Porque a São João está no coraçãozinho aqui, tem de tudo, é gostoso andar, é muito legal estar por aqui. Vem, só vem”, afirmou.
Natural de Juiz de Fora, jornalista com graduação e mestrado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Experiência anterior em Rádio, TV e Internet. Gosta de esporte, filmes e livros. Editora Web na Itatiaia Juiz de Fora desde 2023. Tricampeã na categoria Web/Mídias Digitais no Prêmio Oddone Turolla de Jornalismo, do Sindicomércio JF.





















