Torcidas femininas do Sport se mobilizam para jogo restrito a mulheres, crianças e PCDs na Ilha
Entrada no jogo diante do Botafogo-SP, neste sábado (20), pela Série B, será restrita por punição do STJD; entrada será gratuita

A Ilha do Retiro terá uma face diferente para o jogo entre Sport x Botafogo-SP, válido pela sétima rodada da Série B. Para a partida, o público no estádio será composto exclusivamente por mulheres, crianças com até 12 anos e pessoas com deficiência (PCDs). Uma oportunidade para que as vozes nas arquibancadas, desta vez maioritariamente femininas e feministas, possam ser entoadas e ouvidas com mais força.
A restrição de público se dá em virtude de uma punição imposta pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) ao Sport em razão de uma invasão de campo no Brasileiro do ano passado. O clube, que já pagou três jogos de suspensão sem público na Ilha do Retiro, agora terá outros três jogos sem a participação de homens - os dois próximos, nas mesmas condições, serão com o Avaí e o ABC.
Uma oportunidade especialmente para que as torcidas femininas não apenas se façam mais presentes, mas também mais ouvidos nas suas demandas e busca por respeito e espaço.
"Temos visto nos jogos que a quantidade de mulheres nas arquibancadas tem aumentado e quanto mais mulheres forem no sábado, mais a nossa força vamos poder mostrar. Será uma chance para o público feminino ter essa visibilidade, levantar bandeiras e torcer. Isso vai trazer um incentivo a mulheres que nunca foram ao estádio, por exemplo", afirmou Thatiana Ferreira, organizadora e uma das integrantes do coletivo Elas e o Sport.
Esse grupo de torcedoras, surgido há sete anos, já acompanha os jogos das equipes feminina e masculina do Sport. As cerca de 500 mulheres do Elas e o Sport participam da mobilização, direta ou indiretamente, para o jogo contra o Botafogo-SP.
Nesta quinta-feira (18), as torcedoras se reuniram dentro do clube para os preparativos da festa. Outros coletivos femininos, casos das Leoas da Ilha e Leoas da Fuzarka, também estão mobilizados. Muitas mulheres sem vínculo, mães, torcedoras apaixonadas, também prometem ir à Ilha do Retiro.
Autora do livro "Mulheres no campo, o ethos da torcedora pernambucana", a professora e pesquisadora Soraya Barreto Januário, da Universidade Federal de Pernambuco, afirmou que momentos como esse são "muito importantes para criar memória e representação para que outras mulheres também criem coragem para participar desses momentos".
Além disso, Soraya Barreto Januário também destacou que essa iniciativa do STJD "é um reconhecimento social de como a violência nos estádios está ligada às masculinidades". Segundo a pesquisadora, "essa violência tem muito a ver com a ideia construída em torno da masculinidade, de mostrar a virilidade através da violência".
"E, claro, no âmbito em que as mulheres viram protagonistas no espaço que é estigmatizado e construído pelo masculino como masculino isso dá um recado muito importante, ao mesmo tempo mostra para as mulheres que há outras à frente de movimentos e que estão indo para os estádios para incentivar essa ocupação e mostrar que aquele espaço é também delas", pontuou a professora, que é também torcedora do Sport e vai estar presente no jogo.
Ingressos gratuitos e alerta do Sport
Os ingressos para o jogo são gratuitos. Na parcial de ingressos trocados, na noite desta quinta-feira, mais de 12.628 torcedores já haviam garantido presença para torcer pelo Leão. A reserva dos bilhetes se estende até às 17h15 do sábado ou até atingir a capacidade aplicada para o evento.
"Ficamos muito felizes com o alto número de mulheres, crianças e PCDs que já confirmaram presença na Ilha com aquela energia arretada que só a torcida do Sport tem. Entretanto, o clube recebeu algumas denúncias de vendas de ingressos, que são de natureza gratuita", alertou o vice-presidente Social do Sport, Roberto Amorim.
O Leão informou vai cancelar o check-in de torcedores que estejam vendendo ingressos gratuitos. "O Sport não tolera qualquer prática de cambismo e conta com a torcida para denunciar aqueles que praticam tal ato", informou o clube, em nota.
Medida tem sido um sucesso no futebol brasileiro
No Brasil, a punição aos clubes para jogar com o estádio vazio tem cada vez mais dado lugar à restrição parcial, com estádios sem homens, compostos essencialmente por mulheres. A iniciativa é falada pelo STJD já há pelo menos uma década quando, na Turquia, em 2011, chamou atenção um jogo do Fenerbahce, na época com Alex no time, colocando mais de 40 mil mulheres e crianças no estádio.
Este ano, em janeiro, dois casos similares chamaram a atenção no Paraná, com uma punição a Coritiba e Athetico. O primeiro levou 8.871 pessoas ao Couto Pereira. O Rubro-negro teve um número maior: 37.197 pessoas lotando a Arena Baixada para a vitória sobre o Foz do Iguaçu, por 3 a 1.
No último mês de abril, entretanto, o Santos não repetiu o mesmo sucesso, quando recebeu um público de apenas 1.788 pessoas no duelo com o Botafogo-SP, na Vila Belmiro, pela terceira fase da Copa do Brasil.
Jornalista, natural do Recife, é atualmente correspondente do portal Itatiaia Esporte na região Nordeste. Com mais de uma década de experiência no jornalismo esportivo, tem passagens pela Folha de Pernambuco, Diario de Pernambuco, Superesportes e NE45. Em Portugal, trabalhou por O Jogo e Sport Magazine.
