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Pentacampeão, dono de craques lendários e presença constante nas fases decisivas, o Brasil raramente conviveu com eliminações precoces.
Mas a resposta para a pergunta é sim: o Brasil já caiu na primeira fase da Copa do Mundo em duas oportunidades.
Os reveses aconteceram em 1930, no primeiro Mundial da história, e novamente em 1966, na Inglaterra.
A seguir, a Itatiaia relembra como foram essas campanhas que entraram para a história de forma negativa.
Copa do Mundo de 1930: racha político e eliminação precoce
A primeira Copa do Mundo da história foi disputada no Uruguai, em 1930, e o Brasil chegou ao torneio vivendo um cenário completamente conturbado fora de campo.
Na época, o futebol brasileiro era dividido por uma forte rivalidade política entre Rio de Janeiro e São Paulo. Com sede no Rio, a então CBD (Confederação Brasileira de Desportos) se recusou a aceitar um representante da Associação Paulista de Esportes Atléticos na comissão técnica da Seleção.
Irritados, os dirigentes paulistas decidiram não ceder nenhum jogador. O único atleta de São Paulo presente foi Araken Patusca, que vivia conflito com o Santos e assinou contrato com o Flamengo apenas para poder disputar o Mundial.
O ambiente era tão hostil que, após a derrota brasileira na estreia, houve paulistas que comemoraram publicamente o revés dos chamados “cariocas”.
Preguinho e mais jogadores da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1930
Viagem longa e dificuldades no início
A delegação brasileira viajou até o Uruguai em um barco a vapor, em uma travessia que durou cerca de três dias, algo impensável nos padrões atuais.
Dentro de campo, o Brasil sentiu o impacto da desorganização.
Na estreia, a Seleção enfrentou a Iugoslávia vestindo a - até então - tradicional camisa branca, utilizada até 1953. O time demorou a entrar no jogo e sofreu dois gols ainda no primeiro tempo. Primeiro com Aleksandar Tirnanić, após desvio na defesa, e depois com Ivan Bek, aproveitando falha do zagueiro Brilhante.
No segundo tempo, Fausto cruzou e Preguinho marcou o primeiro gol da história do Brasil em Copas do Mundo, diminuindo o placar para 2 a 1. Ainda assim, a derrota foi decisiva para a eliminação brasileira.
Vitória insuficiente contra a Bolívia
Na segunda partida, o Brasil entrou em campo com várias mudanças e venceu a Bolívia por 4 a 0, sem maiores dificuldades.
Moderato e Preguinho comandaram a vitória. Foram gols em sequência, com cruzamentos e rebotes que consolidaram o placar elástico.
Apesar do triunfo, o sistema de disputa não permitia recuperação. Com apenas dois jogos no grupo, a derrota na estreia foi fatal, decretando a eliminação brasileira ainda na fase inicial do primeiro Mundial da história.
Copa do Mundo de 1966: atual bicampeã, mas eliminada cedo
Trinta e seis anos depois, o Brasil voltaria a viver o mesmo drama.
Na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, a Seleção chegou como bicampeã mundial, campeã em 1958 e 1962, e cercada de expectativas. Aquela edição marcou a oitava participação brasileira em Mundiais, que segue sendo, até hoje, o único país presente em todas as Copas.
O time era novamente comandado por Vicente Feola, técnico do título de 1958, e tinha nomes históricos no elenco. Sete jogadores já haviam sido campeões do mundo e outros cinco viriam a integrar a campanha do tricampeonato em 1970. Pelé era o único que viveu ambas as conquistas.
Mesmo assim, a campanha terminou de forma traumática.
Um elenco estrelado, mas desequilibrado
A convocação ainda refletia um momento de transição do futebol brasileiro. A maioria dos atletas atuava no eixo Rio–São Paulo. Apenas dois jogadores vinham de outros centros: Tostão, do Cruzeiro, e Alcindo, do Grêmio.
Havia críticas por injustiças, como a ausência de nomes como Dirceu Lopes, ídolo do Cruzeiro, e outros destaques fora do eixo tradicional.
Além disso, o elenco tinha apenas um armador clássico: Gérson, que se lesionou durante o torneio. Sem ele, Feola precisou improvisar o “coringa” Lima na função.
Estreia animadora e último jogo de Pelé e Garrincha juntos
O Brasil iniciou a campanha com vitória por 2 a 0 sobre a Bulgária, com gols de Pelé e Garrincha.
A partida entrou para a história por um motivo especial: foi a última vez que Pelé e Garrincha atuaram juntos pela Seleção Brasileira. Ao todo, a dupla disputou 40 jogos oficiais, sem nenhuma derrota.
Garrincha, ídolo do Botafogo e da Seleção Brasileira
Derrota para a Hungria e recorde quebrado
Na segunda rodada, veio o primeiro baque: derrota por 3 a 1 para a Hungria.
O jogo marcou o fim da maior sequência de invencibilidade de uma seleção em Copas do Mundo: 13 partidas sem perder. A última derrota havia sido justamente para os húngaros, na famosa Batalha de Berna, em 1954.
Pelé, machucado após jogo duro na estreia, ficou fora da partida. Garrincha atuou, e aquela acabou sendo a única derrota da Seleção Brasileira com o camisa 7 em campo.
Jogo decisivo e eliminação diante de Portugal
Na última rodada, o Brasil precisava vencer Portugal, estreante em Copas. Mas o cenário era caótico.
Vicente Feola promoveu nove mudanças na equipe titular. Gylmar deu lugar a Manga no gol, Pelé voltou mesmo lesionado, Denílson retornou ao time, enquanto Garrincha começou no banco.
A Seleção acabou derrotada por 3 a 1, em uma partida marcada por violência contra Pelé, que sofreu entradas duríssimas dos adversários, sem qualquer punição do árbitro inglês George McCabe.
Com a derrota, o Brasil foi eliminado ainda na fase de grupos, tornando-se apenas a segunda seleção campeã do mundo a cair precocemente, após a Itália em 1950.
Duas quedas que entraram para a história
As eliminações de 1930 e 1966 permanecem como exceções na trajetória da Seleção Brasileira em Copas do Mundo.
Em 1930, o racha político e a desorganização interna pesaram mais do que o futebol. Em 1966, lesões, erros de planejamento e um ambiente conturbado derrubaram uma das gerações mais talentosas da história.
Desde então, o Brasil jamais voltou a ser eliminado na fase de grupos de um Mundial, fato que reforça o peso histórico dessas duas quedas e ajuda a explicar por que elas seguem sendo lembradas até hoje.