Jogador brasileiro em Israel detalha bastidores de cotidiano em meio à guerra

Felipe Santos, de 26 anos, é jogador do Hapoel Haifa, de Israel, e não pensa em retornar ao Brasil no momento

Brasileiro está em Israel há quatro meses

Israel vive cenário de tensão desde o último sábado (7), após os ataques do grupo terrorista Hamas. O brasileiro Felipe Santos, de 26 anos, é atleta do Hapoel Haifa, que disputa a Primeira Divisão da liga local. Em entrevista à Itatiaia, nesta quarta-feira (11), o jogador deu detalhes do cotidiano em Haifa, cidade localizada a cerca de 170km da Faixa de Gaza.

"É uma das poucas cidades que não recebeu bomba, alerta de foguetes nem nada, então ainda não está tendo confusão, problema, ainda está tranquilo. Graças a Deus eu estou bem”, disse o jogador.

Haifa está relativamente distante de Gaza, mas ainda assim toma cuidados especiais. Apenas locais essenciais como supermercados e hospitais seguem em funcionamento. As atividades do clube estão paralisadas. O Hapoel Haifa, segundo Felipe, mantém contato diário.

Da casa onde mora, Felipe revela que consegue ouvir aviões de guerra. Ele explica que, mesmo sem conflitos na cidade, há muita apreensão.

“Vejo as pessoas nas ruas, as crianças brincando no parque, só que quando você aproxima deles, você sente um ar de medo, de apreensão, ar de desespero. Eles nunca passaram por isso. São preparados para passar por conflitos, mas não por uma Guerra. Então eles não sabem se existem terrorista próximo de você ou não. É um momento muito delicado”, explicou.

O brasileiro explicou como são as orientações recebidas em caso de início de conflito. De acordo com Felipe, há búnqueres (estrutura construída embaixo da terra para resistir a projéteis de guerra) públicos, em vários locais da cidade, além dos particulares.

“Aqui onde eu moro tem um (búnquer) que é só descer as escadas e fica mais fácil. Assim que soa o alarme você tem um minuto e meio para esconder porque você não sabe se a bomba cai próximo de você, do outro lado da rua. Então estamos apreensivos. Graças a Deus, até agora, não ouvimos nenhum alarme, nenhum sonido, nada”, contou.

Retorno ao Brasil

Atualmente, Felipe mora com a esposa Sabrina e o filho Asafe. O jogador também está acompanhado da avó, de 66 anos. O jogador não pensa em retornar para o Brasil no momento.

“Hoje nós não pensamos em voltar para o Brasil. A cidade onde estou vivendo, Haifa, está tranquilo. Todas as pessoas vivem normalmente, em segurança, hoje eu não penso em voltar para o Brasil. Penso em mandar minha avó de volta para o Brasil”, disse.

Para providenciar o retorno da avó para o Brasil, Felipe contou que deu início aos primeiros contatos com a Embaixada do Brasil em Israel.

“Eu entrei em contato com a embaixada. A única solução para que minha avó fosse através do avião que o governo está disponibilizando para os brasileiros que estão aqui é através do site. Eu fiz isso, então estamos no aguardo. Estou tentando conversar com eles (embaixada) pessoalmente porque como expliquei minha avó é idosa, tem 66 anos”, relatou.

O jogador revelou que um só cenário motivaria seu retorno para o Brasil. Segundo Felipe, apenas se “tivesse com problema, em conflito” a retorno seria considerado, pois “a segurança da família vem em primeiro lugar”.

Relação com Israel

Felipe contou que tem relação próxima com o país do Oriente Médio há cerca de sete anos. Em função da religião - ele se considera Cristão -, passou a ter interesse em conhecer o país. Após viagens por turismo, surgiu a oportunidade de trabalhar em Israel.

“Eu já vim em Israel há alguns anos, a passeio, a turismo. Eu estudo bastante com o pessoal de Israel, tenho um carinho enorme pelo país, pela cultura, pelas pessoas. Quando recebi a proposta, apesar de ter tido algumas propostas do Brasil, de fora, escolhi Israel por essa coisa de gostar, de querer saber mais. Quando recebi a proposta não pensei duas vezes e vim para cá", disse.

O jogador reforçou pedidos de oração para o povo e os soldados israelenses que estão em combate. Felipe também observou como o povo local lida com o conflito.

"É um povo abençoado, unido. Fazem três dias que fui tentar doar sangue e eles falaram para mim que era impossível doar sangue porque tinha sangue suficiente para todo o exército, todas as pessoas, porque a população inteira está fazendo com que o exército e as pessoas possam passar por um momento de paz”, disse.

Carreira como atleta

Felipe buscou, desde cedo, a carreira como jogador. Ele começou aos 7 anos e passou por categorias de base de Grêmio-RS, Primeira Camisa (São José dos Campos-SP), Atlético (período de testes), Red Bull Brasil, Paulista (onde se profissionalizou).

Depois, ainda passou por Palmeiras, Vasco e, aos 20 anos, rumou para a Europa para Eslovênia, onde jogou no Maribor por três anos. Depois foi duas temporadas no Azeirbajão (Kesla FK e FK Qabala) antes de se mudar para o Hapoel Haifa.

Leonardo Parrela é chefe de reportagem do portal Itatiaia Esporte. É formado em Jornalismo pela PUC Minas. Antes da Itatiaia, colaborou com ge.globo, UOL Esporte e Hoje Em Dia. Tem experiência em diversas coberturas como Copa do Mundo, Olimpíada e grandes eventos.

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