Na Copa do Mundo de 1954, disputada na Suíça, a Seleção Brasileira viveu um episódio que extrapolou as quatro linhas e expôs, de forma inédita, a dimensão humana de um grande craque.
O meia Didi, conhecido como “Folha Seca” (pela forma como batia na bola) foi impedido de falar com a esposa, Guiomar Batista, durante o período de concentração para a Copa do Mundo.
Em razão da proibição, o jogador entrou em greve de fome. O gesto silencioso revelou a dependência emocional do maestro do meio-campo em relação à mulher que marcaria não apenas sua vida pessoal, mas também sua trajetória no futebol.
A seguir, a
Quem foi Didi?
Waldir Pereira, o Didi (“Folha Seca” ou “Príncipe Etíope”), nasceu em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, em 8 de outubro de 1928.
Meio-campista elegante, dono da lendária “folha seca” (chute de três dedos que fazia a bola subir e descer rapidamente), era o cérebro do time brasileiro e carregava consigo a capacidade de dar com facilidade passes longos e precisos.
O atleta defendeu a Seleção Brasileira em três Copas do Mundo (1954, 1958 e 1962), tendo sido campeão das duas últimas, e foi considerado o sétimo maior jogador brasileiro do século XX pela Federação Internacional de Histórias e Estatística do Futebol (IFFHS) .
Didi encantava os principais cronistas da época
Pela elegância que apresentava, o jogador foi apelidado por Nelson Rodrigues, que inaugurou sua coluna na Manchete Esportiva definindo-o da maneira que lhe acompanharia por décadas: “um príncipe etíope de rancho”.
Mário Filho, o jornalista que dá nome ao Maracanã, por sua vez, descreveu o estilo de forma singular:
“Didi tinha a graça de uma foca equilibrando uma bola na cabeça. Jogava ereto. Só no drible ou no passe parecia se desequilibrar. Foi assim que inventou a folha seca”, disse, o cronista.
Didi era descrito como frio, racional e calculista em campo. Fora dele, porém, mostrava-se vulnerável. E a razão tinha nome, sobrenome e voz conhecida no rádio brasileiro dos anos 1950: Guiomar Batista.
Quem era Guiomar Batista?
Guiomar Batista foi uma das mulheres mais emblemáticas do futebol brasileiro nos anos 1950 e início dos 1960.
A baiana era cantora de rádio e atriz de televisão em um tempo em que poucas mulheres ocupavam esse espaço público com autonomia.
Ela conheceu Didi nos bastidores da Rádio Tupi, do Rio de Janeiro e casaram-se pouco depois. Ou, como diria Nelson Rodrigues, “Didi tornou-se o marido de Guiomar”, tamanha a influência que ela exercia sobre ele. “Não existe Didi sem Guiomar, nem Guiomar sem Didi”, escreveu o cronista.
Copa de 1954: silêncio, proibição e greve de fome
Na preparação para a Copa de 1954, a então Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual Confederação Brasileira de Futebol) impôs regras rígidas.
O treinador brasileiro, Zezé Moreira, determinou que os jogadores ficariam confinados. Estariam proibidos visitas e telefonemas.
Nesse sentido, Didi queria falar com Guiomar mas não podia. Acostumada a frequentar a concentração, a esposa do meia foi barrada.
O episódio provocou um tumulto na concentração do Brasil e Didi reagiu do jeito que conseguiu: parou de comer. Entrou em greve de fome.
Salvo por Nilton Santos: como a greve de fome terminou
O gesto foi simbólico — e parcialmente driblado. Preocupado com a saúde do amigo, o lateral-esquerdo Nilton Santos passou a levar comida escondida para o craque.
“Você está aqui para treinar e jogar, queimar carvão. Se não comer, não vai aguentar. Eu te ajudo”, disse o ídolo do Botafogo ao “Príncipe Etíope”.
Com um casaco grande, Nilton escondia alimentos nos bolsos e os levava ao quarto de Didi que, oficialmente, mantinha a greve.
Assim, mediante o auxílio de uma lenda do futebol brasileiro, foi contornada uma das contendas mais inusitadas da história do esporte nacional.
Copa de 1958: história repetida e o dilema entre a Suécia e o amor
Na Copa de 1958, o conflito se repetiu, de forma ainda mais intensa. A CBD decidiu que nenhuma esposa viajaria à Suécia e Didi se viu diante do dilema: a Copa ou Guiomar.
Nelson Rodrigues classificou a medida como “errada e inumana”. Para ele, separar o casal era amputar o craque de sua totalidade humana. “Como exigir uma folha seca de um jogador arrancado do seu amor?”, questionou o cronista.
Para além disso, mesmo ausente fisicamente, a esposa do craque estava presente no imaginário popular. Boa parte dos torcedores passou a culpar a mulher por passes errados ou maus desempenhos do atleta.
Assim, Nelson Rodrigues voltou a escrever sobre o casal e bradou: “Se Didi falha, é Guiomar. Se não falha, é Didi. Ninguém admite que ela possa ser um poderoso estímulo”, escreveu.
E foi além, ao dizer que “Didi sem Guiomar não seria Didi. Seria meio Didi.”
Didi e Pelé jogam dama na concentração da Seleção
Crise apaziguada e primeiro título mundial
Nesta toada, a crise quase afastou Didi da Copa que o consagraria. Ainda que a contragosto, em razão da distância da amada, o craque foi à Suécia.
Naquele Mundial, o meia encantou a Europa, conquistou o primeiro título do Brasil no torneio e recebeu da FIFA o título de melhor jogador do Mundial — o primeiro da história. A imprensa o chamou de Mr. Football (Senhor Futebol, em português).
Mais que uma história de Copa
A greve de fome de 1954 foi uma efusiva manifestação emocional de um jogador, em um tempo em que a psicologia esportiva sequer existia como conceito.
Talvez por isso Nelson Rodrigues tenha sido tão preciso ao definir a relação amorosa do craque brasileiro, fazendo jus à reportagem que conta essa história 72 anos após ter ocorrido: “Didi e Guiomar constituem um ser único, indivisível.”