‘Os Banshees de Inisherin’ investiga a natureza mesquinha da discórdia
O mais novo filme do diretor Martin McDonagh rendeu a Colin Farrell a indicação ao Oscar de melhor ator neste ano

Intraduzível, “banshee” é uma palavra em inglês que significa “alma penada”. De acordo com uma lenda medieval irlandesa, trata-se de um espírito feminino cujo lamento prenuncia a morte iminente. Em “Os Banshees de Inisherin”, as personagens do filme do diretor Martin McDonagh, o mesmo de “Três Anúncios para um Crime”, de fato vivem penosamente e agem feito espectros.
Há pouca vida na fictícia ilha de Inisherin, no litoral da Irlanda, onde, em 1923, dois amigos de longa data repentinamente param de se falar. Ou quase. A iniciativa parte de Colm, interpretado por Brendan Gleeson, que numa tarde invernal e apática como todas as outras decide romper os laços com Pádraic, cuja atuação rendeu a Colin Farrell a indicação ao Oscar de melhor ator neste ano...
Acontece que Pádraic não se contenta com a justificativa de Colm. Eis a intriga da narrativa, pano de fundo para discutir questões mais amplas e contemporâneas. É a partir dessa picuinha que o roteiro analisa não somente a natureza humana, mas, sobretudo, o nascedouro de uma discórdia e sua inerente mesquinharia.
É por nada ou quase nada que a Humanidade se digladia há milênios, como presenciamos neste momento no conflito entre Rússia e Ucrânia, e, há bem pouco tempo, nas invasões dos Estados Unidos a países árabes, casos do Iraque e do Afeganistão.
Para encampar a tese e não ficar somente na disputa conceitual, o longa insere o horror às cenas, quando Colm ameaçar decepar os próprios dedos se Pádraic continuar a importuná-lo. E o detalhe fundamental é que a personagem de Brendan Gleeson toca violino.
A essa dupla inusitada acrescenta-se Siobhán, irmã de Pádraic que, assim como ele, não se casou. Porém, as semelhanças terminam aí. Na pele dessa mulher, Kerry Condon entrega uma atuação com mais nuances que as demais, entre a introspecção da leitura que ela cultiva numa ilha tomada por trabalhadores braçais e a irritação que escapa pela simples necessidade de conviver com aquelas pessoas, em um ambiente insípido e desolador.
Só que Siobhán não tem a empáfia de Colm, que, com teses furadas e ar superior pretende deixar a sua música para a eternidade, como Mozart, nome que para Pádraic representa menos que a sua jumenta de estimação. É nesse embate que o diretor propõe uma das boas questões da trama. Afinal de contas, o que vale mais, ser lembrado pela Humanidade ou amado por seus entes queridos?
O elenco ainda conta com Barry Keoghan como Dominic, um adolescente com déficit mental que leva surras do pai, Peadar (Gary Lydon), um policial truculento e autoritário, como costumam ser essas figuras ao redor do mundo e dos séculos. É em Dominic, rejeitado por todos, que Pádraic encontrará alguma companhia, mas não muita, já que a solidão dita as regras da ilha.
Sheila Flitton vive Mrs. McCormick, uma velhinha caquética que terá a missão de encarnar a temida alma penada que assombra a localidade, numa atuação metafórica que alcança impacto. Diante do marasmo de vidas que se arrastam sem muito sentido, o diretor é hábil em criar espaços de tensão, pontuados por tiros de canhão ao longe que avisam da guerra civil entre os irlandeses. Guerra que esgueirando-se começa a ser travada no interior das personagens da ilha.
O diretor quase não nutre compaixão por suas personagens que, por vezes, graças a jogos de câmeras, são até animalizadas. Ou seriam os animais humanizados, diante de conceitos que se embolaram com o passar dos tempos? A barbárie tem rosto humano, já disse um escritor romeno.
O mal parece, aos poucos, injetar seu veneno nas veias dos habitantes de Inisherin, e uma tragédia se aproxima. Acontece que o diretor não abre mão da complexidade humana, com movimentos que são contraditórios e, por isso mesmo, retêm a atenção do espectador.
Quando Pádraic sugere já ter cedido seu corpo e espírito à vingança, uma surpresa. Talvez sua essência esteja resguardada. Ao mesmo tempo, Colm finalmente confessa o seu desespero ao padre. Certo é que a morte continua a espreita-los. E é dela o domínio da vida.
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