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Mês do Forró: Relembre hits da música nordestina com xaxado e pé de serra

Junho é conhecido em todo o Brasil como o Mês do Forró, gênero cantado por Elba Ramalho, Luiz Gonzaga, Dominguinhos, e outros

Dominguinhos é um dos grandes nomes da música nordestina que prestigiou o forró com a irresistível ‘Isso Aqui Tá Bom Demais’

Junho é conhecido em todo o Brasil como o Mês do Forró, justamente por marcar a celebração das festas juninas, de forte tradição nordestina e que habitualmente são embaladas por esse ritmo que se divide em variados gêneros, como o xaxado e o pé de serra, e tem uma característica que se mantém inalterada: a vontade de dançar, seja agarradinho ou de maneira agitada.

O forró fala ao coração do povo brasileiro por ser parte de sua tradição mais humilde, revelando a nossa cultura. Ao longo dos anos, diversos artistas prestigiaram esse gênero tão amado, como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Elba Ramalho, Dominguinhos, Cecéu, Anastácia, Alceu Valença, Genival Lacerda e muitos outros.

“Respeita Januário” (forró, 1950) – Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Coroado “Rei do Baião”, Luiz Gonzaga compôs, ao lado de Humberto Teixeira, uma das mais representativas canções sobre o relacionamento entre pai e filho, especialmente na região Nordeste, levando em conta, como de costume, uma experiência pessoal. Expulso de casa pelo pai quando era mais novo, Gonzagão atesta a reverência adquirida através dos anos à figura paterna, o respeito transformado em afeto, sublinhado em versos de advertência de um compadre da terra ao pretensioso garoto: “Respeita Januário”, o baião de 1950.

“Forró em Limoeiro” (rojão, 1953) – Edgar Ferreira

Do outro lado do compacto que trazia “Sebastiana”, estava “Forró em Limoeiro”, outro grande sucesso de Jackson do Pandeiro. Composto por Edgar Ferreira, o rojão foi lançado por Jackson em 1953. A música, espirituosa, apresenta um forró onde “quem não tem peixeira briga no pé”. No meio desse quiproquó aparece a figura de Dona Zezé, mulher que briga com “cabra canalha”, puxa da navalha e entra no forró. “Forró em Limoeiro” confirmou o grande momento vivido por Jackson na música brasileira e foi regravada por João Bosco, Dominguinhos, Jorginho do Império e a banda Mastruz com Leite.

“Forró do Beliscão” (xote, 1959) – João do Vale, Ary Monteiro e Leôncio Tavares

Como cantor, Ivon Curi fazia um tipo único, que misturava humor e musicalidade com rara eficácia. Ainda hoje, é difícil encontrar na música brasileira algum discípulo de seu estilo teatral, talvez perceptível apenas, em alguma medida, na persona de Eduardo Dussek. Em 1953, Ivon gravou uma série de xotes de sucesso. A malícia das canções era sublinhada pelas pausas dramáticas do cantor-ator, que lançou, por exemplo, “O Xote das Meninas” (Zé Dantas e Luiz Gonzaga), “Farinhada” (Zé Dantas), “Tá Fartando Coisa em Mim” (com Humberto Teixeira) e a irresistível “Forró do Beliscão”, de João do Vale. A música foi regravada pela cantora Marinês, com enorme sucesso.

“Severina Xique-Xique” (forró, 1975) – Genival Lacerda e João Gonçalves

Genival Lacerda é um dos ícones da música de duplo sentido no Brasil. Natural de Campina Grande, na Paraíba, criou um estilo caricatural, pautado nas vestes espalhafatosas e na famosa dança ‘sensual’ em que põe a mão na barriga, influenciando nomes da região que também fizeram sucesso no Brasil, como Reginaldo Rossi e principalmente o cantor Falcão.

Em 1975, esse gênero musical que sempre esteve ligado às camadas mais populares, viu nascer o forró “Severina Xique-Xique”, de Genival e João Gonçalves. Com uma letra mais óbvia do que na época das marchinhas, mas ainda ambígua, não se precisa de muito para imaginar o que é a butique da protagonista… “E ele tá de olho/ É na butique dela…”. A música foi regravada pelo grupo mineiro Pato Fu.

“Coração Bobo” (forró, 1980) – Alceu Valença

Alceu Valença já era um cantor consagrado na música brasileira quando resolveu compor, em 1980, “Coração bobo”, música dedicada a Jackson do Pandeiro. Com a forte influência do denominado “Rei do Ritmo”, a canção transita por estilos da música brasileira, com um lento início em toada e a agitação tradicional do baião em sua segunda parte, especificamente o refrão.

“Coração bobo/coração/coração bola/coração balão/coração São João/ a gente, se ilude, dizendo/já não há mais coração…”. Assimilando as origens folclóricas das festas populares do nordeste, Alceu lega à música brasileira uma peça pronta para se dançar o forró, e deixar-se o coração levar pela alegria do povo, mesmo que, neste caso, como em muitos, os versos sejam de mágoa e alento.

“Forró do ABC” (forró, 1980) – Moraes Moreira e Patinhas

O mais baiano dos Novos Baianos, Moraes Moreira foi do trio elétrico ao baião, passando pelo chorinho, e logo se tornou o principal compositor do grupo que ecoou sucessos no Brasil todo, como “Preta Pretinha”, “Besta É Tu”, “Mistério do Planeta” e “Acabou Chorare”, entre muitos outros.

Aliás, o disco “Acabou Chorare”, de 1972, se tornou um clássico absoluto, apontado como um dos maiores da música brasileira de todos os tempos, com sua mistura de ritmos e influências que iam de João Gilberto a Jimi Hendrix, além de letras que ecoavam o clima hippie que a trupe compartilhava.

Na época, Moraes Moreira, Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Galvão e Paulinho Boca de Cantor viviam em comunidade no Sítio do Vovô, em Jacarepaguá, interior do Rio de Janeiro, e dividiam tudo: da comida aos cuidados com os bebês, passando, claro, pela composição de clássicos da música brasileira.

Em 1975, depois de quatro álbuns lançados com os Novos Baianos, Moraes partiu em carreira-solo e, mais uma vez, não decepcionou. A primeira investida foi como vocalista do trio elétrico Dodô e Osmar, embrião do Carnaval baiano puxado por nomes como Ivete Sangalo, Chiclete com Banana e Asa de Águia. Em 1980, Moraes lançou o divertido “Forró do ABC”, em parceria com Patinhas, remetendo às suas raízes nordestinas.

“Moça Bonita” (forró, 1981) – Geraldo Azevedo e Capinam

Capinam também explorou com proeza os matizes da canção nordestina. Depois de surgir e se consagrar com um tipo de baião mais moderno em relação àquele espalhado por Luiz Gonzaga, o letrista se encontrou com o pernambucano Geraldo Azevedo. “Moça Bonita”, que mistura influências advindas do frevo e do forró, foi veiculada na trilha-sonora do seriado “Terras-do-Sem-Fim”, da Rede Globo, em 1981, o que contribuiu para seu sucesso. Mas o mérito maior, sem dúvida, é dos dois autores e da interpretação de Azevedo, que a repete sempre.

“Embolado na Serra” (forró, 1982) – Lenine e Bráulio Tavares

Em 1982, os compositores Lenine e Bráulio Tavares compuseram especialmente para o filme “Os Trapalhões na Serra Pelada”, da famosa trupe, o forró “Embolado na Serra”, mais um sucesso de bilheteria. A música é interpretada por todos os integrantes, que dividem o vocal entre si. Didi, Dedé, Mussum e Zacarias participam da faixa, cada um à sua maneira, sublinhando as características das personagens. Ao longo da trajetória do quarteto, a trilha musical sempre foi um aspecto de fundamental importância na narrativa fílmica.

“Bate Coração” (xote, 1982) – Cecéu

No universo patriarcal e tradicionalmente machista da música brasileira como um todo, mas, em destaque, do ambiente nordestino, a compositora Cecéu se destaca como uma das mais prolíficas em êxito popular como na qualidade de seu repertório, ao lado das não menos valentes Marinês e da paraibana Elba Ramalho que, inclusive, lançou um dos maiores sucessos da artista.

“Bate Coração” foi um xote lançado em 1982 e regravada por diversas vezes. Sua permanência pode ser atribuída ao tema, ao ritmo, mas é, sobretudo, pela união dessas duas características que perpassou as vozes mais diversas. Universal como a abordagem é o sentimento, a sensação do coração batendo dentro do peito. Foi regravada por Angela Ro Ro em dupla com Elba Ramalho.

“Forró do Xenhenhém” (xaxado, 1985) – Cecéu

Mary Maciel Ribeiro, mais conhecida como Cecéu, formou uma dupla de sucesso com o compositor Antônio Barros tanto na vida quanto na carreira, já que os dois, além de casados, criaram vários clássicos da música nordestina. Em 1985, Cecéu compôs o xaxado “Forró do Xenhenhém”, imediatamente lançado por Alcione com enorme sucesso nacional.

Anos depois, Elba Ramalho se apropriou de tal forma da canção que ela passou a ser indissociável de sua personalidade. “Forró do Xenhenhém” é hoje indispensável em qualquer show de sucessos da cantora paraibana. A música é uma daquelas que agrega malícia e sensualidade a uma graça irresistível.

“Isso Aqui Tá Bom Demais” (forró, 1985) – Dominguinhos e Nando Cordel

Se a história da música popular brasileira possui uma linhagem, nela não pode faltar o nome de Chico Buarque de Hollanda. Filho do historiador Sérgio Buarque – e irmão das também cantoras Miúcha, Cristina Buarque e Ana de Hollanda –, o garoto prodígio da canção nacional, como era de se esperar, começou cedo.

Enfileirou sucessos desde o princípio da carreira, nos anos 1960, auge da bossa nova, passando por vários ritmos, gêneros e inclusive movimentos musicais, alinhavando parcerias com nomes como o poeta Vinicius de Moraes, o maestro Tom Jobim, o dramaturgo Ruy Guerra e o tropicalista Gilberto Gil, além de outros compositores de peso, tais como Milton Nascimento, Francis Hime e Edu Lobo. Em 1985, Chico cantou com Dominguinhos o forró “Isso Aqui Tá Bom Demais”, parceria do sanfoneiro com Nando Cordel.

“Dona da Minha Cabeça” (forró, 1986) – Geraldo Azevedo e Fausto Nilo

O compositor Fausto Nilo conheceu os integrantes do “Pessoal do Ceará” ainda na década de 70, e, desde então, passou a ser gravado por cantores como Fagner e Belchior, e, mais tarde, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Geraldo Azevedo, entre outros. No ano de 1979, o Trio Elétrico Dodô e Osmar, banda criada pelos inventores do trio elétrico na Bahia, lançou no carnaval a música “Bloco do Prazer”, parceria de Nilo com o novo baiano Moraes Moreira. Já em 1986, Fausto Nilo conheceu outro sucesso popular, com “Dona da Minha Cabeça”, uma parceria com Geraldo Azevedo. A música foi regravada por Ivete Sangalo.

“Forró na Brasa” (forró, 1987) – Cecéu

Há 40 anos, o Brasil parava para ouvir uma música de título tão comprido que logo despertava a curiosidade, aguçada pelo próprio conteúdo da frase: “Mulher Nova, Bonita e Carinhosa Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor”.

Zé Ramalho, o autor da letra, falava com propriedade, já que, na ocasião, ele era casado com Amelinha, cantora que propagou a canção em todo o Brasil e recebeu o disco de ouro pelas mais de 500 mil cópias vendidas, em 1982.

A letra era mais inusitada ainda, já que pegava emprestada a história de Helena, mulher de Menelau, numa luta de gregos e troianos. Os versos pomposos não impediram que a canção se tornasse um hit da música brasileira, virando trilha sonora da minissérie “Lampião e Maria Bonita”, protagonizada por Nelson Xavier e Tânia Alves na Rede Globo.

Outro sucesso estrondoso de Amelinha aconteceu graças ao primo de Zé Ramalho, o compositor Luiz Ramalho. Em 1980, ela ganhou, de presente, a música “Foi Deus Que Fez Você”, com a qual se apresentou no Festival MPB-Shell para um Maracanãzinho absolutamente lotado, que vibrou com a sua apresentação. Já em 1987, ela lançou o irresistível “Forró na Brasa”, de Cecéu.

“Tareco & Mariola” (forró pé-de-serra, 1995) – Petrúcio Amorim

A cantora e compositora Juliana Linhares, da banda Pietá, lançou, em 2021, o disco “Nordeste Ficção”, em que apresenta parcerias com Zeca Baleiro, Chico César e outros nomes de sua geração, e também regrava as clássicas “Tareco & Mariola” e “Bolero de Isabel”, além de cantar, com Letrux, a irônica “Aburguesar”, canção escrita por Tom Zé em 1972, que permaneceu inédita.

Nascida em Natal, no Rio Grande do Norte, a potiguar aproveita o disco para questionar os estereótipos em torno da população nordestina. “Tareco & Mariola”, um tradicional forró pé-de-serra de Petrúcio Amorim foi lançado pelo paraibano Flávio José, natural de Monteiro, interior do Estado, alcançando enorme sucesso e ficando ligado a seu nome assim como “Espumas ao Vento”.

“Contando Estrelas” (forró, 2020) – Anastácia e Liane

Para celebrar os 80 anos, Anastácia entrega o presente ao público com o que sabe fazer de melhor: música. Autora de quase mil composições, boa parte delas ao lado de Dominguinhos (1942-2013), com quem foi casada por mais de uma década, ela tem no rol de sucessos “Eu Só Quero um Xodó”, “Tenho Sede”, “Tá Querendo Cafuné”, “Contrato de Separação”, entre outras, e foi gravada por nomes como Gilberto Gil, Gal Costa, Nana Caymmi, Angela Maria e Noite Ilustrada.

Em “Anastácia 80: Lado A”, a pernambucana privilegia essa reconhecida veia autoral, com cinco canções inéditas e diversas participações. A produção ficou a cargo de Zeca Baleiro. Roberta Miranda divide os vocais com a anfitriã em “Contando Estrelas”, parceria com Liane. É o encontro de mulheres nordestinas arretadas. “Numa noite estrelada/ Lá do meu sertão”, diz.