Quem não se lembra de Lucinha Lins interpretando clássicos do repertório infantil no filme “Os Saltimbancos Trapalhões”? Antes de dar voz às versões de Chico Buarque, porém, ela já havia estreado com um compacto simples em 1974, com a música “Esse Pássaro Chamado Tempo”, composta por Ivan Lins. Já em 1981, a atriz carioca passou por um momento paradoxal.
Venceu o Festival de Música Brasileira com a canção “Purpurina”, de Jerônimo Jardim, e recebeu uma das maiores vaias do público, que preferia e torcia por “Planeta Água”, de Guilherme Arantes. Dedicada ao cinema e às novelas, ela passou anos afastada da música, até que, em 2002, dedicou um disco inteiro à obra de Sueli Costa. Aos 70 anos, Lucinha Lins é patrimônio da arte cultural do Brasil...
“Dentro de Mim Mora Um Anjo” (MPB, 1975) – Sueli Costa e Cacaso
João Medeiros, que já era parceiro musical de Sueli Costa, foi quem a apresentou ao poeta Cacaso. Carioca criada em Juiz de Fora, Sueli logo se identificou com o mineiro de Uberaba que se mudou para o Rio. Juntos, eles criaram “Dentro de Mim Mora Um Anjo”, que foi gravada, em 1975, por Sueli para a trilha da novela “Bravo”, da Rede Globo. Atenta, Fafá de Belém não demorou a perceber a beleza daquela canção, e a regravou em seu terceiro disco de estúdio, “Banho de Cheiro”, lançado em 1978. A música abria o álbum em que Fafá aparecia na capa com um generoso decote e seu olhar sensual. A música foi gravada por Leila Pinheiro, Lucinha Lins e Wanderléa, entre outras...
“Narizinho” (infantil, 1977) – Ivan Lins e Vitor Martins
Com voz doce, melodiosa e afinada, Lucinha Lins ajudou a imortalizar o tema da personagem Narizinho na versão televisiva para o clássico literário de Monteiro Lobato. Composta por Vitor Martins e Ivan Lins, com quem Lucinha era casada na época, “Narizinho” foi um dos maiores sucessos da trilha sonora do seriado dirigido por Geraldo Casé, que contava com Zilka Salaberry e Jacira Sampaio nos papéis de Dona Benta e Tia Nastácia. O arranjo da canção ficou a cargo de Dori Caymmi, que soube equilibrar a sofisticação de suas obras a uma cantiga que fosse também atrativa para as crianças. “Narizinho, narizinho/ Sonha, sonha com amigos/ Uma fada brasileira/ De agrados e castigos”, diz a letra. Naquele ano, Lucinha ainda participou do LP de Ivan com os seus vocais.
“História de uma Gata” (MPB, 1981) – versão de Chico Buarque
A versão em português com músicas de Chico Buarque para o musical italiano “Os Saltimbancos”, serviu de base para o filme dos Trapalhões, de 1981, que também trazia Lucinha Lins no elenco. A versão italiana, por sua vez, era uma adaptação do conto dos Irmãos Grimm, “Os Músicos de Bremen”. Ao unir um universo fantástico, protagonizado por animais falantes, com a magia típica do mundo circense, Chico criou uma trilha sonora delicada, onde ele próprio interpretava a primeira faixa: “Uma pirueta/ Duas piruetas/ Bravo/ Bravo!”. O longa-metragem com os Trapalhões se tornou um dos maiores sucessos de bilheteria do quarteto formado por Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, fazendo história na telona. E “História de uma Gata” marcou a carreira de Lucinha Lins.
“Tango de Nancy” (tango, 1985) – Chico Buarque e Edu Lobo
“Tango de Nancy” é outra música de Chico Buarque feita sob uma encomenda, desta vez para o espetáculo teatral “O Corsário do Rei”, de Augusto Boal. Escrita em parceria com Edu Lobo, como toda a trilha da peça, “Tango de Nancy” se destaca pelo caráter visceral e extremo. A atividade da prostituição é descrita em seus aspectos mais dramáticos, passionais e simbólicos. É das poucas canções brasileiras a aludirem ao sexo de forma tão direta, livre e poética. O clima, no entanto, assume uma esfera triste, pois pesa sobre a protagonista a escolha feita por necessidades e não prazer. Essa realidade, substituída ao longo dos anos em alguma medida, é recorrente artisticamente, o que entrega a sua ocorrência na vida. O tango foi lançado em 1985 por Lucinha Lins, no espetáculo, sendo regravado por Célia e, até, Chico Buarque.