O escrete canarinho formado por Félix, Carlos Alberto Torres, Brito, Piazza, Everaldo, Clodoaldo, Gérson, Rivellino, Jairzinho, Tostão e o Rei Pelé, é, até hoje, considerado por muitos analistas e pela memória saudosa dos torcedores como a maior Seleção Brasileira de todos os tempos e que, não por acaso, conquistou o tricampeonato mundial no México, em 1970.
Se a Seleção jogava por música, com jogadas impressionantes de deixar os cabelos em pé e o coração batendo acelerado de tanta emoção, não nos custa lembrar que, fora de campo, os compositores brasileiros também batiam um bolão, com músicas que embalavam igualmente os milhões de apaixonados pelo futebol do Brasil...
“Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida” (samba de carnaval, 1970) – Paulinho da Viola
Em 1968, a pedido de Hermínio Bello de Carvalho, que escreveu a letra, Paulinho da Viola compôs a melodia para “Sei Lá, Mangueira”, que se tornou uma das mais famosas exaltações à escola de samba de Cartola, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça e outros sambistas de estirpe. Portelense de coração, Paulinho acabou recebendo críticas e os olhares atravessados de seus colegas de agremiação.
Para compensar essa questão, saiu-se com a poesia e a melodia inebriante de “Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida”, para saudar a sua amada Portela. O samba foi lançado em 1970, e fez enorme sucesso, estando, para sempre, ligado ao Carnaval. A música recebeu regravações de Elizeth Cardoso, Jair Rodrigues, Dóris Monteiro, Miltinho, e etc.
“Pra Frente Brasil” (hino, 1970) – Miguel Gustavo
“Pra Frente Brasil” foi composta por Miguel Gustavo em 1970 para embalar a Seleção Brasileira na Copa do Mundo do México e deu certo, já que a Seleção Canarinho voltou com o tricampeonato e um show de Pelé, Tostão, Jairzinho, Rivellino, Gérson, Carlos Alberto Torres e tantos outros craques.
Na ocasião, Miguel Gustavo venceu a disputa pela escolha da música para representar o Brasil no México, desbancando nomes como Chico Buarque, Edu Lobo e Carlos Imperial. Mas a música também serve para embalar a nossa torcida pelo Brasil na Copa, basta adaptar os “90 milhões em ação” para “200 milhões em ação”. Lançada pelo Coral de Joab, ela foi regravada por Zeca Pagodinho...
“Jesus Cristo” (louvor, 1970) – Roberto Carlos e Erasmo Carlos
O mundo inteiro sabe que o Brasil tem dois reis. Pelé, o Rei do Futebol, e Roberto Carlos, nossa majestade musical. Nascido na pequena Cachoeiro do Itapemirim, no interior do Espírito Santo, ele começou a cantar ainda na cidade natal, antes de rumar para o Rio de Janeiro, onde, na década de 1950, se tornou o principal nome da Jovem Guarda. A guinada para o romantismo aconteceu nos anos 1970, quando Roberto atingiu a maturidade artística.
Foi também nesse período que ele iniciou o flerte com as músicas de teor religioso, que se tornaram uma constante em sua vida. Entre os maiores sucessos de Roberto Carlos, estão músicas como “Falando Sério”, “Detalhes”, “Como É Grande o Meu Amor Por Você”, “Jesus Cristo”, “Proposta”, e inúmeras outras. Roberto Carlos é um dos brasileiros mais conhecidos mundialmente. Um ícone.
“Madalena” (MPB, 1970) – Ivan Lins e Ronaldo Monteiro
Ivan Lins fazia parte do MAU (Movimento Artístico Universitário), que, durante a resistência cultural à ditatura reunia futuros astros da música popular brasileira, casos de Gonzaguinha, Aldir Blanc e César Costa Filho. Esse grupo se reunia na casa do psiquiatra Aloísio Porto Carreiro e de sua esposa Maria Ruth.
Foi lá que surgiu “Madalena”, um samba com toda a pinta de MPB, composto por Ivan Lins e Ronaldo Monteiro. Atenta às novidades, Elis Regina logo pescou a pérola e gravou a música em 1970, que recebeu um arranjo especial de Chiquinho de Morais, com destaque para o toque de seu piano. “Oh Madalena, o meu peito percebeu/ Que o mar é uma gota/ Comparado ao pranto meu”, diz.
“Azul da Cor do Mar” (música soul, 1970) – Tim Maia
Tim Maia morava de favor no apartamento do cantor Fábio que, àquela altura, aproveitava o sucesso radiofônico enquanto se divertia, entre amigos, com duas garotas. Tim Maia, cabisbaixo em seu quarto, fitou a imagem de uma linda mulher num pôster, de biquíni numa praia.
As duas situações o inspiraram a compor um dos maiores sucessos de toda sua carreira. “Azul da Cor do Mar” é uma autêntica dor-de-cotovelo, cantada com espírito soul e a potente voz rouca do artista. Lançada em 1970, alcançou rapidamente o topo das paradas de sucesso, ao lado de “Primavera”, outra que ganhou o vozeirão de Tim Maia.
“BR-3” (soul, 1970) – Antônio Adolfo e Tibério Gaspar
Apresentada no V Festival Internacional da Canção, a música “BR-3”, de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, logo arrebatou o público, que se detinha muito mais na figura imponente e vigorosa de Tony Tornado do que em seus atributos como cantor.
Expressando-se através das gírias e da dança dos negros norte-americanos, o intérprete estabeleceu um confronto com todos aqueles que insistiam no preconceito e iam contra as liberdades individuais e coletivas. Dois anos depois, ele seria preso pelo regime militar, ao repetir no palco, num show de Elis Regina, a saudação do movimento conhecido como Panteras Negras, de origem marxista. Tony se apresentou com o Trio Ternura.
“Eu Te Amo Meu Brasil” (marcha, 1970) – Dom e Ravel
Em 1970, vivendo sob uma ditadura militar, o Brasil se via dividido entre aqueles que aderiam ao regime e os que lutavam contra ele. A dupla de compositores formada por Dom e Ravel foi logo taxada de simpática ao regime, graças a canções ufanistas como “Eu Te Amo Meu Brasil”, que exaltava as belezas do país em período de Copa do Mundo, e era acusada, por seus opositores, de gerar alienação na sociedade. A marcha foi gravada pelo grupo Os Incríveis e rapidamente se tornou uma das mais executadas em todo Brasil.
“Universo no Teu Corpo” (balada, 1970) – Taiguara
Filho do bandoneonista gaúcho Ubirajara Silva e da cantora uruguaia Olga Chalar, o cantor Taiguara nasceu em Montevidéu, no Uruguai, quando seus pais realizavam uma temporada de espetáculos pelo país sul-americano. Radicado no Brasil, Taiguara chegou a ser considerado o compositor mais censurado pela ditadura militar, com 68 canções proibidas.
Em 1968, o músico venceu o Festival Universitário de MPB, com a canção “Helena, Helena, Helena”, e, no mesmo ano, levou o festival “Brasil Canta no Rio”, com “Modinha”. Outro sucesso estrondoso do compositor foi a comovente balada “Universo no Teu Corpo”, que, em 1970, refletia sobre política, amor e poesia...
“Quero Voltar pra Bahia” (samba, 1970) – Paulo Diniz e Odibar
Depois de despontar como intérprete da cômica “O Chorão”, em 1966, Paulo Diniz, um então jovem promissor de Pesqueira, no agreste de Pernambuco, enfileirou hits radiofônicos que ainda são obrigatórios em apresentações de voz e violão nos bares de todo o país, como “Pingos de Amor”, “Um Chopp pra Distrair”, regravadas, respectivamente, por Kid Abelha e Emílio Santiago, e “Quero Voltar pra Bahia”, inspirada nas cartas que Caetano Veloso, exilado em Londres, escrevia para o semanário “O Pasquim” durante a ditadura militar. Em comum, a companhia do letrista baiano Odibar nas canções, todas de sucesso.
“Teletema” (canção, 1970) – Antônio Adolfo e Tibério Gaspar
Em 1970, a cantora Regininha emplacou o seu maior hit, quando a música “Teletema”, de Tibério Gaspar e Antônio Adolfo, entrou para a trilha-sonora da novela “Véu de Noiva”, da Rede Globo. Posteriormente, a música recebeu regravações de Evinha, Erasmo Carlos e do Kid Abelha, na voz de Paula Toller. “Rumo/ Estrada turva/ Sou despedida/ Por entre/ Lenços brancos/ De partida/ Em cada curva/ Sem ter você/ Vou mais só”. Um clássico absoluto, a música ficou conhecida, sobretudo, na gravação de Evinha, e chegou ao topo...
“Coqueiro Verde” (samba, 1970) – Roberto Carlos e Erasmo Carlos
A histórica entrevista de Leila Diniz para “O Pasquim”, recheada de palavrões censurados e em que pregava, principalmente, o “amor livre” e a “liberdade sexual da mulher”, gerou uma enérgica reação do regime militar vigente, e a censura prévia à imprensa ganhou, à boca pequena, o nome popular de “Decreto Leila Diniz”. Erasmo Carlos se vale de uma frase de Leila nesta entrevista para compor a letra de “Coqueiro Verde”, um samba em parceria com Roberto Carlos, que foi regravado por Dóris Monteiro e se tornou sucesso.
“Para Lennon e McCartney” (clube da esquina, 1970) – Márcio Borges, Lô Borges e Fernando Brant
Entre os amigos com quem formou o Clube da Esquina, Milton Nascimento sempre foi intimamente chamado de Bituca. Em 1970, ele lançou uma parceria dos irmãos Márcio Borges e Lô Borges com Fernando Brant, todos artífices do movimento, que se tornou um de seus grandes sucessos. “Para Lennon e McCartney” explicitava no título a influência dos Beatles sobre o Clube da Esquina, mas deixava claro em seu verso final: “Sou do mundo/ Sou Minas Gerais”. E a música ganhou uma regravação da cantora Célia, no ano de 1971.
“Je T’aime... Moi Non Plus” (balada, 1969) – Serge Gainsbourg
Nada como uma polêmica para acender uma canção e leva-la ao topo das paradas de sucesso. Foi o que aconteceu com a balada “Je T’aime... Moi Non Plus”, do francês Serge Gainsbourg, que, em 1969, acabou proibida em diversos países, devido a seu conteúdo erótico. No Brasil, apesar da censura, a canção passou, e logo se tornou uma febre parecida ao fervor da cantora Jane Birkin, então namorada de Gainsbourg, que acompanha o compositor na gravação e simula um orgasmo. Para completar, a música é cantada em sussurros. Originalmente, ela teria sido composta para a musa Brigitte Bardot...
“Ê Baiana” (samba, 1970) – Fabrício Silva, Baianinho, Ênio Santos e Miguel Pancrácio
Adelzon Alves, à época produtor e futuro namorado de Clara Nunes, foi o responsável por dar a guinada na carreira da intérprete. Após dois álbuns cantando boleros, valsas e samba-canção, a mineira Clara finalmente entoava sambas. Uma das preocupações de Adelzon era, segundo ele mesmo, sempre colocar um samba de avenida no repertório, para o povo cantar a plenos pulmões. Foi o que aconteceu em 1970, com “Ê Baiana”, de autoria de Fabrício Silva, Baianinho, Ênio Santos e Miguel Pancrácio, um sucesso de alto quilate...
“Coco Verde” (MPB, 1970) – Sérgio Sampaio
Símbolo da modernização da música brasileira, ponte entre o samba-canção e a bossa nova, a cantora Dóris Monteiro agregava suavidade e uma dose de sensualidade com sua voz doce e delicada, talhada para o momento de transição que a MPB atravessava. Em 1970, atenta ao que acontecia de novo e de melhor no cancioneiro nacional, ela pescou a música “Coco Verde”, pérola do compositor Sérgio Sampaio, conhecido pelo sucesso estrondoso da marcha “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, e que viria dois anos depois, em 1972...
“Suspicious Minds” (balada, 1969) – Mark James
Uma das melhores canções de toda a carreira de Elvis Presley, o Rei do Rock. Assim é considerada “Suspicious Minds”, uma balada escrita pelo guitarrista Mark James que, inclusive, tocou com Elvis na histórica gravação, de 1969. A canção disparou direto para o topo da parada de sucessos, e rendeu a Elvis aclamação de crítica e público. Alçada a clássico absoluto de sua carreira, recebeu diversas regravações ao longo da carreira, inclusive modificando o arranjo, mas nenhuma foi tão marcante quanto sua versão original. A música ficou tão conhecida que, após trinta anos, entrou para o hall da fama, em 1999.