Ouça a rádio

Compartilhe

Crimes envolvendo moradores de rua crescem até 66% e aumentam crise no comércio de Belo Horizonte

Região Centro-sul concentra mais da metade das pessoas em situação de rua da capital mineira

Crescimento desenfreado de pessoas em situação de rua provoca crise no comércio

Na esteira do crescimento da desigualdade no país, uma realidade que está escancarada não só nos dados, mas no dia a dia dos belo-horizontinos é a explosão de pessoas em situação de rua na capital, impactando o cotidiano e a economia da cidade. O comércio de rua, uma das principais atividades econômicas de Belo Horizonte na geração de emprego e renda, tem sentido os efeitos dessa realidade: a sensação de insegurança muitas vezes tem afastado os consumidores das lojas e, segundo entidades comerciais, contribuído para a redução das vendas.

Ao passo que a população em situação de rua em BH quadruplicou nos últimos dez anos, de 2019 para cá, Minas Gerais registrou o crescimento de alguns crimes envolvendo esse perfil. No caso dos registros de roubo, a alta foi de 66%. De acordo com dados da Secretaria de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), nos últimos três anos, os registros de homicídio consumado e tentado tiveram alta de 27%, enquanto os de lesão corporal tiveram um crescimento de 22%. No ano passado foram registrados 488 furtos envolvendo pessoas em situação de rua no Estado. 

Para os lojistas, a sensação de insegurança afeta ainda mais o setor, que tenta se recuperar da crise após a pandemia. Na avaliação do Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), Marcelo de Souza e Silva, o aumento da população em situação de rua na capital prejudica, principalmente, as micro e pequenas empresas, que são responsáveis por 60% dos negócios na capital. Segundo ele, o atual cenário de BH tem afastado consumidores e contribuído para a redução das vendas na cidade.

Leia mais: Gastos com aluguel em BH fazem famílias irem para a rua

"O setor de comércio e serviço é a principal força econômica de Belo Horizonte. O aumento dessa população só nos mostra uma deterioração do ambiente de negócios, diminuindo a renda, a circulação e a queda no consumo. Não é digno que essas pessoas estejam morando na rua, mas isso não é um problema só do comércio, é um problema de toda a população", afirma Souza e Silva. E acrescenta: "Esse ambiente degradado traz uma sensação de insegurança, e essa ocupação irregular do espaço público prejudica diretamente aqueles empresários que não têm condições de estar nos shoppings ou nos centros comerciais. Esse ambiente deteriorado atrai pessoas que não são moradores de rua, mas, sim, marginais, que se misturam com esse público para fazer pequenos e repetidos furtos, que prejudicam mais ainda o comércio", completa o empresário.

Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, a região Centro-sul possui a maior concentração de pessoas em situação de rua na capital, o equivalente a 55%, seguida pela região Leste (11%) e Norte (9%). 

Na avenida Paraná, no centro de BH, Francisco Maia, 77, viu as vendas despencarem em pelo menos 50%. E o motivo, para ele, não foi só a pandemia ou a crise econômica. Trabalhando no mesmo ponto há 52 anos, para o empresário, o centro de BH já não é mais o mesmo. Depois de ver os clientes sumirem, agora, quem não aguenta mais é ele, que pensa em fechar as portas e largar a tradição do negócio que vem de família depois ter a loja arrombada por nove vezes.

"Eu chego às 6h e esse quarteirão está cheio de gente dormindo, dá medo. Aqui, antes era mais comércio, era melhor, hoje não tem, está muito difícil. Quando estamos fechados, ficam sujando o negócio. Freguês bom não vem, aqui já era. Eu estou tirando o meu salário para pagar aluguel. Eles dormem na porta, arrebenta tudo, não tem uma lâmpada aqui, porque roubam", lamenta o comerciante. 

A atendente Cristiane Paiva, 55, sofre com panorama parecido. Há oito anos trabalhando em um restaurante no centro de Belo Horizonte, ela precisa lidar constantemente com o sentimento de impotência ao lidar com a população em situação de rua, que a cada dia só aumenta na porta do estabelecimento. "Todo dia uma pessoa nova aparece na porta. A rodoviária, que deveria ser o cartão-postal, não é mais. A pessoa chega e a primeira coisa que comenta é a situação da cidade. A gente acaba ajudando mais que o poder público, dá comida, oferece um banho, mas isso deveria ser responsabilidade da prefeitura", afirma Cristiane.

Segundo ela, quando há pessoas dormindo na porta do restaurante, o movimento diminui, em média, 40%. "A situação em que essas pessoas vivem nunca deveria ser normalizada, mas é um problema que respinga em todo mundo", pondera. 

A diretora da Associação dos Comerciantes do Hipercentro de Belo Horizonte (ACHBH), Jacqueline Bacha, garante que os lojistas se juntam para minimizar essa situação, mas, segundo ela, não dá mais para ‘tapar o sol com a peneira’. "A verdadeira ação social é feita por nós, comerciantes, que ajudamos enquanto sociedade e enquanto cidadãos, mas nós não somos capacitados para isso. Vemos que muitos deles, pela fragilidade física e emocional, não conseguem nem chegar a um restaurante popular", conta a lojista, que não se esquece de um pedido feito por uma senhora: "Ela falou que a maior felicidade dela era ter um local para tomar banho com privacidade. Isso é muito grave. Eu passo mais de oito horas por dia na região central de BH, de segunda a sábado, e eu vejo: é uma população sofrida, que fica sujeita a temporais, ao frio, à fome. Muitos chegam totalmente fragilizados nas ruas e se aprofundam no álcool e nas drogas. Alguns misturam-se à ação de bandidos da região, ficando sujeitos até a acidentes de trânsito", afirma Jacqueline. 

Para ela, é urgente a ação do poder público. "É muito sofrimento para eles, rua não é lugar de gente viver. E nós, como comerciantes, precisamos de um pouquinho de paz para poder empreender. Já chega de tantas crises econômicas, pandemia, tantos impostos e taxas e dificuldades no dia a dia e ainda temos esse grave problema para enfrentar diariamente", desabafa. 

"Suposições e percepções"

Apesar da maior sensação de insegurança gerada pelo aumento dos moradores de rua na visão dos comerciantes, para a porta-voz da Polícia Militar (PM), Layla Brunela, não é possível relacionar o crescimento ou a diminuição dessa população com a criminalidade na capital. "Esse é um problema multifatorial, é uma questão social, que perpassa por diversos órgãos. A PM é uma polícia extremamente técnica e não há de comentar questões de suposições e percepções que não sejam comprovadas estatisticamente ou por meio de estudos", avalia a Major. 

"A polícia segue o seu trabalho apoiando a população que se encontra em uma situação de vulnerabilidade, que precisa do aparato não só policial, mas de todos os órgãos públicos para que saia dessa situação, tenham uma condição de vida melhor", completa. 

A população de rua também é vítima de violência e sofre com o preconceito

Nas ruas apenas há 4 dias, André Guilherme, 19, tenta se adaptar à nova realidade. Mas garante que o que mais dói não é só a fome, nem a solidão, mas sim os olhares em constante julgamento. Expulso da casa da família, o único objetivo é conseguir ajuda para se livrar do vício em drogas. "Eu nunca passei por essa situação de pedir as coisas. As pessoas costumam ter medo, não conhecem a nossa índole. Tem até razão, porque não sabem da história, e a cidade é muito violenta. Mas é muito ruim, você conta uma história, a pessoa não acredita, acha que é mentira", afirma o jovem, que garante que já conseguiu o dinheiro da passagem para uma clínica em São João Del Rei, na região  Central do Estado. Só falta a vaga. "Eu quero muito sair dessa vida. Para mim, isso não compensa, eu vou correr atrás enquanto ainda dá tempo para recuperar o tempo perdido”. 

Quem também nunca imaginou estar nas ruas é o ambulante Flávio William, 35. Hoje, no abrigo da prefeitura, ele tenta recomeçar a vida vendendo balas na rua Sapucaí, no bairro Floresta, na região Leste de BH. O maior sonho dele, além de terminar os estudos, é que um dia seja olhado de igual para igual. "As pessoas fecham o vidro, se afastam da gente, se acham superiores. Mas ninguém é superior, todos somos iguais. Vamos para o mesmo lugar quando morrermos. E estar nessa situação pode acontecer qualquer um, ninguém pode julgar e criticar", afirma. 

Na avaliação da assistente social e coordenadora da Arquidiocese de BH, Claudenice Lopes, a falta de diálogo entre sociedade e poder público cria um ambiente hostil na cidade. "É real esse conflito. A população em situação de rua impacta em tudo na cidade, no comércio, em quem transita, e isso vai desde a falta de banheiros públicos, que obriga essas pessoas a fazer suas necessidades na rua, gerando mau cheiro, até montarem suas barracas nas calçadas impactando no trânsito. Por isso, é um problema de todo mundo, todos precisam se envolver e pensar em estratégias, porque se não há uma convivência dialogada, mais fraterna, o abismo entre essas pessoas e a sociedade aumenta ainda mais", observa Claudenice, que reforça que o olhar desigual para essa população potencializa a violência. 

"Gera um ambiente hostil até entre eles. Quem está na rua está no limite de qualquer situação. Então, uma ação pequena pode gerar neles uma reação agressiva. Mas é importante lembrar que o contexto que essa pessoa está já a violentou. A condição em que ela vive é desumana, falta privacidade. A cidade é afetada, mas ela foi a primeira impactada", completa a especialista. 

Outro lado

Em nota, a Prefeitura de Belo Horizonte informou que tem investido em políticas intersetoriais para melhor atender a população em situação de rua na capital. Segundo a PBH, de 2017 a 2020, foram investidos mais de R$ 80 milhões em políticas de saúde, segurança e assistência social. 

Na avaliação da Secretária Municipal de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania, Maíra Colares, a população em situação de rua incomoda, porque é a parte da pobreza visível aos olhos. "Quando falamos de pobreza em vilas e favelas, falamos sobre pessoas passando fome, que estamos em em uma crise, que o Brasil voltou para o mapa da fome. Nada disso é sensível à sociedade, não comove. Mas a população em situação de rua é a concretização aos olhos da sociedade, daquilo que está na porta da casa dela, está no sinal. Essa realidade é visível, a mais perversa da crise econômica, por isso, incomoda a população", pontua. 

Leia Mais

Mais lidas

Ops, não conseguimos encontrar os artigos mais lidos dessa editoria

Baixar o App da Itatiaia na Google Play
Baixar o App da Itatiaia na App Store

Acesso rápido