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Obras na Basílica de Aparecida (SP) são interrompidas após expulsão de padre acusado de abuso sexual

Construção de mosaicos foram interrompidas em fevereiro deste ano; pelo menos 21 vítimas teriam sido abusadas entre 1980 e 2018

O padre Marko Ivan Rupnik, de 68 anos, é acusado de cometer diversos abusos sexuais na Europa

O padre Marko Ivan Rupnik, de 68 anos, é acusado de cometer diversos abusos sexuais na Europa

Reprodução/TV Aparecida

A construção dos mosaicos nas fachadas do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida (SP), foram interrompidas após o padre responsável pela obra ser expulso da Companhia de Jesus, ordem a qual pertencia. O padre Marko Ivan Rupnik, de 68 anos, é acusado de abusos sexuais na Europa contra pelo menos um homem e 20 mulheres - dentre elas, nove são freiras.

O delegado para as Casas e Obras Internacionais Romanas da Companhia de Jesus, padre Johan Verschueren, informou por meio de uma carta aberta a decisão da congregação. Em 14 de junho, Rupnik foi expulso definitivamente da instituição por “sua recusa obstinada em observar o voto de obediência”.

O padre é conhecido por ser o autor de mosaicos em igrejas ao redor do mundo, entre elas os da Basílica de Aparecida, que começaram a ser construídos em 2019. Rupnik é o fundador do Centro Aletti, ateliê responsável pelas obras e um mais importantes polos da arte sacra no mundo, com sede em Roma. A empresa possui mais de 200 obras em mosaico em igrejas pelos cinco continentes.

Basílica de Aparecida não sabe como terminar obra

Em nota enviada à Itatiaia, o Santuário de Aparecida confirmou que as obras de revestimento da Basílica são de concepção e execução de mosaicistas do Centro Aletti. “Como o padre é membro desta instituição, o Santuário Nacional acompanha com atenção o caso e aguarda orientações da Igreja para suas definições”, diz trecho da nota.

Em 2018, a Basílica aprovou a construção de um projeto intitulado “Jornada Bíblica” nas fachadas do Santuário de Aparecida. Mosaicos que representam 110 passagens bíblicas estampariam as quatro faces do templo religioso. O objetivo é transformar a basílica em uma das “maiores Bíblias a céu aberto” do mundo.

Os mosaicos são feitos de pedras naturais, como mármore e granito, e de vidro veneziano de fabricação artesanal. As peças são de origem diversa: há pedras brasileiras, mexicanas, belgas, portuguesas, francesas, egípcias, entre outras. Elas chegaram em nove contêineres via transporte marítimo e terrestre.

As imagens que compõem as cenas vieram pré-montadas de Roma, Itália. A argamassa usada na construção também é de origem italiana. O primeiro mosaico, que estampa a fachada norte da Basílica, foi finalizado e entregue em 19 de março do ano passado. A obra é inspirada em cenas do livro Êxodo.

O projeto ainda prevê a construção de mosaicos que representam a Páscoa de Cristo, na face sul do edifício; o Gênesis, na face leste; e o Apocalipse, na oeste.

As obras começaram em 2019 e contaram com mais de 177 profissionais. Entre eles, 27 mosaicistas de diferentes nacionalidades, ligados ao Centro Aletti. Antes da interrupção da obra, a construção das fachadas era considerado o maior projeto do escritório de arte sacra. Apenas na face norte, foram aplicados quatro mil metros quadrados de mosaicos em uma parede de 50 metros de altura.

Agora, a obra segue indefinida e paralisada. Desde fevereiro deste ano, a Companhia de Jesus proibiu o padre de realizar obras públicas. Apesar da inauguração da fachada norte, os outros três mosaicos ainda precisam ser concluídos.

Abusos sexuais

O padre Marko Ivan Rupnik teria abusado sexual e psicologicamente de diversas vítimas entre 1980 e 2018. Os casos teriam ocorrido na Itália e Eslovênia. Segundo o UOL, em seu país de origem, o religioso teria cometido os crimes contra freiras da comunidade eslovena Loyola de Ljubljana, fundada por um padre de quem Rupnik era amigo e pai espiritual.

Há alguns meses, as denúncias contra o religioso começaram a ser investigadas pela Companhia de Jesus. A ordem jesuíta teria recebido uma denuncia contra o religioso sobre a “sua maneira de realizar o seu ministério”. Após a análise do caso, o Dicastério (nome dos departamentos da Igreja Católica que compõem a Cúria Romana - órgão administrativo da Santa Fé), considerou as acusações inoportunas e encerrou o caso em outubro de 2022.

Mas, posteriormente, a ordem descobriu que havia uma outra investigação aberta contra Rupnik. Dessa vez, o padre era acusado de ter “absolvido uma mulher com quem teve relações sexuais durante a confissão”. A Companhia de Jesus decidiu, então, pela expulsão do religioso.

A carta aberta, na qual a ordem jesuíta comunica a decisão, informa que Rupnik pediu para deixar a Companhia em janeiro deste ano. Mas, segundo a ordem, o padre fez “um compromisso vitalício de obediência e não há obrigação por parte da Congregação Religiosa de aceitar um pedido semelhante”.

Segundo a Companhia, o pedido não foi aceito para que o padre buscasse o “caminho da verdade e do confronto com o mal denunciado por tantas pessoas que se sentiram feridas”. Como Rupnik não aceitou o “convite”, a ordem jesuíta decidiu expulsá-lo.

* sob orientação de Enzo Menezes

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