PMEs ainda desperdiçam milhões de horas com burocracia e gestão manual, aponta estudo
Levantamento mostra que pequenas empresas dedicam, em média, 21 horas por semana ao controle de despesas. Especialistas defendem que tecnologia e capacitação prática são os caminhos para aumentar a produtividade

Administrar um pequeno negócio no Brasil exige muito mais do que vender, atender clientes ou desenvolver novos produtos. Para milhões de empreendedores, boa parte da semana ainda é consumida por tarefas administrativas que pouco contribuem para o crescimento da empresa.
Um levantamento da fintech Conta Simples, realizado em parceria com a Visa, revela que as pequenas e médias empresas brasileiras dedicam, em média, 21 horas por semana a atividades como pagamentos, prestação de contas e controle de despesas. Considerando o universo de cerca de 4,5 milhões de PMEs formais, isso representa aproximadamente 97 milhões de horas semanais destinadas à burocracia financeira, tempo que deixa de ser investido em inovação, vendas e planejamento estratégico.
O estudo também mostra que a digitalização ainda avança de forma desigual. Quase quatro em cada dez micro, pequenas e médias empresas (39%) ainda utilizam métodos manuais, como cadernos e planilhas pouco estruturadas, para controlar despesas corporativas, cenário que amplia o risco de erros, retrabalho e perda de produtividade.
Para Rodrigo Tognini, CEO da Conta Simples, esse é um reflexo da forma como muitas empresas ainda organizam seus processos internos. "O estudo destacou que 39% das MPMEs ainda utilizam recursos manuais, como cadernos, para gerir suas despesas. Esse processo fragmentado gera retrabalho para a equipe e desperdiça tempo precioso que poderia ser investido em outras demandas", afirma.
Segundo ele, o avanço da tecnologia deve transformar esse cenário nos próximos anos. "Com novas plataformas, ferramentas e o avanço dos agentes de Inteligência Artificial, as PMEs tendem a ganhar eficiência e produtividade na gestão da empresa e controle de despesas corporativas. Os agentes de IA podem assumir atividades repetitivas e operacionais, permitindo que profissionais concentrem esforços em análises, planejamento e decisões de maior valor agregado."
A dificuldade, no entanto, vai além da adoção de novas ferramentas. Especialistas apontam que muitos empreendedores acumulam diferentes funções dentro do negócio e acabam priorizando a operação diária em detrimento da gestão.
Em empresas de menor porte, é comum que o próprio empreendedor seja responsável simultaneamente pelas vendas, compras, atendimento ao cliente, controle financeiro, contratação de funcionários e planejamento estratégico. Nesse contexto, a organização administrativa acaba sendo tratada como uma atividade secundária, embora seja decisiva para a sustentabilidade do negócio.
Esse cenário ajuda a explicar por que processos simples, como aprovação de despesas, organização do fluxo de caixa e acompanhamento de indicadores financeiros, ainda consomem uma parcela significativa do tempo das equipes.
Capacitação precisa caber na rotina de quem empreende
Se a tecnologia é uma aliada para reduzir a burocracia, especialistas defendem que ela precisa vir acompanhada de educação empreendedora. Mais do que oferecer cursos tradicionais, o desafio passa por criar formatos de aprendizagem compatíveis com a rotina de quem está à frente de um pequeno negócio.
É essa a estratégia adotada pelo Fundo de Impacto Estímulo, que desenvolve programas de capacitação voltados a micro e pequenos empreendedores com conteúdos práticos e de rápida aplicação. Entre os formatos utilizados estão pílulas de conhecimento, vídeos curtos, conteúdos enviados por WhatsApp e materiais simplificados, que permitem ao empreendedor aprender sem precisar interromper a operação da empresa.
Para Vanessa Soki, líder de Capacitação do Fundo de Impacto Estímulo, democratizar o acesso ao conhecimento passa, antes de tudo, por adaptar a forma como ele é oferecido.
"A tecnologia é uma aliada importante para reduzir a burocracia, mas ela só gera resultados quando o empreendedor sabe utilizá-la de forma estratégica. A gestão continua sendo um dos principais diferenciais para a sustentabilidade dos pequenos negócios.
Por isso, investimos em modelos de aprendizagem simples, rápidos e acessíveis, que cabem na rotina de quem está à frente da operação todos os dias. A capacitação precisa estar onde o empreendedor está, seja no celular, em uma conversa pelo WhatsApp ou em conteúdos curtos que possam ser colocados em prática imediatamente", afirma.
A iniciativa oferece mais de 400 cursos gratuitos de diferentes parceiros do Estímulo, além de trilhas de capacitacão nas áreas de gestão financeira, contabilidade, administração de maneira geral e vendas são as mais requisitadas.
Segundo a especialista, a experiência mostra que conteúdos objetivos e conectados aos desafios cotidianos geram maior engajamento e aumentam as chances de aplicação prática dos conceitos de gestão.
A chegada da inteligência artificial promete acelerar ainda mais a transformação da gestão empresarial. Ferramentas capazes de automatizar processos financeiros, organizar documentos, acompanhar despesas e apoiar a tomada de decisão tendem a reduzir o tempo dedicado às atividades operacionais. Porém, a tecnologia, sozinha, não resolve os desafios enfrentados pelas pequenas empresas.
A capacidade de interpretar informações, planejar investimentos, organizar o fluxo de caixa e tomar decisões estratégicas continuará sendo um diferencial competitivo. Nesse contexto, combinar inovação tecnológica com capacitação permanente pode representar um dos principais fatores para aumentar a produtividade das PMEs brasileiras.
Em um ambiente de negócios cada vez mais competitivo, ganhar eficiência deixou de ser apenas uma questão operacional. Para milhares de pequenos empreendedores, administrar melhor o tempo tornou-se uma estratégia de crescimento e, muitas vezes, de sobrevivência.


