Greve dos caminhoneiros em 2018 ‘paralisou’ o país por 10 dias; relembre
Última paralisação nacional da categoria causou uma disparada na inflação e prejudicou o crescimento do PIB

Com caminhoneiros de todo o país ensaiando um movimento de greve em protesto contra a alta no diesel, em meio a disparada no preço do petróleo causada pela guerra no Oriente Médio, cabe lembrar a paralisação nacional que ocorreu em 2018. Também motivados pelo preço dos combustíveis, os motoristas cruzaram os braços por cerca de 10 dias e afetaram profundamente a atividade econômica.
Na época, o diesel enfrentava uma disparada de 56,5% na refinaria, de 2017 até o primeiro dia do movimento grevista, segundo cálculos do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). O motivo era a nova política de preços da Petrobras, iniciada em julho de 2017, que equiparava os custos nacionais ao mercado internacional.
O valor de revenda do combustível passou de R$ 1,50 para R$ 2,34, acompanhando a cotação do barril do petróleo. Como consequência, os caminhoneiros iniciaram uma greve no dia 21 de maio exigindo uma série de medidas do governo para conter a crise.
Entre as demandas estava a isenção de PIS e Cofins cobrados sobre o diesel, e a isenção da Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico (Cide). Segundo a categoria, os impostos eram quase a metade do valor do combustível, enquanto o diesel representava 42% do custo do frete das entregas.
Na madrugada do dia 21, os motoristas iniciaram a greve em um entroncamento na rodovia Dutra, no Rio de Janeiro, e o movimento rapidamente se espalhou com bloqueios de centros logísticos e rodovias de 25 unidades da federação. Por alguns dias, as cidades foram esvaziadas pela falta de combustível em postos de gasolina, e o fornecimento de diversos bens e insumos foram interrompidos.
Impactos
Apesar de durar apenas 10 dias, o impacto foi profundo. A inflação teve uma disparada de quase 3% em abril para 4,4% em junho. A resolução célere do problema fez com que houvesse uma deflação em agosto, e o índice de preços encerrou o ano em pouco menos de 3,8%, de acordo com o acumulado de 12 meses.
Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), a mediana das projeções apontava um crescimento de 2,8% no ano, nos cálculos realizados até abril de 2018. Contudo, a economia nacional cresceu apenas 1,8%, em parte pelas incertezas do processo eleitoral, em parte pela perda de produção não recuperada no período.
Como o governo atendeu a categoria?
No dia 24 de maio, o governo chegou a se reunir com representantes da categoria por sete horas no Palácio do Planalto, celebrando um acordo que incluía zerar o Cide e baixar em 10% o preço do combustível nas refinarias por 30 dias. Contudo, a principal demanda dos trabalhadores que era a isenção do PIS/Cofins, ficou de fora.
Os caminhoneiros rejeitaram o acordo e a paralisação prosseguiu no país. O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, chegou a afirmar que o movimento tinha apoio das empresas do setor, uma prática chamada de “locaute” e proibida pela legislação. No dia 25, o governo acionou as Forças Armadas para desbloquear rodovias e deu aval para multar manifestantes.
No dia 27, o sétimo dia de greve, o desabastecimento já atingia mais de 90% dos postos em alguns estados. Após uma reunião com a Casa Civil do governo Michel Temer (MDB), a Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam) assinou um acordo para o fim das paralisações, mas a categoria seguiu de braços cruzados.
Além das isenções de impostos, o governo publicou uma tabela que regulamenta preços mínimos para o frete que reduzia em média 20% dos valores mínimos. Houve também uma isenção na cobrança de caminhões vazios em pedágios, e a garantia que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) contratasse trabalhadores autônomos.
Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.



