Geração Z já representa 51% dos compradores de imóveis no DF em 2026, diz MRV
Apesar das inseguranças com longos financiamentos, pesam a independência, o empreendedorismo e a fuga do aluguel, caractéristicas da geração

Ao completaram três anos de namoro, André Victor, de 23 anos, e Sara Noleto, de 21, noivaram em Brasília. Em junho, uma nova preocupação passou a fazer parte dos planos do casal: onde morar depois do casamento, marcado para dezembro? Foi então que a ideia de comprar um apartamento começou a se tornar realidade.
André, que trabalha na área de criação como publicitário, e Sara, estudante de odontologia, já economizavam havia algum tempo. A princípio, o objetivo era comprar um apartamento, mas o valor acumulado ainda estava distante do necessário, mesmo para dar entrada em um imóvel.
Foi então que os pais de André entraram em cena. Eles venderam um carro, que também era parcialmente custeado pelo filho, para somar o dinheiro às economias do casal e pagar a entrada. Com a ajuda de um intermediário, conseguiram a aprovação de um financiamento com uma parcela mais alta, e André comprou um apartamento de dois quartos em Samambaia, região administrativa do Distrito Federal (DF).
Apesar das barreiras que o afastavam da decisão de comprar a casa própria, principalmente o longo prazo do financiamento e as incertezas relacionadas à estabilidade profissional como trabalhador contratado como CLT, André conta que dois fatores pesaram para a decisão: o incentivo dos pais para sair do aluguel e o casamento no fim do ano.
“Meus pais encontraram o apartamento. Os filhos do senhor, que foi o único dono do imóvel, tinham interesse em vender rápido e estavam anunciando por um valor R$ 40 mil abaixo do mercado. Sou leigo no setor imobiliário, mas sei que a taxa de juros não está boa agora. Mesmo assim, nessas condições e fazendo os cálculos, vimos que os R$ 40 mil economizados compensavam os juros que seriam pagos no financiamento. Além disso, a parcela acabou ficando no mesmo valor de um aluguel”, explicou.
A história de André e Sara acompanha uma mudança identificada em um levantamento da construtora MRV, que aponta que mais de 51% dos compradores de apartamentos da construtora no primeiro semestre de 2026 têm entre 18 e 30 anos, faixa etária que classificada como geração Z.
Ainda de acordo com a pesquisa, enquanto a mudança no perfil dos compradores ocorreu de forma gradual no Brasil, no Distrito Federal ela foi mais acentuada. De 2022 para 2026, a participação de pessoas com menos de 30 anos entre os compradores passou de 24% para 51%. Entre as motivações apontadas para esse movimento estão a vontade de investir e o desejo de sair do aluguel.
Para Fernanda Reginatto, gestora comercial da MRV, o crescimento desse público no DF é resultado de uma combinação entre uma tendência geracional e características econômicas locais.
“O Distrito Federal está entre os maiores PIBs do país e também apresenta alguns dos maiores índices de interesse na compra de imóveis. Ao comparar os valores dos aluguéis na região com as parcelas de financiamento, eles pensam: se a renda vai ser comprometida, que seja em algo que una moradia e construção de um patrimônio”, afirma a especialista.
Entre as características mais fortes desses jovens estão a busca por estabilidade e independência financeira. Apesar da ajuda dos pais durante a negociação, André é quem vai arcar, inicialmente sozinho, com as parcelas do apartamento, que começam a ser pagas em outubro.
O interesse por finanças contribuiu bastante para a decisão. André já investiu na bolsa de valores por um tempo e acompanhou de perto a experiência dos pais com o financiamento de uma casa. O conhecimento da família sobre mecanismos como a amortização da dívida trouxe mais segurança para que ele fizesse o investimento.
Imóvel também é visto como investimento
Outra descoberta do levantamento é que 61% desses compradores são homens e 74,7% são solteiros. Segundo a especialista da MRV, a independência buscada pela geração Z também está associada ao interesse por empreender e investir pela possibilidade de construir patrimônio.
“A escolha por um imóvel nesse investimento é porque o bem tende a se valorizar ao longo do tempo e pode representar segurança financeira, estabilidade e até uma fonte de renda extra no futuro”, afirma Fernanda.
Essa lógica também pesou na decisão de outro jovem ouvido pela Itatiaia. Estudante de Engenharia de Software da Universidade de Brasília (UnB) e servidor do Banco do Brasil, ele conta que comprou, há cerca de um ano, um lote de dois hectares em Planaltina, no Distrito Federal.
Segundo o jovem, a oportunidade chamou a atenção porque o terreno custava menos do que o valor que precisaria desembolsar para dar entrada em uma casa. O investimento foi adquirido por meio de salários, dinheiro guardado e a divisão de uma parte do local com um sócio.
“Foi uma proposta praticamente irrecusável, custou o preço da entrada de um imóvel pequeno. Pensei: com esse valor, eu poderia gastar em um upgrade do meu carro, que é um Honda 2010, mas o carro só iria depreciar. O lote vai valer muito mais no futuro”, explicou.
O jovem ainda não definiu o destino da propriedade, mas avalia diferentes possibilidades. Uma delas é vender cerca de um terço do terreno e usar a área restante para abrir um empreendimento ligado ao ecoturismo.
“O lote é totalmente cru, mato virgem. Seriam horas capinando e mal se consegue abrir uma trilha. Mas a ideia seria construir algo lá, ainda não sei se para morar. Por acaso, lá tem turismo ecológico por ter uma espécie de tombamento. Por mim, poderiam ser feitos uns chalés e eu venderia, no máximo, um terço do terreno”, disse.
Áreas de lazer e localização pesam na escolha
O casal André e Sara também reforça outro comportamento identificado no levantamento da MRV: a atenção dos compradores mais jovens à estrutura do condomínio e à localização do imóvel. No caso deles, itens como banheiro social, espaço para receber amigos e proximidade com o metrô pesaram na decisão.
“Para a minha noiva, era essencial ter dois quartos e banheiro social, para as visitas não precisarem entrar no nosso quarto. A minha maior exigência era que fosse perto do metrô, já que nossa vida acontece toda no Plano Piloto. Então, tínhamos que conciliar. Queríamos um lugar com espaço social, churrasqueira, piscina e quadra de esportes para receber pessoas”, detalhou.
No Distrito Federal, empreendimentos residenciais, como os da construtora, têm incorporado estruturas voltadas a esse perfil de consumidor, com espaços para home office, bicicletários, áreas de descanso, academias, piscinas, gazebos, churrasqueiras, playgrounds e salões de festas.
A localização também aparece como fator importante na decisão de compra. Empreendimentos próximos a centros comerciais, estações de metrô, terminais de transporte público, supermercados e outros serviços ganham espaço entre jovens que buscam conciliar a aquisição da casa própria com facilidades na estrutura urbana.
Formada em jornalismo pela Universidade de Brasília (UnB), tem cinco anos de experiência na comunicação política. Desde a reportagem, no Correio Braziliense, até a assessoria parlamentar. Em 2024, atuou em campanha eleitoral majoritária. Especialista em gerenciamento de crise e construção de imagem. Na Itatiaia, escreve para o portal, em Brasília.



