A experiência que faz a diferença: maturidade 60+ transforma o varejo e empreende em MG
Em dez anos, o número de idosos inseridos no mercado de trabalho no Brasil subiu de 5,7 milhões para 8,7 milhões, alta de 53%.

Embalador Elói Januário da Silva, de 92 anos, recebe os clientes com simpatia e um sorriso no rosto na unidade de supermercados Verdemar do Diamond Mall, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Elói é a face mais visível de uma transformação registrada no Brasil nos últimos anos: uma em cada quatro pessoas dessa faixa etária está trabalhando (taxa de ocupação de 25%), o maior percentual registrado entre 2016 e 2025. É o que mostra o levantamento feito pela Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados com base na PNAD Contínua do IBGE.
Em dez anos, o número de idosos inseridos no mercado de trabalho no Brasil subiu de 5,7 milhões para 8,7 milhões, alta de 53%. A velocidade desse crescimento supera a do próprio envelhecimento da população, já que o contingente total de brasileiros nessa faixa etária aumentou 37% durante o mesmo período. Além do trabalho formal e informal, não faltam exemplos de idosos que optam por empreender.
No caso da rede Verdemar, 400 funcionários têm mais de 60 anos, ajudando a compor um quadro que aposta na diversidade de idades. A contratação desses idosos faz parte do programa "Talentos da Maturidade", que atualmente engloba 1.180 colaboradores com 50 anos ou mais no quadro das 17 unidades da rede.

O valor da atividade da terceira idade
Para Elói, que trabalha desde os 12 anos de idade, a oportunidade de continuar ativo representa vitalidade, propósito e saúde. "Trabalho desde os 12 anos e gosto de estar em atividade. Estava preocupado por não conseguir mais emprego, mas tive a sorte de um amigo me indicar para o Verdemar", recorda.
A rotina de trabalho trouxe benefícios que vão além do sustento financeiro, tocando na autoestima e na convivência social. "O trabalho me ajuda de todas as formas. Eu gosto de gente, de conversar, de me comunicar. Isso me faz muito bem, melhorou até minha saúde. Estou mais feliz, até engordei!", brinca ele. O impacto de sua dedicação também inspira quem está de fora: o embalador conta que um cliente, ao vê-lo em atividade, sentiu-se motivado e animado a retornar ao mercado de trabalho.
Para a nova geração, o conselho do senhor Elói é simples e carrega a sabedoria de quem já viveu quase um século: "Persista trabalhando, porque não tem nada melhor do que a gente amanhecer o dia e ter alguma coisa para fazer. Não tem nada pior no mundo do que você amanhecer o dia e não fazer nada. E é muito importante para a saúde e para a vida das pessoas".
Inclusão na prática e resultados de negócio
Lançado em 2019, o projeto Talentos da Maturidade foi concebido para que a inclusão deixasse de ser apenas um discurso institucional e passasse a guiar as decisões diárias e a gestão de pessoas do Verdemar. Segundo Leandro Pinho, superintendente de RH da rede, a decisão de abrir as portas para o público sênior exigiu uma quebra ativa de preconceitos de mercado e uma profunda preparação interna.
"Olhamos primeiro para o potencial. E isso exigiu preparação. Adaptamos processos seletivos, capacitamos nossas equipes, envolvemos medicina e segurança do trabalho, treinamento e desenvolvimento e preparamos nossas lideranças para receber esses profissionais", explica Pinho. Ele ressalta que o programa não se trata de filantropia ou assistencialismo, mas sim de emancipação pelo trabalho e geração real de valor para o negócio.
E os resultados práticos justificam a aposta. De acordo com o superintendente, os idosos, frequentemente, superam as expectativas iniciais da empresa. Eles trazem para a operação varejista características cruciais, como comprometimento, responsabilidade, resiliência, facilidade na tomada de decisões e um relacionamento extremamente forte e qualificado no atendimento ao cliente, amplamente elogiado pelo próprio público da rede.
Acima da média
Além do retorno positivo no atendimento, a permanência desses colaboradores chama a atenção em um setor tradicionalmente marcado pela alta rotatividade. Enquanto a média de permanência dos demais colaboradores na rede é de 3 anos e 2 meses, os profissionais do programa Talentos da Maturidade permanecem, em média, 4 anos e 9 meses. Entre os colaboradores acima de 70 anos, essa média sobe para expressivos 6 anos, garantindo estabilidade e solidez operacional para a empresa.
A convivência diária também estimula uma rica troca intergeracional no ambiente de trabalho. Ao colocar profissionais experientes e jovens para trabalharem juntos, a empresa fomenta um aprendizado mútuo: os mais experientes compartilham paciência, escuta e habilidades de lidar com o público, enquanto os mais novos introduzem novas linguagens, tecnologias e formas de trabalhar.
Pinho acredita que a contratação de pessoas mais velhas tende a ganhar espaço à medida que a população envelhece. Para ele, as empresas precisarão se adaptar a equipes compostas por diferentes gerações. "Portanto, as empresas que quiserem continuar crescendo precisarão aprender a trabalhar com diferentes gerações e compreender que talento não tem prazo de validade."
Empreendedorismo 60+
O Brasil caminha para ser o quinto país com a maior população de pessoas com 60 anos ou mais até 2030. E esse número também se reflete no empreendedorismo: 4,3 milhões de brasileiros nessa faixa etária têm negócios próprios. Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) revelam que 63% dos idosos entre 65 e 74 anos empreendem por oportunidade, e não por necessidade. No entanto, ter o próprio negócio pode ser a única opção para muitos. É o caso da cozinheira Marta Vieira, 70 anos.
No coração do Centro de Belo Horizonte, entre o fluxo frenético de trabalhadores e pedestres na Praça Sete, a ‘Rainha do Marmitex’, como é conhecida, tornou-se um símbolo de resistência, generosidade e empreendedorismo social. Há uma década, ela vende marmitas a preço popular (R$ 10).
Nascida na pequena cidade de Córrego Novo, no Vale do Rio Doce, Marta teve a primeira filha aos 14 anos e o segundo filho aos 15, após um ‘casamento de contrato’. Aos 16 anos, veio para Belo Horizonte com as duas crianças e passou a morar nas ruas, incluindo a Praça Sete. Nesse período, foi catadora de recicláveis e chegou a pegar lavagem (resto de comida jogada no lixo) para se alimentar.
Marta conseguiu moradia fixa no Aglomerado da Serra aos 19 anos. Teve ainda mais três filhos. A vivência nas ruas faz com que ela não consiga ignorar o sofrimento alheio. Mesmo quando a situação financeira aperta ou quando a saúde cobra o preço — ela enfrenta dores físicas —, o compromisso com o próximo a mantém de pé. "Quando eu vejo a pessoa mexendo no lixo ali, caçando coisas para comer, me dá tristeza aqui dentro do meu coração, porque eu passei por tudo isso, né? A regra é sempre ajudar o outro", reforça.
Em outro ponto da capital, no bairro Jaraguá, na Região da Pampulha, o açougueiro Antônio Menezes, 86 anos, conhecido como Toninho, é a personificação da persistência que mantém vivo o comércio.
Antônio contou à Itatiaia que fundou a Casa de Carnes Jaraguá em 1973. Atualmente, Alessandra Márcia Menezes, 54 anos, caçula dos 11 filhos de Toninho, está à frente do negócio, mas ele faz questão de dizer que continua trabalhando "de domingo a domingo".
"O segredo para manter um negócio por tanto tempo é a persistência. E Deus tem me ajudado muito para poder continuar a luta", afirma o veterano comerciante, que se emocionou ao contar que precisa da renda do açougue, uma vez que a aposentadoria é insuficiente para arcar com os R$ 4 mil do plano de saúde dele e da esposa.
A arte com as mãos que gera renda

Vitoriano Veloso, distrito de Prados chamado de Bichinho, é um celeiro do empreendedorismo de artesanato sustentável. Nesse bucólico lugarejo, no Campo das Vertentes, pedras são transformadas em esculturas, pedaços de madeira em móveis e retalhos de pano em roupas de cama, mesa e banho. A costureira Carmem Maria Teixeira de Paula, 70 anos, pode ser considerada a primeira empreendedora do distrito, cercado pela beleza da Serra de São José.
"O maior desafio hoje é a mão de obra. Mas na nossa parte aqui do Fuxico, tem mães que, às vezes, não podem vir para o emprego, mas podem fazer de casa. Por exemplo, a mãe tem uma criança pequena, não pode sair. Então, a gente corta mil fuxicos para uma, mil fuxicos para a outra, e aí elas podem fazer de casa. A menina que faz o crochê também não precisa estar na firma. A gente deve ter umas 50 ou 60 pessoas, incluindo todo mundo terceirizado. Isso ajuda muita mãe de família, graças a Deus", disse Carmem ao receber a reportagem da Itatiaia com café coado na hora, pão de queijo e mingau de couve capaz de revigorar qualquer um.
Os primeiros passos de Carmem no artesanato foram marcados por desafios geográficos e econômicos, em 1981. Sem transporte regular no vilarejo, a matéria-prima vinha de São João del-Rei após longas caminhadas. "A gente tinha que ir a pé para Tiradentes até pegar o ônibus para ir para São João para comprar o material. Depois, trazer até o Bichinho na cabeça, a pé", recordou a artesã.
Naquela época, o comércio como conhecemos hoje não existia; as transações eram baseadas na subsistência e na solidariedade entre vizinhos. "Antigamente ninguém podia comprar nada de ninguém, ninguém tinha dinheiro para nada. A gente trocava os bordados por outros serviços e até por galinha", disse.
Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está como editor de Cidades, Brasil e Mundo.
Jornalista formada pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e graduanda em Letras pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG). Foi editora do Jornal da Itatiaia e, atualmente, integra a equipe do portal da Itatiaia como chefe de reportagem.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o Tá Sabendo no Instagram da Itatiaia.





