Mais que uma vitória: o Cruzeiro que ensaia a retomada

O Cruzeiro entrou em campo ontem, contra o Vitória, com uma missão clara: vencer. Não havia mais margem para discurso ou paciência. Sob novo comando, agora com Arthur Jorge à beira do campo, o time correspondeu à necessidade e conquistou, enfim, a primeira vitória no Brasileirão. O Cruzeiro entregou exatamente o que o momento exigia: resultado, comprometimento e, principalmente, sinais de mudança.
A imposição sobre o adversário foi, sem dúvidas, um dos pontos que mais chamou a atenção. Jogando em casa, ao lado do torcedor, o Cruzeiro controlou o jogo, sufocou o Vitória e construiu o placar de forma avassaladora, nocauteando o time baiano sem dar brechas para reação.
E isso não é detalhe. É comportamento. É postura. Algo que vinha faltando.
Apesar do pouco tempo de trabalho, Arthur Jorge já conseguiu imprimir características visíveis. Ainda em sua coletiva de apresentação, o português garantiu que mudaria a forma de jogar da equipe — e isso, de fato, começou a se materializar. Vimos um Cruzeiro mais ágil e objetivo com a bola nos pés, com boas trocas de passes, além de uma postura mais intensa na marcação e nas roubadas de bola
Na escalação o treinador também deixou sua marca. A inversão de Christian foi decisiva: jogando esquerda o camisa 88 encontrou espaços, explorou diagonais e foi premiado com um golaço. Já a aposta em Kauan Moraes, improvisado, diz muito sobre coragem — e foi recompensada. O jovem não apenas sustentou bem defensivamente, como também teve personalidade para arriscar e marcar um belo gol.
Há, ainda, um ponto que considero simbólico: a liberdade. O Cruzeiro finalizou mais, arriscou mais. Não foi um time travado. A cena de Arthur Jorge incentivando Arroyo a partir para o drible, a “rabiscar”, é reveladora. Existe uma ideia ali: errar tentando, mas não se esconder do jogo.
Neste jogo, é preciso destacar também o meio-campo. O treinador manteve Matheus Henrique e Gérson como volantes, mas o desempenho foi bem superior ao dos jogos anteriores. Matheus Henrique fez cortes providenciais e contribuiu na saída de bola. Gérson, enfim, deu sinais de que pode entregar o que se espera: acertou bons passes e foi um suporte importante para o companheiro de setor. Matheus Pereira distribuiu ótimos cruzamentos, deu assistência e ditou o ritmo da equipe.
É preciso ponderar, claro, as fragilidades do adversário. O Vitória ainda não venceu fora de Salvador e é uma equipe que se desorganiza com facilidade ao longo das partidas. Mas esses erros também surgiram em função da pressão exercida pelo Cruzeiro. E isso precisa ser levado em conta.
Por isso, acredito que o resultado vai muito além dos três pontos. Foi uma amostra clara da qualidade do elenco, da capacidade do novo treinador e da margem de evolução que existe. Um primeiro ato de uma retomada que parece possível.
Ainda é cedo para qualquer empolgação desmedida. Trabalho consistente exige tempo. Para cravar uma evolução é necessário ver mais jogos. Mas é evidente que a vitória de ontem fez o Cruzeiro — e o seu torcedor — voltarem a acreditar em dias melhores.
Nathália Fiuza é comentarista da Rádio Itatiaia e escreve diariamente aqui.
