Itatiaia

Bertha Maakaroun: eleitor impõe freio e contrapeso entre Poderes

Minas voltou a ser estado pêndulo, espelhando a dinâmica eleitoral do país. Lula se beneficiou do maior comparecimento, redução de nulos e brancos, resultado de expressivo movimento político iniciado por jovens estudantes nas ruas e, nas redes, coordenado por André Janones. A frente ampla quebrou a maré dos últimos 20 meses na América Latina, quando todos os sete presidentes eleitos foram da direita

Por
Réplica da Costituição Brasileira é instalada em frente ao Congresso Nacional
Congresso Nacional • José Cruz/Agência Brasil

Minas Gerais foi novamente o estado pêndulo, que dividiu o território brasileiro entre Norte e Nordeste, onde a votação de Lula se manteve majoritária e Sul e Sudeste, que deram vitória a Flávio Bolsonaro. O presidente reeleito venceu no estado em 2022. Flávio ganhou no primeiro turno de 2026. Lula recuperou a bola neste segundo turno. Em números, entre o primeiro e o segundo turno, Lula aumentou em 1,1 milhão a sua votação em Minas. Isso representa cerca de 11,2% dos 10,4 milhões de votos que teve a mais no Brasil entre os dois turnos. Segundo maior colégio eleitoral, com 10,3% dos eleitores do país, Minas refletiu a dinâmica política que varreu o Brasil.

Tudo indica que Lula tenha se beneficiado da maior parte do aumento do comparecimento, da redução dos brancos e dos nulos. Mas esses três fatores são só uma parte da história. Juntas, as reduções da abstenção, de nulos e brancos representam apenas 4,8 milhões de votos, menos da metade da diferença de Lula entre os dois turnos. Lula também se beneficiou do maior quinhão da migração de votos da terceira via: o eleitor seguiu outro caminho, apesar do apoio declarado a Flávio Bolsonaro pelo escritor Augusto Cury (Avante), por Ronaldo Caiado (PSD) e por Romeu Zema (Novo). Para isso também pode ter contribuído Renan Santos (Missão), que não apoiou Flávio e dele, assim como do coach Pablo Marçal, seguiu crítico contundente. Em menor proporção, já que esta foi uma eleição de voto majoritariamente cristalizado e difícil de ser revertido, podem também ter ocorrido algumas conversões de eleitores independentes que, no primeiro turno, optaram por Flávio.

Foi uma expressiva vitória política de Lula, presidente reeleito para o quarto mandato, que quebra a maré dos últimos 20 meses da América Latina, quando todos os sete presidentes eleitos foram de direita: Equador, Bolívia, Chile, Honduras, Costa Risca, Peru e Colômbia. Essa vitória resultou da mobilização nas redes, comandada por André Janones para quem convergiu, além de jovens lideranças do campo, como os deputados federais eleitos Pedro Rousseff (PT) e Ana Elisa (PT), uma base lulista ansiosa por alterar os rumos da eleição presidencial.

O movimento em defesa da candidatura de Lula – e de resistência a Flávio Bolsonaro - também ganhou as ruas, em princípio, pela mobilização de jovens estudantes. Espalhou-se pelo país numa frente ampla. Além de movimentos sociais, juntaram-se artistas, representações da sociedade, sobretudo eleitores que se mostraram desconfortáveis com a excessiva concentração de poder que representaria a vitória de Flávio Bolsonaro. Flávio já havia alcançado a maioria do Congresso Nacional e expressiva maioria de governadores reeleitos e eleitos no primeiro turno. Se tivesse vencido a eleição presidencial, teria também, ao longo dos quatro anos, maioria do Supremo Tribunal Federal (STF).

O eleitor brasileiro impôs freios e contrapesos. Jovens, idosos, minorias étnicas foram às urnas, alguns depois de cruzar milhares de quilômetros. Lula precisará agora corrigir rumos de seu governo para estabelecer maior conexão com a sociedade. Ao mesmo tempo, precisará de governabilidade num Congresso mais hostil e à direita. Também terá de debater uma reforma do Judiciário, como sinalizou na campanha, reclamada pela população, o que possivelmente, explica em parte a vitória do campo bolsonarista no primeiro turno. Lula também, fará bem em seguir, agora, o comportamento do governador eleito de Minas, Cleitinho (Republicanos), que depois da vitória em primeiro turno, acenou para a pacificação do estado. Muito desse movimento, dependerá também de quem perdeu o pleito aceitar as regras do jogo democrático e se preparar para 2030. Lá, possivelmente, será Tarcísio de Freitas quem ganhará protagonismo político no campo da direita brasileira.

 

 

Belo Horizonte