A 'era de ouro' e os direitos das mulheres
O Brasil figura como o 5º país que mais mata mulheres no mundo, de acordo com estatísticas globais

Na semana passada, o mundo noticiou a posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. O seu retorno para o segundo mandato à frente da Casa Branca é marcado pela promessa da “era de ouro” do país, pela construção de uma nação “orgulhosa, próspera e livre”. Dentre os seus primeiros atos, está o encerramento da “política do governo de tentar introduzir raça e gênero em todos os aspectos da vida privada americana”, por meio de uma sociedade baseada na meritocracia.
E por que isso é problema no Brasil? Como uma faz maiores potências mundiais, os Estados Unidos como potência mundial, com grande influência política, cultural e econômica ao redor do mundo, dentre eles, o Brasil. O contexto brasileiro se agrava enquanto enfrentamos um país dividido politicamente, em momento no qual uma das nossas principais lideranças políticas tem um histórico de falas misóginas e sexistas relacionadas aos direitos das mulheres.
Precisamos lembrar que vincular a agenda política ao direito das mulheres é um retrocesso e que a violência de gênero vai além da agressão física. E que não podemos normalizar uma cultura que, muitas vezes, legitima a violência e a exclusão.
Apesar de, nos últimos anos, termos tido avanços significativos em termos de políticas públicas para mulheres, como a Lei Maria da Penha - reconhecida como uma das legislações mais abrangentes no enfrentamento à violência doméstica, o endurecimento da Lei do Feminicídio, e a criação de delegacias de Defesa da Mulher, promotorias e câmaras especializadas, tais medidas convivem com desafios estruturais e culturais, como reações conservadoras e a persistente estereotipação da figura feminina. Esses fatores não apenas dificultam o acesso das mulheres a direitos plenos, mas também ameaçam os avanços conquistados.
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Dessa forma, ações que legitimam a discriminação e a exclusão em um país influente como os Estados Unidos abrem precedentes perigosos para retrocessos em outras nações. Ao deslegitimar pautas relacionadas à igualdade de gênero e diversidade, essas medidas podem fortalecer discursos conservadores em territórios onde os direitos das mulheres e de populações marginalizadas já são constantemente ameaçados.
Simone de Beauvoir, uma importante ativista feminista, já alertava: “Nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida”. É essencial, portanto, que a sociedade e as organizações brasileiras permaneçam vigilantes e engajadas na defesa das políticas de gênero e na promoção de uma cultura de igualdade.
Nesse contexto, a frase de Beauvoir ressoa como um lembrete atemporal e crucial. Os direitos conquistados pelas mulheres, frutos de décadas de luta e resistência, podem ser rapidamente colocados em risco diante de mudanças políticas e culturais. A vigilância constante mencionada por Beauvoir não é apenas uma medida de proteção, mas uma estratégia essencial para impedir retrocessos e consolidar avanços.
Cabe à sociedade brasileira, especialmente em momentos de influência externa que podem reforçar discursos conservadores, reafirmar seu compromisso com a igualdade de gênero e com a defesa dos direitos humanos. Somente assim será possível garantir que as crises não sirvam como justificativas para subtrair conquistas, mas sim como oportunidades para fortalecer uma sociedade mais justa e igualitária.


