Eleições 2026 e o teste de fogo para os institutos de pesquisa
Após as divergências de 2018, a rota foi corrigida em 2022 e este é o ano da validação

As eleições de 2026 serão um grande teste de fogo para os institutos de pesquisa. Após muitos deles terem subestimado o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em 2018, quando ele venceu as eleições. Em, 2022 os institutos corrigiram a rota.
Acertaram o vencedor no segundo turno e, em alguns casos, chegaram muito perto da diferença final. No segundo turno, realizado em 30 de outubro, Lula terminou com 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro. Na véspera, Datafolha e Quaest projetavam 52% a 48% para Lula, ambos dentro da margem de erro de 2 pontos. O CNT/MDA apontava 51,1% a 48,9%, praticamente reproduzindo o resultado
Em 2026, o foco será na validação. Ao que tudo indica, os institutos têm acertado. Os trackings, ou seja, as pesquisas diárias e internas dos principais candidatos, têm convergido com os resultados dos grandes levantamentos. E é a partir destes dados que os postulantes direcionam suas estratégias de campanha.
2018
Em 2018, o principal problema foi a subestimação do desempenho do vencedor das eleições, especialmente na reta final do primeiro turno. Na véspera da votação, o Ibope apontava Bolsonaro com 36% das intenções de voto, enquanto o resultado das urnas foi de 46% dos votos válidos. Em alguns estados, o movimento foi ainda mais acentuado: a chamada onda bolsonarista dos últimos dias impulsionou candidaturas que apareciam atrás nas pesquisas, como Wilson Witzel, no Rio de Janeiro, e Romeu Zema, em Minas Gerais. O episódio mostrou a dificuldade de capturar mudanças rápidas de comportamento e, sobretudo, de identificar a mobilização de determinados segmentos do eleitorado na reta final.
2022
A partir dessas divergências, os institutos passaram a revisar amostras, pesos e critérios de estratificação do eleitorado. Em 2022, uma das principais discussões foi justamente o perfil socioeconômico da amostra: institutos adotavam pesos diferentes para renda, escolaridade, idade e região, em parte porque o Censo de 2010 estava defasado. Alguns passaram a utilizar referências mais recentes, como dados da Pnad/IBGE, e outros reforçaram o uso de informações atualizadas do eleitorado do TSE. Também ganhou força a análise do chamado “voto útil” e da possibilidade de migração de eleitores na reta final, além da tentativa de incorporar, na leitura dos resultados, o impacto da abstenção.
2026
Em 2026, além do aperfeiçoamento metodológico dos institutos, houve também um movimento de maior fiscalização da Justiça Eleitoral. A Resolução 23.747, aprovada pelo TSE em fevereiro, reforçou exigências relacionadas à transparência, à documentação auditável e à responsabilidade do estatístico responsável pelo levantamento. Em setembro, o TSE também atualizou o sistema PesqEle para detalhar a forma de apresentação das informações sobre a execução das pesquisas. A partir deste ano, portanto, não está em jogo apenas a precisão dos números, mas também a capacidade dos institutos de demonstrar, de maneira cada vez mais detalhada, como chegaram a eles.
E o resultado das urnas deste domingo, a depender da divergência dos levantamentos, pode alimentar uma nova discussão sobre as regras. A própria mudança no sistema de registro implementada em 2026 já provocou críticas de institutos, que defenderam que alterações dessa natureza sejam discutidas com antecedência e aplicadas em ciclos eleitorais futuros. O desafio será encontrar um equilíbrio: aumentar a transparência e a possibilidade de fiscalização sem transformar as regras em uma barreira burocrática capaz de reduzir a diversidade de pesquisas ou dificultar a divulgação de informações relevantes ao eleitor.
Edilene Lopes é jornalista, repórter e colunista na Itatiaia e analista de política na CNN Brasil. Na rádio, idealizou e conduziu o Podcast 'Abrindo o Jogo', que entrevistou os principais nomes da política brasileira. Está entre os jornalistas que mais fizeram entrevistas exclusivas com presidentes da República nos últimos 10 anos, incluindo repetidas vezes Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro. Mestre em ciência política pela UFMG, e diplomada em jornalismo digital pelo Centro Tecnológico de Monterrey (México), está na Itatiaia desde 2006, onde também foi também apresentadora. Como repórter, registra no currículo grandes coberturas nacionais e internacionais, incluindo eventos de política, economia e territórios de guerra. Premiada, em 2016 foi eleita, pelo Troféu Mulher Imprensa, a melhor repórter de rádio do Brasil. Em 2025, venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados na categoria Rádio e Texto.



