Itatiaia

Cancelamento de debate mostra inversão do papel do judiciário

Poder que passou de garantidor da constituição à provocador do caos

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Edifício-sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
Edifício-sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) • MArcello Casal Jr/Agência Bras

O papel original do judiciário, em um arranjo constitucional de três poderes como o nosso, é garantir a democracia e o cumprimento das regras e não criar um estado de exceção como tem acontecido.

O que ocorreu, nesta quinta-feira (2), com o tradicional debate da TV Globo, que foi cancelado com alguns dos presidenciáveis já no estúdio, é o suprassumo da atuação antidemocrática que judiciário, por vezes, tem assumido e, infelizmente, por provocação do próprio poder político e de muitos que têm defendido no discurso eleitoral a reforma no judiciário.

Aliás, a sociedade de forma geral, em uma incapacidade generalizada de resolver até problemas simples, tem como prática recorrer à Justiça. A realização do tradicional debate dos presidenciáveis na Globo foi impedida por algo que tem virado rotina no Brasil: insegurança jurídica por contaminação política do judiciário.

As decisões

Uma das decisões mais chamativas foi da ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que garantiu a retirada do púlpito vazio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do debate. A magistrada que foi nomeada por Lula, segundo levantamento que está no site da Itatiaia, antes de ser ministra fez doações de campanha para o PT e PSOL.

Não bastasse o presidente não comparecer, a campanha também quis evitar que a ideia de um candidato fujão fosse reforçada. O que o partido não contava era que a estratégia poderia virar um tiro no pé, pois foi recuperado um vídeo - de quando a magistrada não estava na corte - em que ela pedia voto para Lula, descuidando de outro valor pétreo do judiciário: a imparcialidade. Quando um juiz declara voto - mesmo que antes do exercício funcional - ou quando um juiz ocupa cargo político depois de deixar a toga - ele assina o recibo de uma conta cara,

A segunda decisão controversa foi de Nunes Marques, do TSE, indicado por Jair Bolsonaro (PL), de incluir Romeu Zema (Novo), mesmo o partido dele não tendo garantido nas eleições de 2022 a representação partidária exigida como regra para participação no debate. A interpretação do ministro foi que em 2022 o partido tinha três deputados, mas por filiação posterior atingiu a marca de cinco.

E o terceiro foi Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF) , que garantiu a inclusão de Renan Santos, do Missão, cujo partido também não tem representação, inclusive porque foi criado este ano.

Discurso x prática

Políticos que reclamam o tempo todo que a justiça virou um super poder no Brasil recorrem quase que diariamente ao poder judiciário e, muitas vezes, o objetivo é descumprir regras vigentes. Nesse contexto, o STF que deveria ter a condição sine qua non e obrigatória de garantir o cumprimento da constituição tem feito um papel inédito de provocar o caos jurídico.

Resultado

O resultado é que nessa disputa pelo debate da Globo ganharam os candidatos que não quiseram comparecer e nem serem expostos, ganhou o judiciário que atuou para flexibilizar regras ao invés de garantir que elas fossem cumpirdas e o perdeu o povo que mais uma vez não teve a oportunidade de ver o confrontos dos candidatos que tem coragem para concorrer, mas tem medo de se enfrentarem publicamente.

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Edilene Lopes é jornalista, repórter e colunista na Itatiaia e analista de política na CNN Brasil. Na rádio, idealizou e conduziu o Podcast 'Abrindo o Jogo', que entrevistou os principais nomes da política brasileira. Está entre os jornalistas que mais fizeram entrevistas exclusivas com presidentes da República nos últimos 10 anos, incluindo repetidas vezes Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro. Mestre em ciência política pela UFMG, e diplomada em jornalismo digital pelo Centro Tecnológico de Monterrey (México), está na Itatiaia desde 2006, onde também foi também apresentadora. Como repórter, registra no currículo grandes coberturas nacionais e internacionais, incluindo eventos de política, economia e territórios de guerra. Premiada, em 2016 foi eleita, pelo Troféu Mulher Imprensa, a melhor repórter de rádio do Brasil. Em 2025, venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados na categoria Rádio e Texto.

 

 

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