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Autoridades brasileiras sugerem intenção dos EUA em gerar ‘climão’ e questionar eleições

Sem citar nomes, Edson Fachin, presidente do STF, manda recado a Trump

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Eleição no Brasil • Rovena Rosa/Agência Brasil

O pedido de eleições livres e o fechamento da embaixada dos Estados Unidos em Brasília durante o processo eleitoral constroem um clima para um possível posicionamento do governo americano após o resultado das urnas no Brasil, avaliam, sob reserva, autoridades brasileiras. Mesmo que não ocorra um questionamento sobre o processo ou o desfecho do pleito, as ações encadeadas da gestão de Donald Trump geram, durante a eleição, um ambiente que sugere insegurança no processo eleitoral brasileiro.

A postura americana está sendo vista como uma afronta por integrantes da base do governo e do Supremo Tribunal Federal. As ações soam como se Trump estivesse dizendo “estamos de olho”. No entanto, embora a segurança das urnas tenha sido questionada por aliados e pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, o processo eleitoral brasileiro é tido por organismos internacionais como o International IDEA - Instituto Internacional para a Democracia e a Assistência Eleitoral como um dos mais seguros do mundo.

Neste domingo, ao votar em Brasília, o ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), deu um recado, sem citar nomes. “Eleições periódicas, íntegras, seguras, transparentes e auditáveis são o motor da democracia. Elas consistem em uma fonte de legitimidade e, portanto, o dia de hoje é o dia do exercício da soberania popular para que essa legitimidade aos representantes que serão eleitos pelo voto seja coroada pela manifestação do povo brasileiro”, afirmou.

“Por isso, está de parabéns a Justiça Eleitoral brasileira, está de parabéns a sociedade brasileira por esse exercício de cidadania. E o dia de hoje é também o exercício de escolha de liberdade na democracia em direção ao futuro que todas as pessoas do Brasil almejam para o seu país”, completou o ministro.
Sem interferência

Na sequência, fez uma defesa da capacidade do próprio país de solucionar seus problemas: “Uma aposta de que nós somos capazes de resolver nossos problemas, superar os obstáculos e encontrar soluções importantes para temas relevantes na área da saúde, da educação, da infraestrutura, da segurança pública.”
’Eleições livres e justas”

A declaração ganhou peso político porque ocorreu em meio a uma sequência de iniciativas do governo Trump relacionadas ao processo eleitoral brasileiro. Durante as negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, os americanos chegaram a apresentar exigências relacionadas às eleições de 2026. Entre elas estavam compromissos para que o Brasil realizasse eleições consideradas “livres e justas” e para que não houvesse prisão ou restrição arbitrária à participação de pessoas classificadas no documento como “dissidentes políticos”. O governo brasileiro considerou as exigências uma ingerência em assuntos internos e não as aceitou.

Encontro

A questão eleitoral também apareceu em outra frente da relação entre os dois países. Uma missão de funcionários do Departamento de Estado americano que pretendia viajar ao Brasil tinha, entre seus encontros previstos, uma reunião com Flávio Bolsonaro, candidato do Partido Liberal à Presidência da República. A tentativa de aproximação ocorreu em um momento em que Donald Trump já havia manifestado publicamente apoio ao candidato brasileiro. A combinação desses fatos passou a alimentar, no meio político brasileiro, a interpretação de que o governo americano poderia ter interesse em acompanhar de perto — e eventualmente influenciar o ambiente político — em torno da candidatura de Flávio.

Embaixada

Às vésperas da votação, outro episódio acrescentou tensão à relação. Os Estados Unidos suspenderam temporariamente os serviços presenciais de sua Embaixada em Brasília e dos consulados no país, alegando preocupações de segurança. A medida alcançou as representações diplomáticas americanas em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre. A justificativa oficial foi a existência de informações de segurança que recomendavam a adoção de precauções.

O fechamento das representações americanas, porém, ocorreu em um momento particularmente sensível: dois dias antes da votação. A decisão foi tomada depois de operações da Polícia Federal relacionadas a informações sobre possíveis ameaças. Até o momento, não há comprovação pública de que tenha existido um plano concreto de ataque às instalações americanas.

Soberania

Nesse ambiente, a fala de Fachin ganha uma dimensão que ultrapassa a defesa protocolar do processo eleitoral. Ao afirmar que as eleições são “o motor da democracia” e que o voto depositado na urna merece “integral respeito”, o presidente do STF enfatizou que a legitimidade do resultado nasce da manifestação do eleitor brasileiro. Ao final, reforçou o papel da Justiça Eleitoral e usou a palavra “soberania”, amplamente utilizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para reagir aos posicionamentos do governo americano, como o tarifaço. “E tudo isso contando com o Poder Judiciário, nomeadamente hoje a Justiça Eleitoral, que está à disposição para o exercício dessa soberania popular”, afirmou Fachin.

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Edilene Lopes é jornalista, repórter e colunista na Itatiaia e analista de política na CNN Brasil. Na rádio, idealizou e conduziu o Podcast 'Abrindo o Jogo', que entrevistou os principais nomes da política brasileira. Está entre os jornalistas que mais fizeram entrevistas exclusivas com presidentes da República nos últimos 10 anos, incluindo repetidas vezes Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro. Mestre em ciência política pela UFMG, e diplomada em jornalismo digital pelo Centro Tecnológico de Monterrey (México), está na Itatiaia desde 2006, onde também foi também apresentadora. Como repórter, registra no currículo grandes coberturas nacionais e internacionais, incluindo eventos de política, economia e territórios de guerra. Premiada, em 2016 foi eleita, pelo Troféu Mulher Imprensa, a melhor repórter de rádio do Brasil. Em 2025, venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados na categoria Rádio e Texto.

 

 

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