O ocaso de Romeu Zema e de sua política de comunicação
Em post com palavrões e xingamentos a um eleitor que não escolheu Romeu Zema, o ex-secretário de estado de Comunicação, Bernardo Santos naturaliza o capacitismo e a discriminação étnica

O ex-governador Romeu Zema (Novo) está próximo a encerrar de forma melancólica o seu primeiro ciclo de poder – dois mandatos à frente do governo de Minas e uma candidatura à Presidência da República. Com 1% da intenção de voto no plano nacional – e cerca de 2% em seu próprio estado, Minas Gerais - Zema não conseguiu firmar identidade que o alavanque e, menos ainda, que ajude o Novo a impulsionar uma pretensa bancada de deputados federais em 4 de outubro.
Tão pífio resultado não ajuda em Minas o seu sucessor, o governador Mateus Simões (PSD), que a seis dias da eleição em primeiro turno ainda não consegue projetar a sua presença em eventual segundo turno na disputa ao Palácio Tiradentes. Zema, que em 3 de agosto se mudou para São Paulo, participou de poucos atos de campanha em Minas com Mateus. No plano nacional Zema se vê cristianizado, com candidaturas do Novo em vários estados declarando apoio a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nesta reta final do primeiro turno. Em Minas, não é por falta de desejo que Mateus Simões não segue o mesmo caminho. Mateus Simões é dado a lealdades: gostaria de apoiar Flávio Bolsonaro em primeiro turno, mas não teve igual autorização de Romeu Zema, concedida a candidatos do Novo em outros estados.
Zema não chega, ao final de 2026 nesta situação por acaso. Cometeu vários erros, entre os quais, deixou que as suas ideologias e crenças atropelassem os interesses do estado, protagonizando nas redes e na política um embate irracional com o governo federal. Misturou oposição política, necessária nas democracias, com provocações, ataques e ofensas pessoais dirigidas ao presidente da República. No plano interno do governo, terceirizou a condução política. Entregou a “política” de porteiras fechadas ao ex-secretário de estado, Marcelo Aro (PP), - candidato ao Senado Federal - que segundo denúncias publicizadas pelo governador Mateus Simões, usou mais de R$ 2 bilhões em verbas discricionárias para promover acordos políticos com as prefeituras em troca de apoio à sua candidatura. Nessas conversas, dizem prefeitos interlocutores, Aro cuidava de si: não era mencionado pedido de apoio a Mateus Simões. Aro nega. Os prefeitos com quem conversou, confirmam. Depois de alinhavar a sua rede de apoios políticos com uso da estrutura do governo, Aro rompeu com Mateus Simões. Simões se sentiu traído. Ainda conseguiu se rearticular atraindo a Federação União Progressista para a sua coligação. Aro foi lançado em candidatura independente ao Senado. Foi chamado por Romeu Zema de “ave de rapina”.
Se na política Zema fez escolhas que o motivaram, ao final, a proferir xingos, sob a perspectiva da comunicação, cometeu erro não menos grave. Para ganhar impulsionamento nas redes, buscou uma linha não propositiva, mas antes, baseada na “lacração”, com temas que promovam “indignação” e “raiva”. Chegou a comer banana com casca em fevereiro de 2025, assim acreditando ironizar a alta no preço dos alimentos e criticar o governo federal. O governo Zema também ficou marcado por um relacionamento tenso com a imprensa, nem sempre dando retorno às demandas por posicionamento e informação, e, com alguma frequência, adotando abordagens intimidatórias às críticas de jornalistas independentes.
Responsável pela comunicação do governo e um estilo agressivo e provocador, o engenheiro e ex-secretário de estado da Comunicação, Bernardo Santos, que foi coordenador das duas campanhas de Zema ao governo de Minas, acaba de levantar mais uma polêmica nas redes, que ilustra e talvez explique o estilo adotado pelo governo Zema. Num vídeo de 30 segundos, Bernardo Santos utilizou doze palavras e expressões de baixo calão – entre as quais, “tem de se f...” , “p...q...p...” - para insultar uma pessoa que lhe enviou uma mensagem para dizer que não votará em Zema para a Presidência da República porque o considera um "capiau". No post, disponível em sua página do Instagram, Bernardo Santos afirma responder a esse interlocutor, a quem primeiro chamou de “animal”, depois de “mongol”, gentílico correto para se referir a quem nasce ou vive na Mongólia, mas, que em sua narrativa, assumiu a forma ofensiva, adotada no século XIX para se referir a pessoas com Síndrome de Down. Com tal declaração, Bernardo Santos normaliza o capacitismo, estigmatizando uma condição genética. Ao mesmo tempo, a declaração é xenofóbica: transforma uma identidade nacional ou étnica em sinônimo de depreciação.
De olho numa retórica que busca uma pretensa contraposição identitária entre “interior x capital”, Bernardo Santos tenta enquadrar a rejeição a Romeu Zema não como uma escolha política legítima do eleitor, mas como preconceito geográfico e cultural. Bernardo Santos trata o eleitor que lhe escreveu como um alienado, descolado da realidade econômica e, na sequência, expande a crítica a todos os moradores de capital ou cidades grandes, identificados por Bernardo Santos como “arrogantes”, “que se acham”. Depois de uma manifestação carregada de agressividade, xingamentos, palavrões e ódio e ataques ao povo que vive nas grandes cidades, Bernardo Santos dirige-se ao interior e pede votos a Romeu Zema. Será que agora vai?
Assim como não seria de se esperar que um profissional da comunicação calcule e coordene a execução de obras, talvez não se deva cobrar desempenho de um engenheiro que traça estratégias de comunicação daquele que foi governador do segundo maior colégio eleitoral e segunda maior economia do país. Ainda que políticas de comunicação mal conduzidas possam enterrar um governo, ao final de tudo, a culpa pelo estrago não é de quem executa a demolição, mas de quem entregou a marreta.
Jornalista, doutora em Ciência Política e pesquisadora


