Golpe do 0800: criminosos atacam idosos e se exibem online
Fraudes eletrônicas garantiam viagens e vida cara a integrantes de grupo

Em quatro anos, uma movimentação de cerca de R$ 3,8 bilhões. Breno Nunes Maselli, Felipe Barros de Carvalho Filho, Thays Vilela Coutrim e Luana Boaventura dos Santos Almeida, assim como um participante foragido, são acusados de cometer fraudes eletrônicas em todo o território nacional e foram detidos em uma operação da Polícia Civil do Distrito Federal.
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Durante a investigação, os agentes encontraram fotos e vídeos que comprovam viagens para Inglaterra, França, Israel, Argentina e Jordânia. Nas imagens, publicadas em redes sociais, eles aparecem em asseios de lancha, banhos em piscinas com borda infinita, camarotes em shows de artistas famosos e assim por diante.
A investigação, iniciada em julho de 2022 e batizada de Operação Sísifo, aponta que o grupo, composto por três homens e duas mulheres, obtinha dados pessoais e financeiros de vítimas — a maioria idosos — e telefonava para elas a partir de centrais telefônicas clandestinas. Eles se passavam por funcionários da área de segurança de uma instituição financeira.
João de Ataliba Nogueira, delegado-chefe do 38° DP de Vicente Pires, no Distrito Federal, conta que eles ligavam por meio de números 0800 para garantir credibilidade ao golpe. Com as informações financeiras delas, as induziam ao erro ao afirmar que suas contas bancárias estavam sob suspeita de fraude.
Eles solicitavam o encaminhamento de documentos pessoais com uma fotografia de rosto para a abertura de uma nova conta no nome da vítima, que deveria transferir o dinheiro que tinha para lá. Como a nova conta de fato tinha a titularidade da vítima, ela enviava todo o montante da conta bancária que acreditava ser suspeita de fraude. Só que os criminosos tinham as senhas das contas recém-abertas e, então, transferiam o dinheiro para empresas de fachada no Rio de Janeiro e na Bahia.
Nogueira diz que no caso investigado pela 38ª DP, a vítima transferiu aproximadamente R$ 180 mil. “Era um idoso de 72 anos e foi enganado pela organização criminosa", diz, em entrevista ao UOL. "Estimávamos, inicialmente, que o grupo criminoso tenha feito mais de 100 vítimas em todo território nacional. Esse número pode ser bem maior, já que muitos ainda não procuraram as delegacias de suas cidades para registrar ocorrências", explica.
Os suspeitos devem responder por fraude eletrônica, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Se forem condenados, a cada crime de estelionato contra idosos, estão sujeitos a penas que podem alcançar 10 anos de prisão. Já pelos crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa, a pena pode chegar a 13 anos de prisão.
O UOL entrou em contato com Vanessa Eymael, que defende Maselli, Carvalho Filho e Thays. A advogada nomeada por eles ainda não apresentou posicionamento. Além disso, não conseguiram contato com a defesa de Luana.
Esquema de bilhões (de reais)
Durante a operação, a polícia encontrou uma planilha com o registro das operações: o documento indica que, ao longo de quatro anos, eles podem ter movimentado R$ 3,8 bi. O documento ainda será periciado e o Instituto de Criminalística da Polícia Civil buscará, ainda, registros digitais das transações para confirmar o valor total movimentado pelos golpistas.
As empresas de fachada utilizadas pelo grupo são Simplifica Consultoria, Lua Seviços, Vilela Princess Comércio de Roupas Ltda. e LF Soluções Financeiras. A polícia bloqueou R$ 127 mil nas contas bancárias das empresas investigadas. Maselli e Luana eram os "conteiros" do grupo: eles cobravam para ceder contas bancárias para os depósitos. Maselli recebia R$ 1,2 mil por depósito e Luana cobrava entre 3% e 5% sobre cada crédito na conta.
Já Thays, Carvalho Filho e o integrante foragido eram os operadores do esquema — as redes sociais observadas pelos policiais são deles. "Pedimos que possíveis vítimas dessa operação busquem as delegacias de suas cidades para registrar queixa. Assim teremos ideia da quantidade de prejudicados, o que pode aumentar as penas dos suspeitos se eles forem culpados."
