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Davi era ruivo, de aparência, Belo

O amor é uma escolha. Só se sustenta como uma escolha. As escolhas tendem a ser tanto melhores quanto o que a gente fala e percebe vem do coração

Nas últimas semanas temos sido bombardeados pela mídia. O assunto? Desavenças no casamento. Não vou citar de quem, dada a minha ausência de recursos para pagar advogado. Brincadeira. (com fundo de verdade).

Mas sério, o objetivo aqui é tratar a questão com máximo respeito. É claro, lançando mão de provocações e de perguntas.

Ninguém tem dúvidas de como é bom amar uma pessoa. Amar no sentido carnal, mesmo. Estar apaixonado por alguém, com amor erótico, lembra o papa Bento XVI em sua Encíclica “Deus é amor”, promete-nos o céu, já que o Eros nos faz experimentar algo que obscurece, com a sua intensidade, todas as outras formas de amor.

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Do amor desconhecemos o começo, mas não o fim. A gente ama, porque ama. Lá onde forem necessárias as razões para amar, significa que o amor pediu licença e foi embora.

Amamos por aposta, por devoção, por vulnerabilidade, por um movimento inconsciente em nós. Agora, como o amor acaba? Fácil. A fórmula é a mesma. Ele morre lá onde chamamos de certeza o que é só um momento, onde a gente desconfia e compete com o outro, lá onde se amontoam os interesses particulares.

Vimos nestas semanas dois casamentos serem dilacerados por “interesses particulares”. Inclusive os nossos interesses, nessa terra de ninguém que são as redes sociais. Cada vez que a gente se põe a interferir com um comentário maldoso, ou, no mínimo leviano, sobre o relacionamento alheio estamos abrindo a rota de um “amor” em direção ao túmulo.

Olhe para si

Cada um olhe para si, medite sobre as próprias palavras do apóstolo Paulo, que sendo celibatário, define o amor do casamento como um sinal do Mistério da Cruz do Senhor (E.f. 5,25). Tá explicado então: o amor é sempre uma experiência de dor, é se a acostumar com o desconforto e com a falta que o outro traz? É um calvário? Sim, não, nem sempre.

Acontece que o amor pede uma experiência de morte para si para encontrar algo além de si. Envolve túmulo, luto, renúncia, escondimento para poder se encontrar. Como lembra Ana Suy, o amor é mais sobre o que a gente encontra do que sobre o que a gente procura.

Jesus diz: quem busca salvar, perde, quem perde, salva (MT 16, 25-26). Se num relacionamento a gente se deslumbra consigo, dos prêmios que pode conquistar, negligenciando o outro, a gente se estranha.

Se numa relação alguém foca demais em si, no culto a si, ao próprio corpo, o outro deixa de ser importante. Vai-se daí atrás de algo com mais lustro e que soe aos olhos e aos ouvidos muito melhor.

O amor é uma escolha

O amor é uma escolha. Só se sustenta como uma escolha. As escolhas tendem a ser tanto melhores quanto o que a gente fala e percebe vem do coração.

Um dos textos mais emblemáticos das Escrituras, quando o assunto é ver o coração, é a escolha do rei Davi (1 Sm 16). Samuel fica deslumbrado com os filhos mais robustos de Jessé.

O profeta ainda estava no luto por Saul, estava procurando algo para suprir vazio e falta. Em sentido diverso, Deus encontra Davi, vê-lhe, garante-lhe hesed (amor, bondade) e emet (fidelidade, verdade) (Sl 89).

Esse trecho diz (iluminando, quase que por paródia, nosso juízo sobre os presentes amores desidratado): Davi era ruivo e, de aparência, belo. Deus lhe viu o coração. Vendo-lhe, o Senhor dele se afeiçoou, ao afeiçoar-se de Deus, Davi torna-se um rei segundo o seu coração.

Bom e verdadeiro

Para ser amor, e transgredir o tempo, com afeto e com sinceridade, não basta ser “bonitinho” e “prazeroso”. Tem que ser bom e verdadeiro. Se ama, se Dá. “Vi” a essência, diz o “eu” que se abre ao belo que é permanecer.

Do amor desconhecemos o começo, mas não o fim. O amor se finda quando deixa de ser “luz, raio, estrela e luar”, “e passa a ser holofote”. O amor termina quando se negligência os músculos do coração.

O amor para de falar quando tem pouca conversa de mansinho, felicidade no simples, e sobra excesso e gritaria. Onde encontrar o amor? Uai, onde está o coração. E onde encontrar o coração? “Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração” (Mt 6, 21).


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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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