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Qual o sexo dos anjos? 

A vida se torna mais leve quando a gente escuta mais do que fala, influencia mais do que impõe, reflete mais do que afirma

Onde nascem as intrigas? É sempre muito difícil saber onde a diferença se torna uma divergência. Isso nos diversos âmbitos da vida. Leva um tempo ( e alguns nem dão conta disso) para que a gente aceite o “diferente”.

O que é diferente, novo, fora da rota, sempre assusta. A posição mais natural, seja à esquerda ou à direita, é conservar. Há sempre um desconforto quando uma ideia nova coloca em cheque nossa visão de mundo.

A gente diverge do diferente, lá onde se assusta com os “muitos que nos habitam”. Qualquer pessoa sincera consigo mesmo sabe que cada um de nós é um grande abismo. Somos um buraco ambulante de dúvidas, de temores, de incertezas. Vamos, ao longo do tempo, construindo diques, pontes, atalhos para lidar ou “driblar” o que nos falta.

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A religião é um muro de arrimo, nossos apegos são válvulas de escape, o que nos dá prazer tem sempre tem muito a ver com o que nos falta. E, sim, discutimos, não raro, quando alguém atravessa nossas crenças, nossas posses, nossos encantos.

É porque a vida é um breve instante entre duas eternidades, é porque ser humano significa dançar à beira do abismo, iludindo-se com sonhos, com paixões e com amores, que a gente crê no que crê, compra o que compra e come (nos diversos sentidos desse conceito equívoco) aquilo que come. É porque pessoas escolhem fazer tudo isso de um jeito diferente de nós que a gente se irrita, traz problemas para o compliance da empresa e faz guerra.

Em sendo cristão, e padre, devo ser um promotor da paz, mas como um modesto interprete da cultura, não posso ser cínico: o ódio ao diferente é algo mais natural em nós. E isso não é culpa  do Twitter (X) não! É culpa da criança frustrada que mora em nós! Essa aí, aqui, ressentida com o “abismo” que é a vida. Essa deslumbrada com a ideia de que tudo mundo não crê, não pensa, não compra e não se diverte do mesmo jeito.

O ódio ao diferente é mais antigo que andar para frente. Já está presente nas primeiras páginas da bíblia (Gn 3). Não havia ainda cunhada, sogra, herança. Só uma família, bela, tradicional, “divina”, e lá está o primeiro ato de ódio, o primeiro assassinato: um irmão mata o outro.

De onde nascem os assassinatos? As brigas? As divergências? Nascem da incapacidade de suportar em mim o que seu jeito me provoca. Elimino, cancelo, difamo e mato o “levemente” diferente. Aquele que, com seu jeito, seus trejeitos, sua crença, seu voto joga na minha cara um modo diferente, mas igualmente válido, de fingir que alguém além de Deus sabe exatamente como atravessar o abismo que é a vida.

Seja na Idade Média ou na Idade Mídia, em que nos encontramos, o problema está em discutir o sexo dos anjos sem se encantar com o modo com o qual eles voam. Voam porque não se levam a sério (C. S Lewis).

Estamos necessitados de mais leveza, talvez até mais cerveja. O segredo é: “discutir sem brigar, brigar sem desconfiar, desconfiar sem difamar” (The Crown). A vida se torna mais leve quando a gente escuta mais do que fala, influencia mais do que impõe, reflete mais do que afirma.

Que momentos de pausa, de oração, de confrontação com nossos próprios abismos nos ajudem a aceitar melhor as diferenças e a compor melodias com as divergências. Suspeite, sempre do que lhe faz odiar. Quem odeia o seu irmão é fratricida e está em disputa consigo mesmo. “Não queirais julgar antes do tempo” 1 Cor 4,5.


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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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