Feliz Ano Velho

Feliz Ano Novo! Já está quase na hora de repetir esse clichê.

A felicidade é subterrânea, discreta, um fruto do Espírito

Feliz Ano Novo! Já está quase na hora de repetir esse clichê, sob o efeito, não de champagne, porque é caro e sutil, mas de vodca, que é quente e desata mais rápido a língua. Não. Sério! Ironias a parte, esse clima de confraternização de fim de ano é muito bom.

Um pouco porque que a gente fica, no geral, entusiasmado, afetivo e nostálgico. Um pouco porque alforriados da rotina, todo mundo dá conta de ser gente boa “uma semana”. Se não dá, já morreu por dentro... Particularmente nós, brasileiros, arrasamos na capacidade de fazer festa.

Felicidade e paz, as gêmeas nos votos de fim de ano. As duas, ambas, no sentido estrito, são paradoxais e nunca, exatamente como a gente pensava. A felicidade é consequência, caminha lado a lado com a rotina; aliás o solicita, já que, sem “falta” e se tudo fosse sempre bom, a vida seria um tédio, e nunca saberíamos o que é um “instante feliz”. A felicidade é subterrânea, discreta, um fruto do Espírito (Gl 5,22).

A paz, também por paradoxo, não é a ausência de combate e de conflito. O nome disso seria “marasmo”. A paz é shalom, isto é, plenitude, bem-estar, fidelidade a si e a algo maior do que a si. Como lembram os latinos: si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara-te para a guerra).

Sem entender isso: que a paz é o bom combate e a felicidade verdadeira é subterrânea, um ano novo será, em breve velho. Será mais do mesmo...

Como então fazer algo de realmente novo? Bom: sendo os mesmos, mudando muito para ser sempre os mesmos. Rejuvenescendo... Uma boa dica é: comece desfrutando do Mistério do Natal, ainda em curso. Não o das mãos e lojas cheias, disfarçando, nos excessos, as vidas e os lares vazios. Apreciemos o Mistério do Deus que tomou um coração de menino. Nietzsche, em seu ateísmo, traz uma lição sobre como é importante contemplar crianças. Para o filósofo, crianças são sinais de novo começo, são um sagrado “dizer sim”...

A vida precisa de “sim”, de afirmação, de direção, de significado e de propósito. E propósito existencial não é entusiasmo, não é coisa de coaching ou de marca. Não é sobre produzir e performar, mas sobre encontrar um sentido. Propósitos de vida não são dados a qualquer um, a distraídos, mas a quem está disposto a dar tudo e mais um pouco para merecê-los.

As Escrituras dão testemunho de que a existência só tem sentido no encontro de um “Amor que vale mais do que a (própria) vida” (Sl 62,4).

Para dar certo, para não ser um “feliz ano velho”, é preciso encontrar boas guerras. A boa guerra santifica a causa, postula Zaratustra. O que faz de um ano um algo novo é a livre e consciente decisão de afirmar a vida no que ela é. Propósitos devem ser poucos. Se forem constantes e certeiros ajuda muito. Quem quiser ser obedecido terá que se dar poucas ordens...

Que 2024 não seja perfeito, mas alegre e pleno. Como lembra Drummond, serão mais doze meses, o que é tempo suficiente para qualquer ser humano chegar ao limite da exaustão, se cansar e entregar os pontos...

“Para você,

Desejo o sonho realizado

O amor esperado.

A esperança renovada

Para você,

Desejo todas as cores desta vida.

Todas as alegrias que puder sorrir.

Todas as músicas que puder emocionar.

Para você neste novo ano,

Desejo que os amigos sejam mais cúmplices,

Que sua família esteja mais unida,

Que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe

Desejar tantas coisas

Mas nada seria suficiente…

Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos

Desejos grandes e que eles possam te mover a cada

Minuto, rumo a sua felicidade!”

Ah, e haverá problemas. A vida se resume a ter problema, a dar problema. E se você está agora sem problema, provavelmente, você é, para alguém, o problema. E, considerando a melancolia dos países ricos e nórdicos, sem Brasília, sem trânsito engarrafado ou juros altos: nada pode ser mais desesperador para a vida do que se a ela estiver com falta de problemas ...

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

Ouvindo...