Quem lembra do ‘Carnabelô’? Reencontro da folia dos anos 90 promete muito axé da Bahia em BH

A programação celebra o axé music e ocorrerá no dia 31 de janeiro, no entorno do Mineirão, com shows de Reinaldinho (ex-Terra Samba)

Reencontro dos blocos do Carnabelô abre oficialmente o Carnaval de BH em 2026

O Carnaval de BH nem sempre foi como é hoje. Nos anos 1990, grandes trios elétricos, axé da Bahia e multidões de abadá tomavam a Avenida Afonso Pena, no Centro da capital, em uma folia fora de época e em um formato bem diferente do atual Carnaval de rua.

Para quem não viveu aquela época, o nome pode soar estranho: Carnabelô. Para quem viveu, é sinônimo de saudade. Agora, quase três décadas após a última folia, esse capítulo da história da folia belo-horizontina promete um reencontro, no dia 31 de janeiro, embalado pelo tema “é saudade que bate no meu coração”.

A festa foi inspirada no modelo de Salvador, que estava em alta no Brasil naquele período. Era a época de grandes micaretas, como Carnatal, Fortal e Recifolia — e, em 1994, foi a vez de Belo Horizonte.

“O axé estava em plena ascensão, o Carnaval da Bahia era uma referência nacional e os carnavais fora de época começavam a se espalhar pelo país. E o mineiro sempre esteve muito presente nisso tudo, era fácil encontrar mineiro pulando Carnaval em Salvador naquela época. Em 1993, eu e meu sócio Froilan tivemos a oportunidade de conhecer o Recifolia, em Recife, e aquilo foi transformador”, lembrou Leonardo Dias, idealizador e organizador do Carnabelô, Axé Brasil e o do Ê Saudade, que dá nome ao reencontro.

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Belo-horizontino não gosta de Carnaval?

Em junho de 1994, ocorreu a primeira edição do Carnabelô. “Foi histórico. A cidade foi tomada pela música baiana, com atrações como Netinho, Cheiro de Amor com Márcia Freire e Ricardo Chaves... A Polícia Militar (PM) chegou a estimar cerca de um milhão de pessoas”.

No segundo dia do evento, Leo conta que sobrevoou a Avenida Afonso Pena de helicóptero e relembra que, do alto, “simplesmente não dava para ver o asfalto. Era gente por todos os lados”.

A imagem ajudou a mudar a percepção de que o belo-horizontino não gostava de Carnaval. “Ali ficou claro que BH ama Carnaval”, disse, destacando que a lembrança ainda o emociona.

Carnabelô marcou gerações

A hoteleira Raquel Azevedo, de 42 anos, lembra que ia ao Carnabelô quando era adolescente. “A gente esperava o ano todo pelo Carnabelô. Vinham as principais bandas baianas, como Asa de Águia, Chiclete com Banana, Cheiro de Amor, Netinho… Enfim, só gente bacana daquela época”, contou.

Ela recorda que era como se estivesse em Salvador. “Tinha camarote e pipoca, gente de abadá, a cidade parava, era maravilhoso. Depois surgiram problemas de segurança, os artistas começaram a mudar e nem todos vinham mais. Acho que o evento foi perdendo força, mas, nos bons tempos, o Carnabelô era excepcional”, disse.

Cristina Costa, de 59 anos, conta que já gostava de Carnaval naquela época e que hoje participa do modelo dos últimos 15 anos, tocando em dois blocos.

“Normalmente, eu comprava dois abadás, do Cheiro de Amor e do Asa de Águia. Teve uma vez em que veio o Chiclete com Banana e, no meio do bloco, um amigo arrumou abadá para a gente. A gente vestiu por cima e pulou para o outro bloco”, contou. Hoje, ela toca no Asa de Banana, bloco que homenageia o grupo baiano.

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Abadás

Segundo Leo, nos anos 1990, a festa acontecia em um contexto diferente, sem investimento público, e era viabilizada principalmente pela iniciativa privada, por meio da venda de abadás, camarotes e patrocínios.

“Confesso que ainda tenho um carinho muito grande pelo abadá, que para mim sempre simbolizou pertencimento, como a camisa de um time: a identificação e o amor pelo bloco, pela música e pela história”, disse.

Ao todo, o evento teve quatro edições na Avenida Afonso Pena, além de uma em Contagem (Grande BH) e duas no Parque da Gameleira (Região Oeste de BH).

Com o crescimento da cidade e mudanças nas regras para eventos de rua, o formato foi sendo adaptado e deu lugar a festivais em espaços fechados, como o Axé Brasil, que marcou época em BH.

“Hoje, o cenário mudou. O poder público passou a investir no Carnaval de rua como política cultural, garantindo uma festa gratuita, aberta e acessível para toda a população. Isso transformou o carnaval de BH em um dos maiores e mais democráticos do país”, contou.

O reencontro do Carnabelô

Depois de quase 30 anos, organizadores decidiram por promover um reencontro Ê Saudade.

“Esse projeto nasceu de forma muito orgânica. Começou com mensagens em grupos de WhatsApp, com diretores dos antigos blocos, com foliões daquela época. Em poucos dias, centenas de pessoas estavam trocando fotos, histórias, lembranças. A saudade virou movimento”, disse Leo.

O evento está marcado para sábado (31), a partir das 13h, no entorno do Estádio do Mineirão, com concentração na avenida Abraão Caran, em frente a um posto de combustíveis.

"É importante deixar claro logo de início que o que a gente está fazendo agora não é a volta do Carnabelô como ele existia nos anos 90. O que estamos promovendo é um reencontro dos blocos que fizeram parte daquela história, dentro do formato do Carnaval de rua que Belo Horizonte vive hoje”, ressalta.

A programação reúne blocos e artistas que fizeram história na folia mineira. O Bloco Come Queto abre o evento às 14h, ao lado de Reinaldinho, ex-vocalista do Terra Samba. Às 16h, é a vez do Bloco Belo Pirô, embalado pelos sucessos da banda Cheiro de Amor. Encerrando o clima de celebração, o Bloco Uai assume a festa às 18h, com a energia de Tuca Fernandes.

“São três blocos, três artistas e três histórias profundamente ligadas à cidade. Mais do que uma programação, é um reencontro de memórias que ajudaram a construir o carnaval que Belo Horizonte vive hoje”, finalizou.

Serviço

Data: sábado, 31 de janeiro
Horário: a partir das 13h
Local: entorno do Estádio do Mineirão
Concentração: avenida Abraão Caran, em frente a um posto de combustíveis
Gratuito

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Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.

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