Escritoras mineiras pretas são homenageadas durante Carnaval do RJ
Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo são temas de sambas-enredo que tomarão conta da Sapucaí

As escritoras Carolina Maria de Jesus e Conceição Evaristo serão homenageadas por escolas de samba do Rio de Janeiro em seus enredos para o desfile do Carnaval da Sapucaí de 2026.
A Unidos da Tijuca, que deve ser a última a desfilar no grupo especial, na segunda-feira (16), leva o enredo “Carolina Maria de Jesus” que apresenta a história da autora além do contexto de pobreza. A obra “Quarto de Despejo”, uma das mais conhecidas que retrata sua vida na favela do Canindé, em São Paulo, está na lista de leituras obrigatórias para o vestibular da Unicamp.
O enredo da escola tijucana conta com composição de Lico Monteiro, Samir Trindade, Leandro Thomaz, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo Augusto, Gigi da Estiva e Juca.
Por sua vez, a Império Serrano busca ascender da Série Ouro do Carnaval com o enredo “Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu”, que faz referência ao livro “Ponciá Vivência”, da autora belo-horizontina.
A canção tem autoria de Hamilton Fofão, Dudu Senna, Leandro Maninho, Cláudio Russo, Lico Monteiro, Jorginho da Flor, Silvio Romai, Marco Aurélio, Victor Mendes, Mateus Pranto e Gabriel Simões.
‘Carolina Maria de Jesus’
O enredo começa apresentando Bitita, nome que significa “de cor preta” na língua changana de Moçambique. A ideia é apresentar a infância da autora nos confins do cerrado mineiro, um cenário diferente do apresentado em seu livro mais famoso.
Neta de Preto Velho / Que me ensinou os mistérios / Bitita cor, retinta verdade / Me chamo Carolina de Jesus
Os olhos da fome eram os meus / Justiça dos homens não é maior que a de Deus / Meu quarto foi despejo de agonia / A palavra é arma contra a tirania
Muda essa história, Tijuca! / Tira do meu verso a força pra vencer / Reconhece o seu lugar e luta / Esse é o nosso jeito de escrever
A escola alcançou a 9ª colocação no Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro em 2025 com o enredo “Logun-Edé - Santo Menino que Velho Respeita”, sobre o orixá iorubá. Entre os compositores, destacava-se o nome de Anitta, uma das responsáveis pela obra.
‘Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu’
A Império Serrano introduz a explicação de seu enredo com o conceito de “escrevivência”, apresentado pela escritora Conceição Evaristo. O termo, por ela cunhado ao unir as palavras “escrita” e "vivência”, representa a escrita enquanto um exercício de representação das experiências de vida, principalmente de mulheres negras.
Durante a contextualização também é apresentado o termo “pretuguês”, da mineira Lélia Gonzalez, que representa as transformações do português falado no Brasil a partir das influências do tronco linguístico banto.
Busquei Ivone pra matar essa saudade / O negro é raiz da liberdade! / É Kizomba de preta literatura! / É escrita sem censura no Império a florescer!
Casa de Preto também é Academia / Serrinha, ponciá Yalodê!
Em 2025, um incêndio prejudicou o desfile da Império Serrano, que teve cerca de 95% das roupas queimadas nas prévias do Carnaval. A escola desfilou sem risco de ser rebaixada e continuou no Grupo Ouro em 2026, buscando o acesso para o Grupo Especial em 2027.
Gustavo Monteiro é estagiário do Portal Itatiaia e estudante de jornalismo na UFMG. Natural de Santos-SP, possui passagens pela Revista B&R e Secretaria do Estado de Minas de Comunicação Social.



