Tecnécio-99: o que é a substância radioativa envolvida em incidente no Ipen e quais os riscos?
Elemento é amplamente utilizado na medicina nuclear para exames diagnósticos e esteve envolvido em ocorrência registrada no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen)

A confirmação de um incidente envolvendo traços de tecnécio-99 no Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, levantou dúvidas sobre o elemento químico, seus usos na medicina e os riscos à saúde. Segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), o caso ocorreu durante a retirada de sensores biológicos de uma máquina de esterilização utilizada no processo produtivo de um radiofármaco.
A Universidade de São Paulo (USP), responsável pela Cidade Universitária, e o Ipen não responderam às tentativas de contato do Estadão. O 2º vice-presidente do Conselho Federal de Química, Wilson Botter, explicou que o tecnécio é um elemento químico radioativo utilizado principalmente na medicina diagnóstica.
"Ele é um elemento radioativo e artificial da tabela periódica. Existe de forma natural também, mas o que utilizamos é produzido artificialmente a partir do molibdênio", afirmou. Segundo Botter, o molibdênio também é radioativo e, ao emitir radiação, transforma-se em tecnécio. O processo faz parte da chamada desintegração radioativa, fenômeno em que um elemento químico se converte em outro ao liberar energia.
Por que o tecnécio é usado na medicina?
De acordo com o especialista, uma das principais características do tecnécio é seu curto tempo de meia-vida, de cerca de seis horas. Isso significa que a substância perde rapidamente sua atividade radioativa, característica que favorece seu uso em exames médicos.
O elemento é empregado principalmente em cintilografias, exames que permitem visualizar órgãos e tecidos por meio da emissão de radiação detectada por equipamentos específicos. O especialista explica que o tecnécio é associado a substâncias que possuem afinidade com determinados órgãos ou tecidos. Após a aplicação no paciente, a radiação emitida pelo elemento é captada por detectores e processada por softwares capazes de gerar imagens da região examinada.
"Você injeta o tecnécio no organismo. Esse tecnécio vai estar ligado a uma molécula pela qual os ossos, quando é uma cintilografia óssea, ou o coração, quando é um exame cardiológico, têm afinidade", explicou.
Quais são os riscos da exposição?
Botter afirma que materiais radioativos podem causar danos ao organismo quando há exposição suficiente para afetar células e moléculas do corpo. "Essa energia pode aquecer o material, pode destruir ligações químicas", disse. Segundo ele, em situações mais intensas, a radiação pode provocar alterações celulares e até mutações no DNA.
"Quando você altera a estrutura do DNA dentro da célula, essa célula pode começar a produzir uma célula mutante, porque ela tem um DNA diferente. Essa célula mutante é o que chamamos de câncer." Apesar disso, o especialista ressalta que a gravidade dos efeitos depende da intensidade da exposição, da quantidade de material envolvida e do tempo de contato.
"Mas veja: essa radiação do tecnécio é de baixa energia. Para produzir um efeito intenso, semelhante ao observado em acidentes envolvendo outros materiais radioativos, é necessária uma exposição elevada e por um período significativo", afirmou.
O que se sabe sobre o caso do Ipen?
O incidente envolveu dois trabalhadores, que foram submetidos a exames in vivo por meio de um Contador de Corpo Inteiro. As medições detectaram baixos níveis de radioatividade e indicaram que não houve contaminação interna. Segundo a CNEN, a contaminação ficou restrita à área controlada do Centro de Radiofarmácia do instituto.
Com base nas informações divulgadas até o momento, Botter afirma não considerar o episódio grave. O especialista destacou que profissionais que atuam em laboratórios e centros de produção de radiofármacos seguem protocolos rigorosos de segurança.
"Esse tipo de contaminação não costuma ser grave, porque os técnicos são treinados e sabem exatamente com o que estão lidando", afirmou. Ele também ressaltou a importância dos profissionais da química na produção de radiofármacos e em processos relacionados ao uso seguro de materiais radioativos na área da saúde.


