Estudante usa ‘palavras difíceis’, zera redação e decide processar a USP
Jovem, de 18 anos, prestava vestibular para o curso de direito e acabou desclassificado após não abordar o tema proposto

O estudante Luís Henrique Etechebere Bessa, de 18 anos, decidiu processar a Universidade de São Paulo (USP) após ter a nota da sua redação da Fuvest 2026 zerada. O candidato teve a prova anulada e foi automaticamente desclassificado do vestibular. Luis pretendia disputar uma vaga no curso de direito da USP, o melhor do país e o 52° melhor do mundo.
A nota foi atribuída ao candidato após o jovem adotar o uso de uma linguagem "excessivamente rebuscada" na construção do seu texto, que foi considerada inadequada pela banca avaliadora.
O estudante decidiu divulgar o caso e publicou imagens da sua redação nas redes sociais. A repercussão, porém, teve o efeito contrário daquele esperado pelo jovem e o estudante virou alvo de piadas na web.
Confira o texto escrito pelo candidato:

"Intentona pela Reconstituição da Interioridade
Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito. Djaimilia de Almeida concebe, em A Visão das Plantas, valer-se a epísteme lírico-narrativa de concepções hermenêutico-historiográficas, as quais decorrem da dialética antagônica e maquiavélica ao postularem a teleologia hodierna. Sob essa perspectiva, Ferdinand de Saussure preconiza a relação simbiótica entre significado e significante a partir da coesão engendrada pelo domínio tradicional concomitante ao coercitivo. Entretanto, à medida em que impera a dinamicidade, fragilizam-se axiomas em difusas postulações. Nesse ínterim, ressoa o sofrer recôndito na fragmentação identitária ao se concernir ao perdão - significado - múltiplos significantes: o condicionamento e a limitação, seja em razão da violência simbólica ou da tecnocracia.
Nessa vereda, sobrepuja-se a subjetividade ao “modus vivendi” da superestrutura cívico-identitária. Articula a dialética bourdiana - de Pierre Bourdieu - a internalização de signos culturais, fundamentados por efemérides violentas, a partir da impotência reflexiva inerente ao sujeito-interlocutor, o qual se resigna à unidimensionalidade distópica que o cerca. Dessa forma, transfigura-se a universalidade associada ao imperativo categórico no perdão condicionado: busca incessante por relegar a outrem o esvaziamento eudaimônico da individualidade esvaziada.
Ademais, nota-se haver a instrumentalização da razão a partir do Antropo-tecno-ceno - era em que ocorre a comodificação cultural a partir do uso de emergentes adventos tecnológicos. Nesse ínterim, Michael Sandel postula ser promovida pela tecnocracia a associação de concepções desenvolvimentistas à égide capitalista, ocasionando a negligência da seguridade social. Assim, desnuda-se o perdão limitado como sendo uma intentona à valorização do indivíduo cujo “status quo” encontra-se invisibilizado, uma vez que ocorre a busca mercadológica pelo perdão.
Diante do exposto, revela-se a tendência, no espectro contemporâneo, à fragmentação da “psique” coletiva, sendo o “perdão” a elucidação de sua fenomenologia. Nesse sentido, é diminuída a grandiloquência condoreira pela tecnocracia e pela violência simbólica, sendo o sofrer recôndito o seu suplício, em distintos significantes."
A redação
O tema da redação era "O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado". A banca examinadora, porém, considerou que o texto do estudante não abordou a proposta. Luis entrou na Justiça para solicitar que a Fuvest apresente uma justificativa detalhada sobre a nota zero atribuída à sua redação.
O argumento central do estudante é de que a penalização teria sido desproporcional, já que, na visão dele, o texto não se enquadraria nas situações previstas para anulação total da redação. Antes de recorrer à Justiça, o estudante já havia tentado reverter a nota por meio dos canais administrativos da própria Fuvest, mas não obteve sucesso.
O pedido liminar, que buscava a reavaliação imediata da redação, foi negado em um primeiro momento. O entendimento foi de que não havia elementos suficientes para interferir no critério de correção adotado pela banca do vestibular.
O que diz a Fuvest?
Em nota, enviada à CNN Brasil, a Fuvest explicou os critérios de avaliação adotados que culminaram na nota zero dada à Luis. Ainda no texto, a fundação reiterou o rigor no processo de correção dos textos e afirmou que a redação do estudante passou por três avaliações cegas independentes. Confira o posicionamento da Fuvest na íntegra:
"A nota zero foi atribuída ao texto por não abordar o tema definido pela frase temática, "O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado", no que tange à compreensão e ao desenvolvimento do referido tema. Não há indícios suficientes que demonstrem essa compreensão e desenvolvimento, estabelecendo evidentes relações de intertextualidade e interdiscursividade, o que prejudica sensivelmente a pertinência das informações e da efetiva progressão textual. Para que a nota zero fosse atribuída, o texto passou por mais de três avaliações cegas.
O processo de correção, que passa por pelo menos 2 examinadores e pode chegar a 3 ou até 4 correções em casos de divergências entre as notas, demonstra que a correção realizada é condizente com os critérios estabelecidos."
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



