RJ terá Centro de Memória Africana para preservar história da escravidão e resistência negra
Espaço vai ser erguido na região da Pequena África, área histórica da zona portuária carioca que recebeu centenas de milhares de africanos escravizados

A União terá de iniciar, em até 30 dias, as obras do Centro de Interpretação do Cais do Valongo, espaço dedicado à preservação da memória africana na zona portuária do Rio de Janeiro. A determinação é da Justiça Federal, que atendeu a um pedido do Ministério Público Federal (MPF) e fixou multa diária de R$ 10 mil caso o governo não assine o contrato e libere os recursos para a construção.
Orçado em R$ 77,4 milhões, o projeto estava paralisado por causa do contingenciamento de verbas federais, apesar de a licitação já estar concluída. O espaço será instalado no Edifício Docas André Rebouças, na região da Pequena África, próximo ao Cais do Valongo, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial por ter sido o principal porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas.
A determinação da Justiça também levou em consideração as condições precárias do imóvel onde o centro será instalado. Segundo a decisão, um laudo da Defesa Civil apontou que o edifício apresenta graves problemas estruturais, como rachaduras, fissuras e um afundamento de aproximadamente 30 centímetros no piso, tornando urgente o início das obras de recuperação. Além de preservar um patrimônio histórico ligado à diáspora africana, a construção do Centro de Interpretação do Cais do Valongo também busca evitar o agravamento das condições do edifício.
O futuro centro será dedicado à preservação, pesquisa e difusão da história da diáspora africana, da escravidão, das formas de resistência e das contribuições dos povos africanos e afro-brasileiros para a formação do país. A iniciativa também busca fortalecer ações de educação patrimonial, combate ao racismo e valorização da herança cultural negra.
Outros espaços dedicados à memória africana no Brasil
Embora o novo Centro de Memória Africana seja considerado um projeto inédito pelo seu escopo e localização estratégica, o Brasil já conta com algumas instituições voltadas à preservação da memória e da cultura afro-brasileira para quem deseja conhecer mais da história de formação do país.
Entre elas está o Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), também localizado na região da Pequena África, que reúne um circuito de 15 lugares de memória ligados à presença negra no Rio de Janeiro, incluindo o Cais do Valongo e o Cemitério dos Pretos Novos.
Em Salvador, na Bahia, a Casa do Benin promove intercâmbio cultural entre Brasil e o país africano, preservando um importante acervo histórico e artístico sobre as relações afro-atlânticas. Também na capital baiana funciona o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), dedicado à valorização das matrizes africanas que moldaram a identidade brasileira por meio de exposições, pesquisas e ações educativas.
No âmbito federal, a Fundação Cultural Palmares mantém o Centro de Informação e Acervo da Memória e da Cultura Afro-Brasileira (CIAM), responsável por reunir milhares de livros, documentos, fotografias e obras relacionadas à história da população negra. Já em Alagoas, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares preserva a memória do maior quilombo das Américas e reconstrói aspectos do cotidiano da comunidade liderada por Zumbi dos Palmares.
Por que é importante preservar a memória africana?
Mais de um século após a abolição da escravidão, seus efeitos ainda permanecem presentes na estrutura social brasileira. A população negra continua sendo a mais afetada por desigualdades históricas em áreas como renda, educação, moradia, acesso à saúde, violência e mercado de trabalho.
Nesse contexto, espaços de memória cumprem um papel que vai além da preservação histórica. Eles ajudam a reconhecer a dimensão da violência do sistema escravista, valorizam a resistência dos povos africanos e de seus descendentes e contribuem para enfrentar o racismo estrutural por meio da educação e da produção de conhecimento.
Ao transformar locais marcados pelo tráfico de pessoas escravizadas em ambientes de reflexão e aprendizagem, iniciativas como o futuro Centro de Memória Africana buscam reparar um apagamento histórico e ampliar o reconhecimento da contribuição da população negra para a construção do Brasil.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



