Belo Horizonte
Itatiaia

Sete e meio

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Padre Samuel Fidelis, colunista da Itatiaia • Arquivo pessoal

Uma das grandes questões da vida é saber quanto pesa. Mal nascemos e, junto com o nome e as projeções de nossos pais, vem a nós, anotado numa prancheta, um "peso". Estamos medidos desde o primeiro momento. Isso para nos lembrar de que "se somos feitos da mesma matéria dos sonhos" (Shakespeare), também somos um emaranhado de células, de matéria orgânica, de carbono em decomposição. Temos peso.

Essa preocupação com o "peso" se segue ao longo da vida. Por mais que digam por aí "se não é seu peso você não tem que opinar", ah, a gente opina... Depois dos vinte e cinco, quando o colágeno começa a nos abandonar, seguidos pouco a pouco pelo joelho e a coluna, peso se tornar uma das questões centrais.

Agora, quanto pesa o olhar? Ao que tudo indica, o peso médio do globo ocular é "sete e meio". Um número interessante, se comparado ao peso de todo o corpo, sobretudo para quem está, não em forma de tanquinho, tanquinho de guerra. "Sete e meio" é um numero simbólico para que a gente pense: qual o peso do olhar?

A clareza do “nosso olhar" sobre as coisas é determinante. Colocar sob suspeita o modo com o qual vemos a realidade, desconfiar de nossa capacidade de ver o todo, ajuda a não se envolver em enrascadas, e mais, a sair delas...

Somos a sociedade da imagem. Isso significa que pesam os olhares. Atualiza-se nas Redes Sociais a nossa angústia fundamental e primitiva: o "eu" é uma ilusão. O que chamamos de "eu" está à deriva, no meio de posts, opiniões, filtros. Existimos para um ideal de "eu" que projetamos no olhar do outro. E como isso nos angustia.

Sobretudo em momentos de tragédia, insegurança ou de crise, como essa enchente no Rio Grande do Sul, interroguemos o olhar. O que é diante dos olhos uma terra arrasada é também um "photon" (Luz) de solidariedade, de tensão criativa, de resiliência, de esperança...

Até uma terra arrasada, com um olhar mais adestrado pode ser um convite a refletirmos mais. Na quebra das expectativas, até mesmo num desastre, quando a água vem lavando tudo, a angústia nos faz dar à luz um novo olhar. A paixão que nos trouxe até aqui não nos sustentará. Sabíamos mais do que devíamos, mas menos do que era preciso. Quando muda o nosso olhar sobre o mundo, o mundo muda ao redor.

Que nosso olhar tenha "peso". Assim a gente fala menos besteira. Vejamos atentamente: o "eu" com seus avessos, vejamos também o "outro", até mesmo lá onde ele ainda não se deixa alcançar. Aprendamos a dominar o olhar. Assim, como lembra a sabedoria budista, sobretudo na perspectiva do Canon (o que dá nome às câmeras), o Buda da visão: nossa mente sejam como águas tranquilas que refletem as coisas como elas são.

Recordemo-nos aqui de Kate (Catarina), de a Megera Domada (Shakespeare). Eis uma mulher de peso no olhar. Assim como às vezes se encontra nossa visão cansada e pesada. Num dos pontos da peça, Kate recebe o conselho de não ser exaltada, pois, se assim for, será como uma fonte perturbada: lodosa, sem beleza, opaca. Enquanto uma fonte está assim ninguém ressecado ou sedento se curva para bebê-la.

Domemos nosso olhar. Venha em nosso auxílio uma enchente de lágrimas. Essas doídas, às vezes tão necessárias. Limpam e tiram o excesso de "peso" do olhar...

"Domine ut videam" ("Senhor que eu veja")... Lc 18,41

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.