Primeiro pároco de BH foi um homem negro; conheça história a de Francisco Martins Dias
Padre foi o último vigário do Arraial do Curral del Rei e o primeiro da nova capital mineira, ainda na fundação da cidade durante o séc. XIV

Por mais de um século, um dos personagens centrais da fundação de Belo Horizonte, permaneceu fora da memória oficial da própria instituição que ajudou a construir. Porém, na próxima quarta-feira (27), a Arquidiocese de Belo Horizonte vai incluir o retrato do padre Francisco Martins Dias na galeria oficial de párocos da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, matriz da capital mineira.
O gesto é uma medida de reparação histórica, que reconhece publicamente a trajetória de um sacerdote negro que ocupou uma posição decisiva na transição entre o antigo Arraial do Curral del Rei e a criação da capital mineira, mas que permaneceu ausente do reconhecimento institucional ao longo de anos.
Quem era o padre Francisco?
Francisco Martins Dias nasceu em 1º de fevereiro de 1866, em Congonhas de Sabará, atual Nova Lima. Filho de Antônio Joaquim Pedro Dias e Mathilde Carolina das Dores, foi ordenado sacerdote na cidade de Mariana em 1891 e iniciou seu ministério em sua cidade natal antes de receber uma missão que o colocaria no centro de um dos momentos mais importantes da história mineira.
Em 1895, ele foi designado para assumir a Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem, justamente no período em que Minas Gerais iniciava a transferência da capital de Ouro Preto para uma nova cidade planejada. Com isso, tornou-se simultaneamente o último vigário do Arraial do Curral del Rei e o primeiro pároco da nova capital: Belo Horizonte.
Além da Matriz da Boa Viagem, Francisco Martins Dias também tinha responsabilidade pastoral sobre a Capela de Nossa Senhora do Rosário, espaço historicamente associado à religiosidade e à organização das populações negras da região. Mas, sua contribuição ultrapassou a atividade religiosa. Em 1895, o padre Francisco fundou o periódico “Bello Horizonte”, identificado como o primeiro jornal da cidade.
Também produziu registros escritos sobre as mudanças provocadas pela criação da capital, textos que ajudaram a contar o processo de formação de BH. Entre esses trabalhos está a obra Traços Históricos e Descriptivos de Bello Horizonte, considerada um dos primeiros relatos sobre a cidade produzidos a partir da experiência dos moradores do antigo arraial.
Veja o texto do padre:

Apagamento histórico
Apesar desse conjunto de contribuições, o reconhecimento institucional do padre não acompanhou a relevância histórica do sacerdote. A foto de Francisco nunca foi pendurada na galeria oficial de párocos de Belo Horizonte, na Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. O reconhecimento, ainda que tardio, foi fruto de um trabalho de pesquisa do professor, doutor e padre Mauro Luiz da Silva, que por cerca de cinco anos estudou a fundo a história do Largo do Rosário, um marco para a cultura negra em Belo Horizonte. Em entrevista à Itatiaia, o padre Mauro contou um pouco sobre o processo de pesquisa e a importância do resgate dessa memória.
"Tudo isso é uma realização, sabendo que eu não tive essa oportunidade no tempo do seminário, em saber da importância do papel de um padre negro na formação da cidade de Belo Horizonte. Para mim, está sendo também uma reparação histórica pessoal, porque agora eu me reconheço em um homem negro, que também foi padre e que ajudou na construção da cidade. Eu sou pesquisador do patrimônio de Belo Horizonte, principalmente do afropatrimônio. Durante as pesquisas sobre o Largo do Rosário, que é a minha pesquisa, eu identifiquei, a existência desse padre e desde sempre pensava que ele poderia ser um homem negro, mas eu não tinha foto dele. Até que eu descubro lá no próprio Museu Abílio Barreto, a foto dele. Diante disso, constato que se tratava de um homem negro e faço toda essa pesquisa, esse material é fruto da pesquisa que desenvolvi ao longo dos últimos cinco anos. [...] Tudo isso é uma realização, sabendo que eu não tive essa oportunidade no tempo do seminário, em saber da importância do papel de um padre negro na formação da cidade de Belo Horizonte. Para mim, está sendo também uma reparação histórica pessoal, porque agora eu me reconheço em um homem negro, que também foi padre e que ajudou na construção da cidade".
Depois de descobrir a história de Francisco, o padre Mauro entrou com um pedido de reparação à Arquidiocese de Belo Horizonte. O documento elaborado pelo pesquisador sustenta que o apagamento do sacerdote não pode ser entendido como um simples esquecimento administrativo, mas como parte de um processo histórico mais amplo de invisibilização das contribuições negras na construção da cidade e também, de forma geral, dentro das instituições religiosas.
Ainda segundo o padre Mauro, inserir o retrato de Francisco Martins Dias na galeria da Boa Viagem representa mais do que recuperar um nome ausente: simboliza o reconhecimento de trajetórias negras que participaram da construção de Belo Horizonte, mas não receberam o mesmo espaço na narrativa oficial da cidade.
A cerimônia
A inclusão do retrato do padre Francisco na galeria oficial de párocos de Belo Horizonte vai acontecer na próxima quarta-feira (27) a partir das 15h. A cerimônia acontece na matriz da capital, a Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, no bairro Funcionário, na regional Centro-sul da cidade. O evento vai contar com a presença de Dom Edmar José da Silva, bispo auxiliar de Belo Horizonte, Padre Mauro Luiz da Silva, curador do Muquifu e pesquisador e Padre José Cícero Marques Júnior, o atual pároco da Boa Viagem.
Veja imagens do Padre Francisco
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.






