O que explica a tempestade devastadora dessa quarta (8) em BH?
Especialistas explicam como a combinação entre alta concentração de água, velocidade da precipitação e limitações no sistema de drenagem provocou os alagamentos

Imagens impressionantes marcaram a chuva desta quarta-feira (9): carros boiando no Santa Efigênia, casa invadida pela água no São Lucas e ruas tomadas por bolsões de água na Savassi. Mas, afinal, o que explica um temporal tão intenso — e o que ele teve de diferente das outras chuvas para causar tantos danos na Região Centro-Sul de Belo Horizonte?
Para começar, é importante entender o que foi que causou a chuva. De acordo com o professor de Geografia e cientista do clima Lucas Oliver, uma área de instabilidade que veio do sudoeste de Minas atravessou o estado e causou uma chuva muito forte e concentrada justamente na região Centro-Sul.
Em pouco tempo - entre 10 e 20 minutos - caiu um grande volume de água. Como foi rápido demais, o sistema de drenagem da cidade não conseguiu dar conta, o que provocou os alagamentos.
"Embora a maior parte da capital não tenha registrado precipitação ontem por se tratar de uma chuva localizada, os pontos atingidos sofreram com a incapacidade do sistema sanitário e fluvial de dar vazão ao volume acumulado", disse.
A Região Centro-Sul de Belo Horizonte registrou pouco mais de 50% da chuva esperada para todo o mês em apenas uma hora durante o temporal desta quarta-feira (8).
De acordo com a Defesa Civil de Belo Horizonte, nesse período choveu cerca de 42 mm, enquanto a média para todo o mês de abril é de 82,3 mm, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Lucas explicou que a situação crítica ocorreu porque os rios canalizados sob as vias atingiram sua capacidade máxima rapidamente.
"Isso fez com que as ruas não dessem conta de absorver o sistema sanitário e também os rios que estão embaixo de várias ruas, eles ficaram totalmente cheios, então não tinha como a água que estava escoando entrar no escoamento fluvial que já estava muito cheio de água", afirmou o geógrafo Lucas.
Apesar da sensação de moradores de que nunca tinham visto algo assim, especialistas afirmam que não é algo tão incomum e que qualquer região da cidade pode sofrer alagamentos quando chove muito em pouco tempo.
"Não é bem uma tendência que os bairros nobres vão enfrentar enchente. Na verdade, isso a cidade toda ela está sujeita a isso", afirma Diego Rodrigues Macedo, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A chuva rápida e o ciclone
O especialista explicou que, embora a chuva já estivesse prevista por causa de um ciclone no Sul do Brasil, o que aconteceu mostra como eventos extremos estão ficando mais intensos. Ainda assim, esse episódio não foi classificado como o mais grave.
Para Lucas, o principal problema não foi só a quantidade de chuva, mas a velocidade com que ela caiu: "Se chover os 45 milímetros de chuva que choveu ontem em duas horas não teria alagamento, mas em 15 minutos tem porque não tem como escorrer".
A forma do terreno também ajudou a agravar a situação. Segundo Lucas, córregos como o Acaba Mundo e outros que deságuam no Ribeirão Arrudas, na região hospitalar, receberam mais água do que conseguem suportar.
Além disso, nem todas as áreas têm estruturas para segurar esse excesso. Segundo o professor Diego, Enquanto regiões como Venda Nova e Centro-Sul contam com reservatórios que ajudam a conter a água, o Santa Efigênia não tem esse tipo de sistema. Com isso, toda a água escoa direto para o Arrudas, aumentando o risco de alagamentos.
Soluções
De acordo com o professor Diego Rodrigues, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) já trabalha há mais de 30 anos em planos para melhorar a drenagem da cidade e reduzir os efeitos da impermeabilização do solo.
Segundo o especialista, uma das principais estratégias é usar obras de engenharia para controlar o excesso de água. "Então, você tem algumas estruturas que foram, por exemplo, construídas na região da Vilarinho, onde foram feitas grandes bacias de detenção para tentar reter esse fluxo de água em excesso e liberar ele devagar".
Além dessas obras, também existem soluções mais simples, que ajudam a reduzir o volume de água que escoa rapidamente durante chuvas fortes, como manter áreas que absorvem água e conectar melhor os cursos d’água.
O geógrafo Diego destaca: "A prefeitura tem algumas diretrizes muito interessantes de conexão de fundos de vale e soluções baseadas na natureza, como, por exemplo, jardins de chuva que foram implantados na bacia do córrego Lagoa do Nado (Região Norte)".
Vai chover de novo?
Belo Horizonte está na lista do Inmet com possibilidade de novas chuvas fortes. De acordo com o órgão, pode chover entre 30 e 60 milímetros por hora, ou até 100 milímetros por dia, além de ventos fortes entre 60 e 100 km/h.
Os principais riscos são queda de energia, galhos de árvores, alagamentos e descargas elétricas.
Lucas confirmou que ainda há chance de chuva na capital, mas ponderou: "Não acredito que tenhamos um temporal tão forte assim".
Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.



