Nos trilhos da memória: a história e o apelo do 'Amor de Trem' que resiste em Minas
Funcionamento de ferrovias em Minas Gerais, já no fim do século XIX, foi fundamental para gerar empregos e permitir o desenvolvimento. Porém, com a chegada das rodovias, cidades como Araguari registraram transtornos econômicos e afetivos

"No trem que vai pra Araguari, eu partia de Goiânia com destino a Uberlândia". Esses são os versos iniciais da canção “Amor de Trem”, a 16ª faixa do álbum “Tempo”, lançado pelo cantor sertanejo Leonardo em 1999, o primeiro após a morte de seu irmão, Leandro. A letra menciona a saga de um viajante em busca de seu amor perdido em cidades como Patrocínio, Passos e Coromandel, além de Patos de Minas e BH. Essa história, que deixa no ar a dúvida sobre o sucesso da empreitada, bem que poderia ter sido vivida por um maquinista ou ferroviário na Estrada de Ferro Goiás, que encerrou suas atividades de forma gradual durante a década de 1980.
A cerca de 560 quilômetros de Belo Horizonte está localizada a Praça Gaioso Neves, em Araguari, município do Triângulo Mineiro com cerca de 124 mil habitantes, segundo estimativa feita em 2025 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No entorno da praça, fica o edifício que originalmente sediava a antiga Estação da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, e que ainda hoje também funciona como base da prefeitura municipal. O espaço abriga o Museu Ferroviário de Araguari, onde turistas e visitantes encontram um acervo de mais de mil peças que resgata a memória local e destaca a relação da cidade com o trem. É lá que trabalha Silvana Montes Pereira Campos, responsável pelo recebimento de viajantes e por não deixar descarrilar a história da Estrada de Ferro Goiás.
“Era muito importante… o objetivo foi ligar o Sudeste ao Centro do país e permitir a troca de mercadorias entre as regiões”, comenta a guia do museu. O prédio da estação “Estrada de Ferro Goiás” foi inaugurado em dezembro de 1928 e, a partir de 1957, passou a ser “Estação da Rede Ferroviária Federal”. Ao mostrar imagens, ferramentas, vestimentas, textos e equipamentos de sinalização e comunicação da época, Silvana atua como uma maquinista que leva o visitante a mensurar o papel do trabalho ferroviário para a cidade e a região. Pelos trilhos da história, o acervo resgata um período em que a ferrovia integrava Minas, Goiás e São Paulo por meio do transporte de passageiros e cargas, viabilizando o escoamento de produtos e a interação humana. Além disso, o local conta com um livro de depoimentos que reúne relatos de ferroviários, familiares e outros visitantes que fazem questão de registrar suas impressões sobre a visita.
O funcionamento de ferrovias em Minas Gerais, já no fim do século XIX, foi fundamental para gerar empregos e permitir o desenvolvimento da região. Segundo Pablo Luiz de Oliveira Lima, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e autor do livro "Ferrovia, Sociedade e Cultura: 1850-1930", o impacto desse modelo de transporte naquela época pode ser comparado ao que vemos atualmente com a Inteligência Artificial (IA). “Foi um instrumento que prometia a modernização de uma sociedade. Minas era predominantemente rural, de grande produção agrícola, mas com muitos problemas de transportes e comunicações internas”, ressalta. Desse modo, durante quase um século a ferrovia teve uma função significativa de inovação estrutural para os mineiros.
“Se antes havia uma dinâmica interna dos meios de transporte já estabelecidos, apesar de serem lentos e precários (como carros de boi e transporte fluvial), a chegada da ferrovia gerou um grande impacto pois muitas localidades acabaram definhando com a migração de suas populações para o entorno de estações ferroviárias”, destaca Pablo Luiz de Oliveira Lima. Esse contraste entre o desenvolvimento de algumas áreas em detrimento da estagnação ou mesmo do “isolamento econômico” de outros territórios mostra um mecanismo que nem as montanhas mineiras conseguiram cercar. “Com o capitalismo, que sempre traz novas formas de produção e que vai gerando transformações, a ferrovia foi substituída pelo transporte rodoviário”.
Diferentemente do que foi feito em países da Europa e nos Estados Unidos, a partir da Ditadura Militar no Brasil foi colocado em prática um projeto de abertura do mercado para a indústria automobilística, trocando a ferrovia pela rodovia, processo que de certa forma já havia sido iniciado durante o governo de Juscelino Kubitschek. “O transporte ferroviário de passageiros foi sendo desativado e, a partir dos anos 1980, foi perdendo importância no país até os dias de hoje, em que temos no Brasil uma malha ferroviária menor que a de 1930”.
No entanto, assim como o título da canção sertaneja lançada em 1999, esse “Amor de Trem” resiste em Minas Gerais. “Trabalhando aqui no museu, aprendi que não se pode dizer a expressão ‘ex-ferroviário’, eles ficam ofendidos. Uma vez ferroviário, sempre ferroviário. A desativação foi um transtorno, gerou desemprego e impactou o turismo local”, afirma Silvana Montes Pereira Campos. O personagem da música sente a falta da amada, e a população sente a falta “do trem que vai pra Araguari”.
A dois meses das eleições estaduais, a Itatiaia publica uma série de reportagens sobre a relação das ferrovias e dos trens com Minas Gerais. A história, os impactos culturais e socioeconômicos e as perspectivas desse modelo de transporte você acessa em nosso Portal (itatiaia.com.br).
Jornalista formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e pós-graduado em Jornalismo nos Ambientes Digitais pela mesma instituição. Possui experiência como repórter, produtor e coordenador de telejornal.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.
Jornalista formado pela UFMG, Bruno Nogueira é repórter de Política, Economia e Negócios na Itatiaia. Antes, teve passagem pelas editorias de Política e Cidades do Estado de Minas, com contribuições para o caderno de literatura.
Formado em Jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), é chefe de reportagem na Itatiaia. Trabalhou durante 10 anos no jornal Estado de Minas, onde foi estagiário, repórter, capista, subeditor e editor-assistente do em.com.br e do portal UAI. Também colaborou com matérias para o portal UOL e foi assessor de imprensa no Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM).


































