Mulheres denunciam funcionário de academia em BH por gordofobia e ameaças
Três vítimas afirmam ter sido chamadas de 'baleia' e "'mensa' e relatam ofensas presenciais e nas redes sociais; defesa nega as acusações e diz que os fatos narrados não são reais

Três mulheres denunciaram um funcionário de uma academia de Belo Horizonte por ataques de gordofobia e ofensas nas redes sociais. Em entrevista à Itatiaia nesta quarta-feira (5), elas contaram que teriam sido alvo de comentários com apelidos e críticas relacionadas ao corpo, como “baleia” e “imensa”.
A advogada Tamires Pamela Macedo Moura, que representa parte das vítimas, afirma que já foram identificados pelo menos cinco processos relacionados ao caso e que outras denúncias chegaram ao escritório. Por outro lado, a defesa do acusado e da academia afirma que foram apresentados “fatos não reais”.
“Estamos diante desse fato que aconteceu com a Daiane, a Carolina já estava comigo desde o caso dela em junho e chegaram novas vítimas. No total, hoje, nós estamos com cinco processos desse fato”, afirmou. Marcelo Rocha, o homem denunciado, é marido da proprietária da academia.
O caso veio à tona após uma das denunciantes publicar um vídeo nas redes sociais contando que o homem teria comentado suas fotos de uma viagem com críticas ao corpo dela.
"Eu postei um carrossel de fotos, do meu lazer, das minhas férias, e ele teve a audácia de ir no comentário. E ele simplesmente falou que não estava legal", declarou Carolina Di Giacomo. A mulher afirma que nunca tinha tido contato anterior com Marcelo e que decidiu denunciar após descobrir outros relatos semelhantes.
Segundo Carolina, após questionar o comentário feito em uma publicação, o homem respondeu que tinha o direito de opinar porque ela havia se exposto. Ainda de acordo com a denunciante, ele afirmou que ela teria lipedema e que deveria "se tratar".
Carolina também relata que Marcelo fez comentários sobre o marido dela, chamando de "machos escrotos" os homens que interagiam com suas publicações, embora, segundo ela, apenas o esposo comentasse em suas fotos.
A denunciante afirma ainda que as ofensas continuaram após a conversa. Segundo Carolina, o homem publicou um vídeo de uma capivara fazendo referência a ela e pediu que apagasse as publicações, sob a alegação de que, caso contrário, enfrentaria diversos processos judiciais. Ela também diz ter recebido mensagens do advogado do investigado por meio das redes sociais, as quais classificou como debochadas.
Vítima relata que fez cirurgia bariátrica após episódio anterior
Segundo outra denunciante, Dayane Magalhães, ela teria sido alvo de ofensas do mesmo homem em uma situação recente e também há cerca de dez anos. Durante o episódio anterior, ela chegou a decidir fazer uma cirurgia bariátrica. “Por causa desse assunto, eu me redimi e falei: está na hora de eu me tratar. Me tratei e me trato até hoje”, relatou.
Dayane afirma que o novo episódio ocorreu no dia 30 de julho, durante uma parada de trânsito. Segundo ela, Marcelo teria se aproximado do veículo e feito ofensas relacionadas ao peso dela. “Ele bateu no capô e começou a ofender: ‘gorda’, ‘baleia’, ‘imensa’. Fazia os gestos de imensa”, contou.
Após o episódio, ela publicou um vídeo relatando o caso e afirma que outras mulheres começaram a procurar por ela. “Apareceram vítimas e mais vítimas. São mais de 30, 40 mulheres que ele teria atingido, segundo os relatos”, afirmou.
Dayane contou ainda que adquiriu trauma de academia após o ocorrido. Com a denúncia, ela diz que espera “justiça e respeito” para ela e para as outras mulheres.
Modelo plus size também relata ataque
A modelo plus size Jennifer Correia afirmou que também teria sido alvo de comentários ofensivos por parte de Marcelo em uma publicação profissional. Segundo ela, em um vídeo de uma campanha de biquíni em que ela era modelo, ele fez um comentário sugerindo que ela deveria fazer dieta. “Nunca vi esse cara na minha vida. Ele escreveu que ‘o que valorizaria meu corpo seria fazer uma dieta’”, contou.
Para Jennifer, os ataques precisam ser responsabilizados. “Ninguém tem o direito de ofender outras pessoas pela sua forma física, cor ou orientação sexual. Isso não deve acontecer”, afirmou.
O que diz a defesa
Em nota de esclarecimento publicada no perfil da academia Ao Corpo e do advogado Matheus Corgozinho, a defesa de Marcelo Rocha afirma que foram feitas ofensas e alegações falsas. No texto, consta que Marcelo estaria atravessando um cruzamento quando “foi surpreendido por uma mulher que repentinamente jogou o veículo que conduzia em sua direção, supostamente com clara intenção de o atropelar”. De acordo com a nota, a mulher seria Dayane.
Ainda segundo o posicionamento, após o ocorrido, a mulher teria ido até a porta da academia, onde gravou vídeos “indicando que a Ao Corpo, indevidamente, de forma negligente e leviana, estaria envolvida em alegações de ofensas à sua pessoa, ou seja, apresentando fatos não reais”.
O texto afirma que foram atribuídas à academia supostas práticas de gordofobia, que, segundo a defesa, foram alegadas sem provas, testemunhas ou qualquer participação do estabelecimento. “Em momento algum foi relatada qualquer ofensa, descrição ou relato dos fatos, por inexistência de envolvimento da academia no ocorrido, assim como por inexistência de relação com a sra. Daiane ou seu estabelecimento comercial. Contudo, as ofensas e afirmações falsas encontram-se ainda em andamento até a presente data”, diz a nota.
O texto afirma ainda que: “Esclarecemos ainda que, dos vídeos e menções efetuadas pela referida sra. Daiane, ela indica claramente que deseja causar mau [sic] injusto ao Sr. Marcelo, de forma a ocasionar a sua morte, alegando ser ele vagabundo, ordinário. Afirma ainda que, há 10 (dez) anos, manteve com o senhor Marcelo um conflito. Afirmou ainda que o Sr. Marcelo oferta anabolizantes e aplica anabolizantes nas pessoas”.
De acordo com a nota da defesa, Marcelo informou à proprietária da academia que não se recorda de conhecer a mulher e que as ofensas atribuídas a ele não ocorreram. O texto acrescenta que ele afirmou que “no local do ocorrido, claramente foi possível perceber que o desejo de Daiane era de fazê-lo, pois, se ele não tivesse pulado para frente, o veículo o teria atingido de forma grave, ocasionando graves danos físicos. Que somente gritou ao momento que, se ele tivesse sido atingido, iria quebrar o carro todo”.
Na nota, a defesa afirma ainda que os fatos estão sendo apurados e que as medidas judiciais cabíveis serão adotadas. “A Ao Corpo repudia qualquer tipo de discriminação, preconceito ou ofensa, sejam elas contra pessoas gordas, magras, negras, homossexuais ou pessoas com deficiência, mantendo em seu estabelecimento o acesso a todas as pessoas, independentemente de características físicas, gênero ou qualquer outra condição”, conclui.
A reportagem procurou Marcelo Rocha para manifestação e aguarda retorno.
Formado em jornalismo pela PUC Minas, foi produtor do Itatiaia Patrulha e hoje é repórter policial e de cidades na Itatiaia. Também passou pelo caderno de política e economia do Jornal Estado de Minas.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o Tá Sabendo no Instagram da Itatiaia.
Jornalista pela PUC Minas. Na Itatiaia, escreve para Minas Gerais e Brasil. Anteriormente, trabalhou no jornal Estado de Minas como repórter de Gerais, com contribuições para os cadernos de Política, Economia e Diversidade.





