Do barro à renda: mulheres do Vale do Jequitinhonha transformam tradição em sustento

Tradição passada de geração em geração transforma o artesanato em fonte de renda e fortalece o protagonismo feminino no interior de Minas Gerais

Tradição passada de geração em geração transforma barro e pedra em arte e renda em comunidades do Vale do Jequitinhonha

No Vale do Jequitinhonha, no interior de Minas Gerais, uma tradição passada de geração em geração transforma barro e pedra em arte e sustento para dezenas de famílias. Em comunidades rurais, o trabalho artesanal é feito dentro de casa, onde mães, filhas e netas dividem o mesmo espaço para modelar, pintar e queimar as peças de cerâmica que se tornaram símbolo cultural da região.

“Todo mundo já ouviu essa história de que o Vale é o Vale da pobreza. Isso é uma grande mentira, porque o Vale é rico em cultura, em mulheres empreendedoras, com muita raça e corajosas. Eu sou um exemplo disso”, conta a artesã Rita Ferreira, de 64 anos, que tira da arte o seu principal sustento.

Artesãs transformam o barro e pedra em fonte de sustento no Vale do Jequitinhonha

Sua fonte de renda, ou melhor, o seu trabalho começa com o processo começa com a preparação do barro, que é peneirado, amassado e moldado manualmente. Depois de secas, as peças recebem pinturas feitas com pigmentos naturais retirados do próprio solo. O pó colorido é misturado com água e levado ao fogo até atingir a consistência ideal para criar desenhos delicados, inspirados principalmente na natureza.

“Do pedaço de barro, que é retirado da terra, a gente consegue produzir uma peça, que depois de pronta fica incrível”, acrescenta Áurea Santos, que também sobrevive com o artesanato. Entre suas obras, flores, galhos, animais e cenas do cotidiano são alguns dos temas mais comuns nas pinturas.

Artesãs ‘improvisam ferramentas’ para o trabalho que gera sustento no Vale do Jequitinhonha

Arte que, muitas vezes, é feita a partir de ferramentas improvisadas, como penas de galinha, palitos e até objetos reaproveitados do dia a dia. O resultado são peças que revelam criatividade e a identidade cultural do Vale.

A construção de uma vida por meio da arte

Em muitas casas da região, o dinheiro obtido com a venda das peças ajudou a construir moradias, ampliar ateliês e melhorar a estrutura de trabalho das famílias. O espaço doméstico também costuma funcionar também como oficina coletiva, onde várias gerações trabalham juntas. "É a minha principal fonte de renda, e consigo sobreviver muito bem com ela. Na nossa região, o artesanato é também a força da mulher”, narra a artesã Adriana Xavier.

Pesquisadores apontam que a cerâmica do Vale do Jequitinhonha nasceu, em grande parte, como uma forma de sobrevivência. Durante décadas, muitas mulheres ficaram responsáveis pela criação dos filhos e pela manutenção da casa enquanto os maridos migravam para outros estados em busca de trabalho. Nesse contexto, o artesanato surgiu como alternativa de renda e, ao mesmo tempo, como forma de expressar o cotidiano e as experiências dessas mulheres.

Trabalho de artesãs é passado de geração em geração do Vale do Jequitinhonha

Segundo estimativas de instituições de apoio ao empreendedorismo, ações de incentivo ao artesanato já movimentaram cerca de R$ 2,5 milhões em vendas nos últimos anos na região. Além do impacto econômico, o reconhecimento do público e o contato direto com os compradores também fortalecem a autoestima das artesãs e valorizam a cultura local.

“A luta pela sobrevivência vai se transformando num registro do cotidiano dessas mulheres, é uma força que vai sendo plasmada nos objetos, é a lida do sonhado com o vivo. É como arte, expressividade”, destaca a socióloga Maria Moura.

O trabalho dessas mulheres tem se ampliado e ganhado destaque no exterior. Peças do Vale já foram apresentadas em eventos internacionais e passaram a circular em novos mercados, levando consigo a história e a tradição das comunidades que as produzem. “Com o trabalho da cerâmica, consegui comprar um carro, uma moto. Tudo isso é uma riqueza pra gente”, conclui a artesã Anísia Lima.

Leia também

Ouvindo...