PM desocupa reitoria da USP; estudantes relatam agressões com cassetetes e uso de gás
De acordo com relatos de alunos que ocupavam o prédio em manifestação, a Tropa de Choque cercou o edifício por volta das 4h15, enquanto os ocupantes dormiam

Na madrugada deste domingo (10), a Polícia Militar realizou a reintegração de posse do saguão da Reitoria da Universidade de São Paulo (USP), no campus Butantã. O local estava ocupado desde a última quinta-feira (7) por cerca de 150 manifestantes. A ação, que contou com 50 policiais, resultou em versões conflitantes entre a corporação e o movimento estudantil sobre o uso da força e o balanço de feridos.
De acordo com relatos de estudantes, a Tropa de Choque cercou o edifício por volta das 4h15, enquanto os ocupantes dormiam. O Diretório Central dos Estudantes (DCE) denunciou uma ação "absurdamente violenta", com o uso de bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e cassetetes.
O estudante Rael Brito de Paula relatou momentos de pânico. "Os policiais fizeram um corredor polonês na saída do prédio para agredir os estudantes que passavam. Houve fraturas, sangramentos e uma estudante desmaiou", afirmou à CNN. Segundo o DCE, seis pessoas foram levadas à UPA Rio Pequeno — quatro permanecem internadas, incluindo um aluno com fratura no nariz.
Em contrapartida, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) declarou que a ação foi concluída "sem registro de feridos" e que toda a operação foi gravada por câmeras corporais dos agentes. A PM informou que eventuais denúncias de excesso serão apuradas.
Danos e apreensões
Após a retirada dos manifestantes, a PM realizou uma vistoria no prédio. Segundo a corporação, foram constatados danos ao patrimônio público, como portas de vidro quebradas, carteiras e mesas danificadas, além da derrubada do portão de acesso. No local, a polícia afirma ter apreendido entorpecentes e "armas brancas", incluindo facas, canivetes, estiletes e porretes.
Quatro pessoas foram conduzidas ao 7º Distrito Policial para registro de boletim de ocorrência por dano ao patrimônio e alteração de limites, sendo liberadas após a qualificação.
Impasse nas negociações
A ocupação foi o ápice de uma paralisação aprovada em 14 de abril. Inicialmente em apoio aos servidores, o movimento estudantil passou a focar em pautas de permanência estudantil. A principal reivindicação é o reajuste do auxílio do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE).
Além das bolsas, os alunos exigem melhorias nos restaurantes universitários ("bandejões"), nas moradias e a contratação de funcionários para o Hospital Universitário (HU).
Posicionamento da Universidade
Em nota oficial, a USP lamentou os episódios de violência e esclareceu que não foi informada previamente sobre o horário da intervenção policial. A Reitoria defendeu que manteve diálogo permanente, mas que as negociações atingiram um limite após o atendimento de diversos itens e a recusa do movimento em aceitar as propostas viáveis.
A universidade reiterou que continua aberta ao diálogo para consolidar os pontos já acordados, desde que seja garantido o direito de ir e vir em todos os espaços da instituição. O policiamento permanece no local para garantir a integridade do patrimônio.
Íntegra da nota da Universidade de São Paulo:
"A Universidade de São Paulo (USP) lamenta os acontecimentos durante o processo de reintegração de posse do prédio da Reitoria, ocorrido na manhã deste domingo, dia 10 de maio.
Cumprindo seu dever de ofício de proteção da integridade física dos docentes, servidores técnico-administrativos, estudantes e terceirizados, bem como dos espaços físicos, a Reitoria informou sobre a ocupação à Secretaria de Segurança Pública (SSP), no mesmo dia do ocorrido (7/5), com vistas à adoção dos protocolos de proteção e de preservação da ordem de competência das autoridades policiais. Na manhã deste dia 10 de maio, sem comunicação prévia à Reitoria, houve a desocupação do espaço público pela Polícia Militar. Segundo nota oficial da SSP, “a Polícia Militar ressalta que eventuais denúncias de excesso serão rigorosamente apuradas”.
Importante ressaltar que, ao longo de todo esse período, a Reitoria manteve a disposição permanente para o diálogo e para o acompanhamento dos encaminhamentos acordados nas negociações com o movimento estudantil. As tratativas, no entanto, chegaram a um limite diante:
Do atendimento de diversos itens da pauta por parte da Reitoria;
Da constituição de sete grupos de trabalho para estudo de viabilidade de outros pontos da pauta;
Da insistência em reivindicações que não podem ser atendidas; e
De itens de pauta fora do âmbito de atuação da Universidade e a presença de pessoas externas à comunidade acadêmica.
A Reitoria segue aberta a um novo ciclo de diálogo com a finalidade de consolidar o que já foi encaminhado nas reuniões com a representação estudantil, o que pressupõe a manutenção do direito de ir e vir em todos os espaços da Universidade.
Por fim, a USP repudia que a violência substitua o diálogo, a pluralidade de ideias e a convivência democrática como forma de avanço de pautas e solução de controvérsias e reforça que continuará atuando com responsabilidade institucional, buscando a pacificação do ambiente universitário".
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



