Casal mineiro deixa o Brasil para acolher 327 crianças refugiadas de guerra no Burundi
Voluntários da Fraternidade Sem Fronteiras, naturais de Uberlândia, mudaram-se para o continente africano para coordenar projeto humanitário com órfãos do Congo

Enquanto o mundo assiste ao aumento alarmante no número de deslocados por guerras e crises humanitárias, um casal mineiro decidiu fazer o caminho inverso. Elisangela Teixeira Alves Soares, de 51 anos, e Vinicius Alves Soares, de 50, deixaram o conforto de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, para viver uma missão desafiadora: coordenar o acolhimento de 327 crianças refugiadas no Burundi, na África oriental.
Casados há 26 anos, eles atuam como voluntários da organização humanitária Fraternidade Sem Fronteiras (FSF). O grupo de crianças sob a responsabilidade do casal foi transferido às pressas da República Democrática do Congo para o país vizinho, após a escalada dos conflitos armados colocar em risco a segurança dos acolhidos e dos trabalhadores do projeto Órfãos do Congo.
A jornada até a África
A ligação do casal com o voluntariado começou bem antes da mudança de continente. Vinicius conheceu a FSF em 2017 por meio de encontros espíritas em Uberlândia. Dois anos depois, Elisangela uniu-se às ações do projeto Fraternidade na Rua, focado no apoio a pessoas em situação de vulnerabilidade social na cidade mineira.
O convite para a missão internacional veio em maio de 2024, feito pelo fundador-presidente da ONG, Wagner Moura Gomes. Antes da mudança definitiva para o Burundi, em fevereiro de 2025, os mineiros passaram por um período de adaptação de 18 dias no Malawi, conhecendo o Campo de Refugiados de Dzaleka.
A decisão impactou a rotina da família. Os filhos, já adultos, apoiaram a escolha dos pais desde o início, enquanto outros parentes demonstraram a natural preocupação com a segurança e a distância. "Ficamos apreensivos com o novo, mas Deus nos dá força, coragem e fé. E aqui estamos", resume o casal.

Rotina e reconstrução
No Burundi, Elisangela e Vinicius assumiram a gestão diária do centro de acolhimento. A rotina envolve desde a organização das refeições e cuidados com a saúde até o acompanhamento escolar, o lazer e, principalmente, o suporte emocional para que as crianças superem os traumas da guerra.
"Aqui somos pai e mãe. A cada dia ficamos mais felizes com o trabalho que Jesus nos designou", afirma Vinicius. Elisangela ressalta que o afeto recebido compensa as dificuldades: "Temos muitos desafios, mas o carinho com que cada uma das crianças nos vê minimiza tudo e nos fortalece".
Crise global de refugiados
A história dos voluntários ganha relevância diante dos dados mais recentes do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), que apontam que mais de 117,3 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas no mundo devido a conflitos e violações de direitos humanos, o equivalente a uma em cada 70 pessoas no planeta.
Como ajudar
A Fraternidade Sem Fronteiras atende atualmente mais de 37 mil pessoas globalmente. Os projetos na África, como o Órfãos do Congo, dependem de doações e do sistema de apadrinhamento financeiro (com contribuições mensais a partir de R$ 35). Detalhes sobre como colaborar estão disponíveis no site oficial da instituição.
Alex Araújo é formado em Jornalismo e Relações Públicas pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e tem pós-graduação em Comunicação e Gestão Empresarial pela Universidade Pontifícia Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Já trabalhou em agência de publicidade, assessoria de imprensa, universidade, jornal Hoje em Dia e portal G1, onde permaneceu por quase 15 anos.
