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Após 20 dias, moradora afetada por incêndio na fábrica da Suggar chega à 4ª casa provisória

Elisângela Silva Braz, de 47 anos, deixou a residência onde vivia com a mãe e a irmã após o incêndio; família enfrenta mudanças, separação e incerteza sobre quando poderá voltar para casa

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Imagens cedidas à Itatiaia.

20 dias após o incêndio que atingiu a fábrica da Suggar, em Belo Horizonte, Elisângela Silva Brás, de 47 anos, ainda não sabe quando poderá voltar para casa. Desde a noite do dia 6 de agosto, em que o fogo atingiu a unidade da empresa, a moradora já passou por quatro endereços provisórios. Atualmente, ela está em um apartamento no bairro Santo Antônio, na região Centro-sul da capital, enquanto a mãe permanece em uma casa junto com outras pessoas da família que também foram atingidas.

A residência onde Elisângela vivia com a mãe, que tem Alzheimer em estágio avançado, e uma irmã foi isolada preventivamente pela Defesa Civil devido aos riscos provocados pelo incêndio. Outras duas casas do mesmo lote também foram afetadas. O incêndio aconteceu no bairro Pilar, na região do Barreiro, durante a noite de 6 de agosto e se estendeu durante toda a madrugada do dia seguinte.

A moradora denuncia que situação interrompeu uma rotina familiar que, segundo Elisângela, era organizada em torno dos cuidados com a mãe. Ela trabalha em um centro de saúde localizado no mesmo bairro onde morava e costumava levar cerca de sete minutos para chegar em casa. O irmão também participava dos cuidados com a mãe, alternando os horários com ela. Com o incêndio e as repentinas mudanças de endereço, a família encontra dificuldades em administrar a nova rotina.

'Cenário de guerra'

Na madrugada do incêndio, Elisângela conta que estava na sala de televisão quando adormeceu. Ela disse que foi acordada pelos latidos insistentes das suas duas cadelas. Ao abrir a porta, ouviu os gritos de um vizinho e viu as chamas no galpão da Suggar, que fica bem ao lado de sua casa.

Assustada, ela chamou a irmã e as duas começaram a retirar a mãe da residência. Segundo a moradora, ninguém teve tempo de pegar documentos, roupas ou outros pertences. A família deixou a casa apenas com o pijama e contou com a ajuda dos vizinhos. “Quando eu fui na rua, assustei. Olhei para o fogo e, é uma coisa de guerra, cenário de guerra”, lembra.

A situação se tornou ainda mais complicada, segundo ela, porque uma sobrinha de Elisângela, que tem síndrome de Down, resistiu a deixar uma das residências atingidas e precisou ser retirada por um rapaz que estava no local.

A moradora estima que o fogo tenha começado por volta das 23h50 ainda do dia 6 de agosto. Ela afirma, porém, que acionou o Corpo de Bombeiros somente por volta de 0h48, quando se deu conta do incêndio. Segundo seu relato feito pelos militares, naquele momento ainda não havia outra chamada registrada para a ocorrência.

As chamas destruíram um dos galpões da Suggar e provocaram o colapso do telhado e de outras estruturas. A Defesa Civil isolou imóveis próximos devido ao risco provocado pela estrutura danificada.

Veja imagens do local após o incêndio:

Perdas vão além dos danos estruturais

Além do galpão da empresa, as chamas também atingiram parte da residência de Elisângela. Segundo a moradora, um pé de abacate foi queimado, o telhado de uma área externa foi danificado e roupas que estavam no varal pegaram fogo. Um cômodo utilizado para guardar ferramentas e objetos antigos do pai também foi atingido. Entre os itens destruídos estavam sapatos, tênis, objetos das cachorras e uma churrasqueira.

Além disso, objetos e um banco de madeira que haviam sido preservados pela família como lembrança do pai de Elisângela, que morreu cerca de um ano antes do incêndio também foram queimados. "Estava tudo lá. Ele era muito organizado, então tínhamos tudo dele 'guardadinho'. Meu irmão guardou o banco para a gente ter a memória do meu pai ali, sempre que sentássemos no banco, agora também se foi", desabafou a moradora. 

Uma galinha que ficava em um pequeno galinheiro também morreu durante o incêndio, contou a moradora. Na casa de uma das irmãs, que fica no mesmo lote, a caixa d'água derreteu, o muro ficou trincado e parte do reboco caiu. Plantas e uma horta mantida pela família também foram atingidas. Segundo Elisângela, a Defesa Civil informou que as três moradias do lote precisariam permanecer isoladas preventivamente por causa do risco de colapso da estrutura do galpão.

Quatro casas em menos de três semanas

Sem ter para onde ir, Elisângela conta que a primeira noite após o incêndio foi passada na casa de um irmão, ainda no bairro Pilar. Depois, a moradora foi para a residência de uma outra irmã, localizada a poucos quarteirões dali. Na sequência, a Suggar providenciou uma casa mobiliada no bairro Marajó, na região Oeste de BH, para as famílias atingidas.

O imóvel, segundo Elisângela, era adequado em diversos aspectos, mas tinha escadas que dificultavam a locomoção da mãe. “Era uma casa muito boa, por sinal, que foi escolhida rápido, mas que tinha escada. A gente precisava carregar minha mãe nas costas sempre para subir e descer”, conta.

A família permaneceu apenas cerca de uma semana no local. Depois, Elisângela foi encaminhada com suas cachorras para um apartamento no Santo Antônio, na regional Centro-sul de BH, onde permanece até o momento. A expectativa inicial era permanecer ali por apenas um ou dois dias. Segundo a moradora, porém, a estadia se prolongou. A mãe de Elisângela está em um outro imóvel alugado pela Suggar, no bairro Pilar, junto com outras pessoas da família, que também tiveram os seus imóveis isolados pela Defesa Civil.

Além da troca de endereços, Elisângela denuncia também outra falta de assistência da Suggar. Quando chegou ao apartamento, ela disse que encontrou móveis, mas não havia alimentos nem alguns itens básicos para a rotina doméstica. "Não tinha nada, nada para comer. Nem um fósforo para você acender o fogão. Só tinha copos e móveis" afirmou. Além da falta de insumos, Elisângela denuncia que o apartamento escolhido não tem espaço adequado para manter suas cadelas de estimação.

A principal preocupação de Elisângela atualmente é conseguir um endereço definitivo enquanto a residência original não pode ser ocupada. Ela afirma que chegou a escolher outro imóvel, mas a negociação não avançou.

“Eu quero, pelo menos, um endereço pra falar assim: olha, eu estou morando aqui”, diz Elisângela. Ela está de férias desde o dia em que o incêndio aconteceu e deve retornar às suas funções em 9 de setembro. A expectativa é que até essa data tenha conseguido uma moradia que permita reorganizar a rotina familiar e facilitar seu acesso ao local de trabalho.

Moradora cobra atuação do poder público

Além das dificuldades com a empresa, Elisângela reclama da ausência de acompanhamento de outros órgãos depois do incêndio. Segundo ela, a Defesa Civil esteve no local, realizou uma vistoria e determinou o isolamento preventivo dos imóveis. A moradora afirma, porém, que não recebeu posteriormente acompanhamento de assistentes sociais, médicos ou outros profissionais.

Ela também afirma que chegou a procurar órgãos públicos por conta própria para tentar obter informações sobre a situação da residência. Segundo a moradora, nenhum órgão ofereceu orientação jurídica ou assistência para que os moradores pudessem entender quais seriam os próximos passos.

A reportagem da Itatiaia entrou em contato com a Defesa Civil de Belo Horizonte em busca de atualizações sobre a situação das casas isolas. Em nota, o órgão afirma que ainda "mantém as medidas preventivas de isolamento" adotadas no entorno da fábrica atingida pelo incêndio. Ao todo, três residências permanecem isoladas e um quarto imóvel tem uma restrição válida para a área externa. A Defesa Civil explica ainda que os imóveis não foram diretamente atingidos pelo incêndio, mas permanecem isolados de forma preventiva devido ao risco de serem afetados por "eventual queda ou colapso de elementos das estruturas dos galpões".

Segundo o órgão, uma segunda vistoria já foi realizada nos três galpões atingidos pelo incêndio e as novas avaliações identificaram diferentes níveis de comprometimento das estruturas. O galpão utilizado como estoque foi totalmente destruído e apresenta risco de colapso da estrutura metálica da cobertura e de desabamento das paredes que ainda ficaram de pé. No galpão de produção, foram constatados riscos de desabamento parcial da estrutura do telhado e das paredes do mezanino. Já no galpão de produção de linhas injetoras, foram identificados pontos com queda parcial de tijolos cerâmicos, vigotas com ferragens expostas e risco de queda da parede de separação entre os galpões.

A partir da nova avaliação, a Defesa Civil afirma, então, que "diante das condições verificadas, permanecem os isolamentos preventivos das áreas que podem ser atingidas em caso de novos desabamentos, incluindo os imóveis vizinhos". Em relação ao prazo para liberação das casas, o órgão aponta que ainda "não há previsão para a liberação das residências".

Trauma continua mesmo longe do incêndio

Para Elisângela, os efeitos do incêndio não terminaram quando deixou a casa. A separação da família, a perda dos objetos e a ausência de uma definição sobre o futuro da residência prolongam a sensação de insegurança. O período também teve um peso emocional adicional para a família porque o incêndio ocorreu às vésperas do Dia dos Pais, data especialmente difícil após a morte do pai. “Além de não ter o nosso pai lá, a gente teve que ver aquela coisa, estar na casa de parentes. Uma situação muito difícil para a nossa família”, conta.

A moradora afirma que solicitou atendimento psicológico durante o período de deslocamento entre as casas, e ressalta que só recebeu o acompanhamento porque pediu por ele. Enquanto isso, a residência onde a família construiu a própria rotina permanece isolada. A Suggar informou anteriormente que está prestando suporte aos moradores afetados, enquanto a Defesa Civil mantém o acompanhamento das condições estruturais da área.

A reportagem da Itatiaia questionou a Suggar sobre as denúncias de Elisângela. Por meio de nota, a empresa informou que "segue prestando assistência às famílias impactadas pelo incêndio". Ainda segundo o posicionamento, duas das três famílias já estão acomodadas em imóveis alugados pela empresa por tempo indeterminado.

A terceira família, que está acomodada em imóvel provisório providenciado pela Suggar, escolheu hoje (26) uma residência para estadia permanente, conforme a nota. "A empresa entregou nesta quarta-feira toda a documentação necessária para a locação, que agora segue os trâmites para a assinatura do contrato. Até a conclusão do processo, a família permanece recebendo o suporte necessário", concluiu.

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Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

 

 

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