A melodia de Alcivander: quando o samba se tornou cuidado e despedida em hospital de BH
Despedida emocionante ocorreu no hospital Célio de Castro, no Barreiro, em Belo Horizonte

‘Triste de quem sem ninguém na hora da partida, mas quando um homem de bem morre por ser um líder nasce uma estrela no céu’. O trecho da música Samba Fúnebre, de Pixinguinha e Vinícius de Moraes, ilustra bem a história de vida de Alcivander Jesus Matos, 61 anos. Ele morreu em 17 de março deste ano, nove dias após ser homenageado com uma roda de samba no leito do Hospital Célio de Castro, no Barreiro, em Belo Horizonte.
A homenagem, proposta pelo hospital e que contou com apoio da família, comoveu as redes sociais. Mas quem foi Alcivander? Qual era a relação dele com o samba? Como nasceu a ideia de prestar a homenagem nos últimos dias de vida dele? A pedagoga Bruna Valleska da Silva Matos, 31 anos, é uma das duas filhas de Alcivander. Em conversa com a Itatiaia, ela contou que o pai sofreu um AVC isquêmico grave no dia 14 de fevereiro, quadro agravado por uma doença renal que tinha há seis anos.
Apesar da gravidade e das sequelas motoras, sua "parte intelectual, cerebral" permaneceu preservada, permitindo que ele compreendesse tudo ao seu redor: "A diálise deixava ele muito debilitado, a ponto de ele ter quedas de pressão, de precisar ser reanimado com medicamento e de não conseguir se estabilizar mais", contou Bruna.
Conforme a filha, a relação do pai com o samba foi herdada da família. Em uma casa de 12 irmãos — seis homens e seis mulheres —, a música era o elo. "Todos os homens, nos anos 90, tinham um grupo de samba de raiz, em que tocavam em diversos lugares de Belo Horizonte... chamava Grupo Semente". Alcivander tocava pandeiro e outros instrumentos.
Mesmo quando o grupo deixou de ser profissional para a maioria, o samba nunca silenciou; ele continuava vivo em cada reunião familiar, com os sobrinhos seguindo os passos dos tios. Além de músico, Alcivander foi eletricista e pintor, até se aposentar em decorrência da doença renal.
A despedida
Diante da fragilidade do organismo, a equipe de cuidados paliativos do Hospital Célio de Castro propôs algo diferente de medicamentos: o conforto por meio da memória e do afeto. Em uma conversa descrita pela família como "muito respeitosa, humana", os médicos buscaram entender quem era Alcivander fora do leito hospitalar. "A gente chegou a um consenso de que um samba seria o que traria para ele esse conforto", relata sua filha.
A família, que teve a presença de dez membros liberada, levou os instrumentos para dentro do hospital. "Ele tocou, ele se emocionou muito... foi um momento que, para a gente, foi muito precioso".
Após a roda de samba, feita em um quarto no qual só havia Alcivander como paciente, a diálise foi suspensa, e a despedida aconteceu de forma ‘gradativa’ e ‘respeitosa’.
“Toda morte é ruim, mas a dele foi relativamente tranquila, porque a gente percebeu o cuidado de Deus em cada detalhe e também o cuidado que os profissionais (do hospital) tiveram com a gente. E ele morreu em paz. É o que eu posso dizer. Acho que ele teve a sensação de que a vida dele valeu a pena, apesar de ter morrido muito cedo, muito precocemente”, concluiu a filha.
Jornalista formado pela Newton Paiva. É repórter da rádio Itatiaia desde 2013, com atuação em todas editorias. Atualmente, está como editor de Cidades, Brasil e Mundo.



