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Morte em academia no Recife pode ter sido causada por rara condição cardíaca, diz médico

Cirurgião explica que impacto da barra de supino no peito pode ter desencadeado Commotio cordis; familiares de Ronald alegam que academia não tinha equipamentos de primeiros socorros

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Morte em academia no Recife pode ter sido causada por rara condição cardíaca, diz médico
Morte em academia no Recife pode ter sido causada por rara condição cardíaca, diz médico • Foto: Reprodução

A morte de Ronald José Salvador, presidente do Centro Cultural Palácio dos Bonecos Gigantes de Olinda, no Recife, após a barra de supino da academia cair sobre o peito dele, pode ter sido causada por uma rara condição chamada commotio cordis.

A avaliação é do médico e cirurgião-geral do trauma dos hospitais João XXIII e Júlia Kubitschek, Bruno Vergara. Em entrevista à Itatiaia, o especialista explicou que a pancada pode ter atingido o coração exatamente no momento em que ele estava se despolarizando. O caso aconteceu na segunda-feira (1º) e passou a repercutir nas redes sociais nesta quinta-feira (4).

Segundo Vergara, o impacto direto no tórax pode causar desde lesões leves até complicações extremamente graves. “Esse impacto importante no peito pode causar desde cortes e escoriações até fraturas de costelas. Em alguns casos, quando há fratura de costela, pode ocorrer perfuração do pulmão e sangramento dentro do tórax. Isso pode dificultar a respiração e, às vezes, até impedi-la, tornando-se uma urgência médica”, afirmou.

O acidente ocorreu por volta das 20h. Nas imagens, Ronald aparece deitado no equipamento, pronto para retirar a barra do supino, que estava carregada com peso. Ele ergue a barra e, segundos depois, o equipamento escapa das mãos e cai sobre o peito dele. Após o impacto, Ronald se levanta, e pessoas que estavam no local correm para ajudá-lo.

O médico detalhou ainda como a batida pode ter provocado uma arritmia fatal. “Na medicina, no traçado eletrocardiográfico, chamamos esse trecho de fase ascendente da onda T, um momento do ciclo cardíaco extremamente breve e delicado. Ele costuma durar de dez a trinta milissegundos, mas, se ocorre um impacto nesse intervalo, pode haver uma pressão muito grande sobre o coração, especialmente sobre o ventrículo, levando o paciente a uma arritmia grave chamada fibrilação ventricular”, completou.

O presidente do Conselho Regional de Educação Física (Cref) da 12ª Região/Pernambuco, Lúcio Beltrão, também falou à reportagem. Ele explicou que não é possível afirmar oficialmente, mas a forma como Ronald segurava a barra pode ter contribuído para o acidente. Segundo ele, o movimento registrado no vídeo é conhecido como “pegada suicida”, quando o polegar não envolve a barra, deixando o equipamento apoiado apenas nas palmas das mãos e nos outros dedos.

“Então, é como está na imagem. Esse nome, essa pegada suicida, é exatamente a forma errada de segurar. O correto é colocar o polegar e o indicador envolvendo a barra, segurando firme com as mãos afastadas. No caso dele, ele pegou de um jeito errado, por apoiar a barra só no pulso, sem fechá-la totalmente com os dedos”, afirmou.

A vítima chegou a ser socorrida por profissionais da academia e levada à Unidade de Pronto Atendimento (UPA), mas não resistiu. O conselho informou que o estabelecimento estava regularizado e contava com um profissional de educação física presente no momento do acidente.

Vergara ressaltou que, caso Ronald tenha realmente sofrido commotio cordis, a única forma de reverter o quadro seria a desfibrilação imediata. “Provavelmente, se esse paciente sofreu commotio cordis, ele entrou em um ritmo chamado fibrilação ventricular. Para revertê-lo, a forma mais eficaz é a desfibrilação, o choque elétrico. Não sabemos se naquele ambiente havia alguém para iniciar a massagem cardíaca ou se existia um DEA disponível. Mas esse tipo de atuação, junto ao acionamento rápido do SAMU, poderia ter dado ao paciente a chance de sobreviver.”

Médico detalha protocolo de emergência

O cirurgião também explicou quais seriam os passos adequados de primeiros socorros em situações como a que resultou na morte de Ronald.

“Nesses casos, como vimos no vídeo, em que uma pessoa está consciente e, de repente, cai inconsciente, o procedimento de primeiros socorros deve seguir alguns passos. O que precisa ser feito imediatamente é acionar o serviço de urgência, ligando para o SAMU ou para o Corpo de Bombeiros”, disse. Ele reforçou que, enquanto a ajuda não chega, é necessário iniciar imediatamente a reanimação.

“Acredito que muitas pessoas têm treinamento e, normalmente, em academias, há profissionais da área da saúde capacitados para realizar a ressuscitação cardiopulmonar (RCP), que inclui a massagem cardíaca. Isso certamente ajuda a salvar vidas.”

Confira a nota CREF12/PE:

"O Conselho Regional de Educação Física da 12ª Região – Pernambuco (CREF12/PE) lamenta profundamente o falecimento do aluno que sofreu um acidente enquanto treinava em uma academia no município de Olinda/PE. Ele chegou a ser socorrido e levado por profissionais do estabelecimento à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mas não resistiu. O Conselho se solidariza com familiares e amigos.

O CREF12/PE informa também que o estabelecimento estava regularizado e com Profissional de Educação Física presente no local.

O CREF12/PE reforça à população a importância de sempre treinar em academias registradas no Conselho e de exigir a apresentação da CIP (Carteira de Identidade Profissional) do responsável técnico e dos profissionais que atuam no local. Esse hábito aumenta a segurança do praticante, reduz riscos e assegura que o treinamento seja conduzido por profissionais habilitados.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o Tá Sabendo no Instagram da Itatiaia.