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Contaminação de peixes por microplásticos ameaça produção agrícola, alerta pesquisador

'A discussão sobre a poluição plástica avança muito lentamente e é preciso acelerar medidas para proteger os ecossistemas', diz professor da Unifesp

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Contaminação de peixes por microplásticos ameaça a produção agrícola • Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

O consumo e a morte de peixes contaminados por microplásticos podem afetar não apenas a disponibilidade de alimentos, mas também a produção de culturas essenciais para a agricultura brasileira, como soja, café, feijão e laranja.

O alerta foi feito por Décio Luis Semensatto Júnior, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), campus de Diadema, durante a Escola São Paulo de Ciência Avançada sobre Poluentes Emergentes, realizada entre 2 e 13 de setembro em Santos (SP).

É preciso que o problema da ingestão de microplásticos por peixes seja analisado de forma integrada, porque os ecossistemas aquáticos e terrestres estão conectados

décio luis semensatto junior, professor universidade federal são paulo (unifesp)

“Para aumentar a produção vegetal, é preciso proteger os peixes contra a contaminação por microplásticos, porque a natureza está conectada”, reforçou o especialista.

Onipresença dos microplásticos

Os microplásticos derivam da degradação de objetos plásticos maiores, como garrafas e sacolas, e podem percorrer grandes distâncias, atingindo diversos organismos aquáticos. Mesmo organismos minúsculos, como a pulga-d’água (Daphnia magna), são afetados. Essa espécie, que mede no máximo 5 milímetros, filtra matéria orgânica da água e é usada como bioindicador em testes ecotoxicológicos.

Em laboratório, foram encontrados nanoplásticos dentro desses microcrustáceos, que podem se originar de tampas de garrafas ou fibras plásticas fragmentadas.

“Isso mostra como um único fragmento pode se multiplicar em incontáveis outros, cada um com sua própria ‘história’ química e física. É uma tragédia”, avaliou Semensatto.

Alterações químicas e físicas dos microplásticos

Durante o percurso pelos ambientes aquáticos, os microplásticos sofrem alterações químicas e físicas que dificultam a identificação dos polímeros originais. A exposição à radiação UV, à água e a outros fatores ambientais provoca degradação, mudanças na cor e na estrutura física, aumentando a liberação de partículas ainda menores, os nanoplásticos.

Em um projeto de pesquisa na foz do rio Amazonas, os pesquisadores identificaram fibras plásticas fragmentadas ao longo do tempo, liberando nanoplásticos que se dispersam pelos ecossistemas.

Plásticos e mudanças climáticas

Semensatto alerta que a poluição por plásticos está diretamente relacionada à cadeia de produção e ao ciclo de vida desses materiais.

“Embora os plásticos possam ser fabricados a partir de fontes renováveis, 99% dos polímeros usados hoje vêm de combustíveis fósseis. Ou seja, são combustíveis fósseis em movimento”, explicou.

Em agosto, representantes de 184 países se reuniram em Genebra, na Suíça, para discutir um instrumento jurídico vinculante contra a poluição plástica. No entanto, as negociações terminaram sem consenso, o que preocupa especialistas.

“A discussão sobre a poluição plástica avança muito lentamente e é preciso acelerar medidas para proteger os ecossistemas”, alertou Semensatto.

*Com Agência Fapesp

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Jornalista graduada na PUC Minas. Trabalhou como repórter do caderno Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, produziu inicialmente conteúdos para as editorias Minas Gerais, Brasil e Mundo. Atualmente, colabora com as editorias Turismo e Emprego e Concursos.